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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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O mundo assombrado pelos demônios, de Carl Sagan

o-mundo-assombrado-capaAntes de ler O mundo assombrado pelos demônios, li Contato, o romance “alienígena” de Carl Sagan. Protagonizado por uma cientista, o livro apresenta um observatório que recebe estranhos sinais de rádio que, quando descriptografados, mostram que estivemos sendo observados do espaço esse tempo todo, e ainda oferece um manual para a construção de uma espécie de nave para encontrarmos nossos “vizinhos”. Antes mesmo de saber quem era Sagan e qual era a sua importância para a ciência, eu conhecia sua ficção – que na época gostei bastante.

Depois de conhecer seu trabalho de astrofísico (cientista, astrobiólogo, cosmólogo etc.), ver um ou outro episódio de Cosmos e ficar mais interessada pelo que ele tinha de “real” para escrever, me interessei por O mundo assombrado… O livro, publicado em 1996, é descrito como uma carta de amor à ciência, um relato íntimo em que Sagan conta como foi conquistado por ela e por que a considera tão fundamental. O livro tem isso, mas também tem muito de alerta. Alerta para que o leitor saiba diferenciar ciência de pseudociência, de ser crítico e cético – que não é o mesmo que ser descrente em tudo, mas sim ser cauteloso com os fatos que se colocam na nossa frente. Mesmo agora, em 2014, com toda a tecnologia que nos permite acessar facilmente qualquer informação, esse alerta é muito necessário.

Sagan começa seu “relato de amor” com o início de seu interesse pela ciência, quando seus pais o levaram para uma exposição científica que, para um garoto curioso e deslumbrado, foi o pontapé inicial para o seu interesse em desvendar os segredos do Universo. Encanto que qualquer criança tem quando vê algo extraordinário acontecer e, logo depois, receber uma explicação que diz “o mundo é assim, sua natureza é incrível por si só, sem fantasias”.

Logo depois desse início animado, ele desabafa sobre a tendência do homem de, ao não encontrar uma explicação fácil e satisfatória para algum acontecimento, atribuir sua ocorrência a algo divino. As descobertas são diárias, e a ciência opera de maneira complicada demais para uma mente mal iniciada entender todas as suas implicações e explicações. Abraçar o sobrenatural, a fantasia, é mais fácil e confortante. É com esse conforto que Carl Sagan se preocupa, com os charlatães que usam da ignorância e boa vontade dos outros para sobressair intelectual e financeiramente, com aqueles que espalham informações falsas e terror – como foi a caça às bruxas na Inquisição. E isso tem sua causa no pouco acesso das pessoas a ciência, da falta de contato na infância com a lógica científica que afasta mesmo o adulto mais interessado de sua compreensão.

Os alienígenas que Sagan retratou em sua ficção são constantemente abordados no livro. Ao falar de sua profissão, a curiosidade de um leigo o leva a perguntar sobre vida extraterrestre, a contar histórias sobre avistamentos de discos voadores, sinais nos campos de trigo e sequestros alienígenas. Neste momento, Sagan volta aos tempos medievais onde as visões recorrentes não eram de naves ou criaturinhas verdes, mas de santos, demônios, possessões e sinais divinos para explicar como nossa obsessão pelo “inexplicável” é a mesma, só o alvo é diferente.

Aqui Sagan volta a sua crítica para a psicologia e seus profissionais que estariam “incentivando” seus pacientes a lembrarem de traumas que nunca tiveram para explicar suas “visões”. Nesta parte fiquei meio reticente com o autor, pois algo no tom de seu texto sugeria desconsiderar traumas reais, seja de abusos ou acidentes, como se tudo fosse um jogo para paciente e analista ganharem certa fama. É o momento do livro em que Sagan fica mais ríspido com aquilo que diminui o papel da ciência e suas descobertas, em que a empolgação por uma história inexplicável seduz o mais cético. Mas ele não é esse autor rabugento que aparenta em alguns parágrafos. Não, Sagan entende a vontade de quem prefere viver na fantasia, acreditando que existe algo além, seja isso um mundo divino ou uma sociedade avançada do outro lado do Universo. Ele mesmo gostaria que alienígenas pudessem ser reais, pois isso ampliaria ainda mais o conhecimento do homem sobre o mundo, teríamos com quem aprender além de nós mesmos.

O método científico é um tema indispensável neste livro. A defesa que Carl Sagan faz da ciência não é cega. Ele admite os seus erros, seus perigos, mas afirma que isso está intrínseco à sua prática: é normal errar, e errar faz parte do processo da descoberta, pois você elimina possibilidades e fica mais próximo de uma resposta coerente. Cientistas laureados com o Nobel erraram, antes ou depois de serem reconhecidos pelos seus feitos, e isso não é nenhum demérito. A ciência pode ser destrutiva, mas ao mesmo tempo também trouxe muito progresso. O que faz bem hoje pode não fazer amanhã. O cientista não é um louco em busca da dominação mundial, ele procura dominar o conhecimento e, no caso claro de Sagan, transmitir esse conhecimento para o maior número possível de pessoas.

Fazendo um bom papel de crítico, o autor apresenta nos últimos capítulos sua visão mais política da questão da ciência que, nesse caso, diz respeito ao próprio cidadão, em como é essencial que ele se informe o máximo possível e não deixe que o governo tome conta de todo o conhecimento. Como principal exemplo ele usa Thomas Jefferson, que no início da independência dos EUA lutou pela disseminação do conhecimento e dos direitos do cidadão. É preciso ser crítico e cético com aqueles que têm nas mãos a responsabilidade pela sua cidade, estado e país, e conhecer a História para evitar que antigos erros se repitam, como tendemos deixar acontecer.

Da pseudociência à religião, de ETs à médiuns, Sagan lista muitas coisas tomadas como verdades e críveis e as desconstrói com conhecimento. Ele mostra o quão perigosa é a ignorância, o quão danosa uma crença ilimitada pode ser. Mesmo escrito nos anos 1990, O mundo assombrado pelos demônios tem muitas críticas sobre como nos repassam a ciência e como a educação lida com ela que são válidas para os dias atuais, e não só no contexto norte-americano, de onde ele tira a maior parte de seus exemplos. Ele pode parecer pessimista em alguns momentos, mas o que Carl Sagan busca mostrar é que o conhecimento, seja científico ou popular – aquele que passa de geração a geração e é verificável pela ciência -, seja matemático ou literário, é o bem mais precioso que os humanos poderiam ter.

O mundo é vasto e desconhecido, o Universo mais ainda, e é aí que mora todo o maravilhamento de Sagan pela ciência. É um mistério sem fim, um entretenimento que durará até o fim da nossa existência, e por isso nunca será tedioso, pois há sempre algo novo a se descobrir, uma teoria a se derrubar, uma visão de mundo a ser alterada para o bem de todos. O demônio que nos assombra é a própria falibilidade humana e, para Sagan, precisamos nos munir com um “kit de detecção de mentiras” para evitar cair em truques. É isso o que Carl Sagan defende, que a ciência, o pensamento crítico e o conhecimento são fundamentais para não vivermos uma nova caça às bruxas.