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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Tempo de espalhar pedras, de Estevão Azevedo

tempo-de-espalhar-pedras-cpaA terra neste lugar já foi próspera, mas não se pode dizer o mesmo nos dias de hoje. Plantação nunca vingou muito, só para o sustento. Criação ninguém nunca teve muita para dela tirar lucro. A riqueza que havia ali vinha das pedras, do garimpo de diamantes que levou até lá homens em busca de riqueza, e que caíram nas mãos controladoras de um coronel capaz de confiscar as próprias ferramentas de trabalho como pagamento de dívidas que ele forçou seus homens a adquirir. Hoje eles continuam a trabalhar com menos afinco que antes, mas com esperança e desespero maior, movidos pela fome em busca da última pedra.

Em Tempo de espalhar pedras, Estevão Azevedo acompanha a vida de quatro personagens nessa terra sem nome: Ximena, filha de um dos garimpeiros mais velhos, se engraça com Rodrigo, este caçula de garimpeiro rival, Diogo. Ainda há Joca, seu irmão, que busca uma forma de mostrar seu valor, se não para a família que seja para Bezerra, amigo que o acolhe na busca pela pedra em local escondido das fuças do coronel. E, por fim, Silvério, o carola que reza enquanto, alucinando de fraqueza e fome, procura convicto a pedra que se esconde quiçá debaixo da própria casa.

Todas essas pessoas são miseráveis na pobreza e no modo de viver. O sonho de deixar a aldeia e partir para lugares mais prósperos e mudar de vida é sempre adiado pela cachaça. Todo soldo ganho é gasto no bar e no bordel. O dia de trabalho em busca de um diamante é compensado com três dias de ócio e desperdício – até a última moeda ir embora e voltarem ao trabalho novamente. Em meio à tanta privação, é difícil controlar os impulsos do corpo e da mente, e assim amantes se encontram escondidos na mata, amigos viram inimigos nas fantasias dos paranóicos.

A miséria do lugar não se reflete na narrativa, muito pelo contrário. O texto de Estevão Azevedo coloca pompa nas palavras, mas não de um jeito pedante. Transforma em algo belo de ler a vida triste dessa aldeia em iminente decadência. Não é por serem analfabetos, brutos e violentos que as personagens não tenham sua sabedoria, principalmente as mulheres, de todas as mais sofridas – agredidas pelos maridos deprimidos pela pobreza, estupradas pelos homens que encontram no sexo ao alívio de mais um dia sem lucro. Essa violência às tornam fortes, pois por mais que se deixem oprimir, elas sabem que no fim serão elas que sobreviverão.

O autor mescla bem a história de cada uma dessas pessoas. Os dramas, de início isolados, aos poucos se juntam em um grande problema só. Tudo descamba para a violência à serviço da honra, até o tórrido caso puramente carnal de Ximena e Rodrigo. O que parecia ser amizade, ou até algo a mais, que Joca nutre por Bezerra, para o outro é tramoia, desconfiado sempre de estar sendo roubado ou passado para trás. Um olhar torto ou uma vírgula fora de lugar são motivos suficientes para que esses homens levantem seus facões e engatilhem suas armas.

Num lugar onde poucos têm, seja comida, dinheiro ou trabalho, não há muito a perder. Viver ou morrer não faz tanta diferença. Matar não vai corromper alma alguma, pois tudo já é ameaçado. A honra, a palavra e a “macheza” é tudo o que eles têm. E é aí que vive a violência que serve como escape para tanta miséria e tristeza de Tempo de espalhar pedras. Os homens, enfraquecidos em sua masculinidade, empregam ainda mais força sobre as mulheres, essas sim as que realmente conseguem aguentar qualquer coisa, mas se encolhem e fingem para a própria sobrevivência.

Esse é o drama que Estevão Azevedo trabalha em seu romance de forma tão poética e bem descrita – sem nunca aliviar os horrores do lugar. As palavras que ele usa raramente estariam na boca de alguma de suas personagens, mas a elas caem bem. Há arte na narrativa que compensa a miserável existência dessas pessoas.

“Quem prospera tem empregados. Quem tem sobrenome não aperta o gatilho. Tampouco faz as contas, mas desconfia de quem as faz e, nesse caso, ou por outros motivos quaisquer, manda apertarem o gatilho, modo de fazer crer que entende os algarismos e de evitar que o próximo lhe passe a perna.”