a-balada-de-adam-henry-capaDentre o monte de livros que compõem a minha pilha interminável de futuras leituras, escolhi A balada de Adam Henry, o mais recente romance de Ian McEwan, pelo dilema moral e religioso que a história prometia. Fiona Maye é uma juíza do Tribunal Superior especializada em direito de família, em Londres, e está prestes a completar sessenta anos. Com sucesso na carreira e, até então, na vida pessoal, ela vê sua rotina abalada pelo pedido do marido, Jack, de que eles tenham um casamento “aberto”, ou seja: insatisfeito com a vida sexual, ele informa Fiona que está interessado em uma mulher muito mais nova, uma estudante de estatística de 28 anos, e que gostaria de manter um caso com ela, mas com o consentimento da esposa – ela mesma poderia ter suas aventuras fora do casamento.

Inconformada com o pedido de Jack, Fiona não aceita o acordo e exige que ele escolha entre a longa e tranquila união e a jovem. Ao se ver sozinha em casa, ela mergulha ainda mais no trabalho que ocupou sua rotina durante toda a vida, mas que nunca chegou a tirar momentos seus com Jack, apesar de não ter dado espaço para que ela tivesse filhos. Até aí, tudo bem, vemos os detalhes de uma história comum sobre uma mulher ameaçada de abandono que usa o trabalho para esquecer por algumas horas os dramas pessoais. Mas a história de Fiona toma um novo rumo com a chegada de Adam Henry, adolescente de 17 anos com um tipo raro de leucemia que precisa de uma transfusão de sangue urgente para dar continuidade ao tratamento que salvará a sua vida. Porém, o jovem e sua família recusam a transfusão. São Testemunhas de Jeová e, pelas regras da religião, uma pessoa não pode receber em seu corpo o sangue de outra, o sangue dado por Deus não pode ser “profanado” com o de outro ser vivo. Como Adam é menor de idade, o hospital leva a decisão à justiça, e cabe à Fiona decidir qual será o futuro do garoto.

O julgamento de Adam se passa em poucos dias, com Fiona recordando as palavras do marido, relembrando os momentos felizes que tiveram, fazendo um paralelo desses momentos de sua vida conjugal com os casos mais complexos que julgou – um pai judeu ortodoxo disputando com a mulher a guarda e o futuro da educação das duas filhas; casos de crianças com pais viciados que são deixados com os avós; divórcios de famosos etc. Adam Henry se torna um caso maior e mais marcante, e o julgamento às pressas que pode ir contra as vontades de um rapaz prestes a atingir a maioridade – sua salvação pela medicina Vs. a violação de seu corpo ao ser obrigado a se submeter a um tratamento invasivo – intriga a juíza, que toma a decisão de visitar Adam no hospital para ver com os próprios olhos se o garoto tem a maturidade necessária para decidir morrer ou não. McEwan constrói, então, certa intimidade entre Fiona e Adam, uma relação que deve ocupar o resto do livro.

Os casos anteriores de Fiona e o raciocínio que a leva à decisão sobre Adam Henry são inteligentes e coerentes. McEwan acerta ao esmiuçar a lógica profissional de uma mulher bem sucedida e dedicada ao trabalho. Mas alguma coisa nesta narrativa não me deixou tão empolgada quantos os outros romances de McEwan que já li e gostei muito, como Na praia e Serena. Acredito que essa minha relutância vem da construção das personagens, que não considerei tão bem desenvolvidas, complexas, como as dos outros livros. Fiona é dura e irredutível quanto à traição de Jack, e se controla para não tomar decisões drásticas demais que podem acabar definitivamente com o casamento, mas a fragilidade por trás dessa máscara não é tão bem explorada.

O próprio Jack não me agradou com a sua “desculpa” para a traição – não que eu seja especialista em traições, mas ver um homem maduro dizer que ficou atraído por outra mulher porque sua esposa não está mais transando com ele há algum tempo não é um motivo razoável, a atração poderia existir mesmo se a sua vida sexual fosse satisfatória. É como se ele jogasse toda a culpa do possível fracasso do casamento em cima de Fiona: se ela não preencher suas necessidades sexuais, ele procura outra, e se ela não aceitar seu caso com a outra, o casamento termina por causa de sua “teimosia”. E Adam, que teria tudo para ser um adolescente cativante e inteligente, tem aquele jeito de menino prepotente que pensa saber tudo, ter pleno conhecimento de suas vontades, de pensar que é mais adulto que a própria juíza quando na verdade não viu nem metade do que é o mundo ou a vida.

A relação de Fiona com Adam, que é o ponto alto do livro, não chega a empolgar de verdade. Ele fica obcecado pela juíza que lhe “salvou a vida”, e passa a mandar cartas e a segui-la como se ela fosse uma mentora ou algo do tipo. Fiona se mostra mais desconfortável com essa suposta perseguição e insistência do garoto em falar com ela do que atraída. Sim, ela tem simpatia por ele e se interessa pelo seu bem-estar, mas a cabeça dela está muito mais no casamento quase arruinado que num suposto affair com um rapaz 40 anos mais jovem. Essa ideia, aliás, a amedronta.

A balada de Adam Henry não foi uma leitura estafante, de jeito algum. Quando McEwan detalha os casos que já passaram pelas mãos da protagonista, o livro fica muito mais interessante, oferecendo aquilo que eu esperava da leitura: histórias complexas e bem argumentadas que levam a julgamentos polêmicos. Mas comparado com seus outros livros, a história deixa a desejar ao não se aprofundar o bastante em tudo o que as personagens poderiam oferecer.