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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Não sou uma dessas, de Lena Dunham

nao-sou-uma-dessas-capaNão sou uma fã de Girls. Vi alguns episódios fora de ordem e de diferentes temporadas. Vi Lena Dunham nua praticando um sexo meio humilhante com aquele ator de voz grossa que vive aparecendo em filmes aleatórios que eu até gosto, mas é impossível para mim lembrar do nome dele – estava em Inside Llewyn Davis, Frances Ha e o último em que o vi era What If?, com o Daniel Radcliffe. Curti o estilo daquela loirinha que usa calças largas com as barras dobradas até as canelas, sapatos masculinos e coque alto. Comparei Hannah com algumas amigas espevitadas que tive no colégio, que se achavam legais demais para compensar uma falta de crença nelas próprias. Não vi episódios o bastante para dizer algo mais concreto sobre a série. Não desgostei do que vi, mas também não gostei a ponto de querer acompanhar ela inteira.

Porém, vivo na internet, o que significa que toda hora pula nas minhas timelines alguma coisa dita por Lena Dunham, sendo polêmica ou não – geralmente há pessoas criticando as tatuagens dela (que não acho horríveis), o cabelo novo ou as roupas que ela usa nas premiações (que também não me incomodam em nada, como não deveriam incomodar ninguém). Sempre tendi a achar que a própria Lena é uma dessas pessoas que causam essas “polêmicas” por causar, mas quando Não sou uma dessas foi publicado, fiquei curiosa para ler o que ela tinha a dizer sobre a vida de uma jovem garota mais perto dos 30 anos do que dos 20 – que é mais ou menos onde estou entrando agora.

De início imaginei que o livro seria uma espécie de manifesto feminista, algo do tipo que eleva o amor próprio a um patamar alto, dizendo que ela (e você) não é uma “dessas” mulheres que se deixam submeter aos homens. Mas não é isso (ou não é só isso). O livro é justamente aquilo que o subtítulo diz: Uma garota conta tudo que “aprendeu”. Assim, entre aspas, dando a entender que ela ainda tem muito a “aprender”, ou que o que ela “aprendeu” não é exatamente algo que seja certo ou super revelador da vida. É só uma mulher de 27-8 anos escrevendo as experiências que a marcaram em vários aspectos da vida e em diferentes momentos.

O livro de 300 páginas é dividido em 5 seções: “Amor & sexo”, “Corpo”, “Amizade”, “Trabalho”, e “Panorama”, esta última englobando desde sua experiência com a terapia a verões passados em acampamentos de férias e reflexões sobre a morte e coisas que lhe dão medo. Lena narra de uma maneira bem objetiva, não faz grandes digressões que interrompem sua linha de raciocínio. Ela tenta demonstrar seus sentimentos, ou sua confusão, de maneira clara, dando a entender que aquilo que ela escreve não é definitivo, que ela pode vir a mudar de opinião, abandonar algumas ideias e elaborar outras, pois ela nem chegou na metade da vida ainda. Em nenhum momento da leitura senti como se ela estivesse tentando enfiar algum tipo de visão sobre “o que é ser uma jovem mulher no mundo”, como penso que algumas pessoas possam ter achado que o livro faria. Ela não faz julgamentos sobre as mulheres, sobre como elas deveriam ser, agir ou pensar. Ela só escreve sobre ela, o que ela sabe até agora, o que gostaria de saber.

Não encontrei nada de muito polêmico neste livro. O único trecho que me deixou meio desconcertada, mas que não considerei nada grave, foi quando ela elencou entre os motivos de amar Nova York o fato de que você vai receber cantadas de homens na rua independente de ser bonita ou feia, estar nos padrões ou não – o que, particularmente, considero um grande problema. De resto, nada é muito chocante, nem o trecho que levantou certa poeira na internet em que ela conta como colocou um dedo dentro da vagina da irmã mais nova (ela tinha 7 anos, a irmã uns dois, e foi pura curiosidade infantil). Sim, depois disso ela manteve uma relação psicologicamente abusiva com a irmã, aquela coisa de irmão mais velho querer que o mais novo dependa sempre dele – não estou dizendo também que isso seja saudável, apenas que tiraram todo esse trecho do contexto para fazer Lena parecer o diabo na terra.

Sobre feminismo, não tenho muito a dizer além de que não acho bacana quando as mulheres tentam invalidar o feminismo de outra mulher. Não existe mulher perfeita, é impossível não cair em contradição de vez enquanto, e considero um absurdo criticar Lena pelo seu feminismo quando ela é um dos poucos exemplos de mulheres jovens e talentosas que conseguiram subir na carreira pelos seus próprios méritos, sem se submeter aos homens mais velhos e experientes da indústria cinematográfica que acham que, por ela ser mulher, precisa ser guiada e/ou protegida por eles. Lena conta como se afastou desses caras assim que notava o que eles queriam dela – não ajuda, não apoio, mas submissão.

Por mais que eu possa não gostar de algumas coisas que Lena diz na internet, de piadas sem graça ou comentários desnecessários que ela pode fazer sobre algum assunto do momento, Não sou uma dessas foi uma leitura interessante sobre a vida de uma mulher se virando com o trabalho, os relacionamentos, os amigos e a família, com toda as expectativas que jogam pra cima dela ou que ela cria para si mesma. É bom ver que não é só você que pode estar sentindo uma grande “exaustão perigosa causada pela ambição e pela vida moderna”, como Lena uma hora diz sentir. E se tem alguma lição que eu, e qualquer mulher, pode tirar desse livro, com certeza está lá na primeira parte, sobre amor e sexo, em que diz: “Ser tratada como merda não é um jogo divertido ou uma experiência intelectual transgressora.”. Nessa ninguém pode dizer que Lena está errada.