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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Eu, robô, de Isaac Asimov

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Eu sei que você assistiu Eu, robô, filme de 2004 estrelado por Will Smith – bela cena de banho, aliás. Se não assistiu, pelo menos viu o trailer. O personagem de Will é um detetive investigando a morte de um renomado cientista da robótica, que aparentemente se suicidou jogando-se da janela de seu escritório. Porém, analisando o local do crime, ele se depara com um robô de um modelo nunca antes visto, que passa a ser o principal suspeito dessa morte. Só que – e coloquem um grande “só que” nisso –, é impossível que o robô tenha cometido o crime, e isso por causa da principal das três leis da robótica que diz: “Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano venha a ser ferido”. E por aí o filme vai…

O longa, todos sabem, é inspirado nas histórias de Isaac Asimov, um dos maiores escritores da ficção científica e autor – junto com o editor John Campbell – das três leis da robótica. A primeira é a que consta acima. A segunda lei assegura que os robôs seguirão estritamente as ordens dadas por um humano, a não ser que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei. Já a terceira delimita que um robô “deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou com a Segunda Lei”. Ou seja: um robô não pode matar, não pode deixar ninguém morrer, não pode desobedecer e também não pode se destruir – afinal, robôs são caros pra caralho. Meu primeiro contato com Asimov foi com o seu primeiro romance com robôs, As cavernas de aço, lido no ano passado e que, mesmo apresentando uma ideia interessante sobre o futuro, não me agradou tanto na escrita. Mas com Eu, robô¸ tive uma impressão diferente de Asimov, gostando muito mais do seu trabalho como contista.

Apesar de não terem sido criadas desde as primeiras histórias de robôs de Asimov, Eu, robô, coletânea que reúne os contos iniciais do autor e alguns outros textos publicados ao longo de sua carreira, centra-se nessas três leis. E engana-se quem procurar no livro o enredo do filme com Will Smith – no arco dos contos, robôs sequer são permitidos na Terra, veja bem, e fora algumas cenas que você identifica nas histórias e os nomes de personagens, o resto é bem diferente. As histórias são interligadas através de uma entrevista que um jornalista conduz com Susan Calvin, uma psicóloga roboticista funcionária da maior empresa de robôs do planeta, a U. S Robots. Já nos seus 80 anos de idade, ela conta ao jornalista as mais inusitadas histórias que conhece sobre robôs, casos que ouviu e coisas que realmente vivenciou em todos os seus anos de carreira.

O primeiro conto, “Robbie”, é também a primeira história de robôs escrita por Asimov, originalmente publicada em 1940. Nele, Robbie é um robô usado como babá da garotinha Gloria, uma menina curiosa e meio mandona que adora a companhia do homem de lata. Mas sua mãe, preocupada com a vida social da menina, que quase não interage com as outras crianças, convence o marido a afastá-la de Robbie. Aqui Asimov explora a relação complicada que pode haver entre humanos e robôs lidando assim diretamente na sociedade, com as máquinas assumindo trabalhos que, na teoria, deveriam ser de competência apenas dos humanos.

O conto que segue é “Andando em círculos”, história que introduz Mike Donovan e Gregory Powell, recorrentes personagens nos contos de Asimov. Aqui os robôs não estão mais atuando na Terra, mas sim em Mercúrio, utilizados como mão de obra principal na mineração. Os dois funcionários da U. S. Robots são os “testadores oficiais” de novos modelos de robôs construídos pela empresa, e nessa missão devem avaliar a eficiência de um novo modelo, Speedy, que tem a capacidade de falar. Com a demora do robô em voltar da mina de selênio, Donovan e Powell descobrem que ele está andando em círculos no solo do planeta, e partem com modelos antigos para fora do abrigo para descobrirem o que está causando esse estranho comportamento em Speedy – o caso todo se transforma numa questão de vida ou morte. E é aqui que Asimov introduz os dilemas causados pelas três leis pré-instaladas em todos os robôs fabricados e que garantem a sua segurança. Toda a solução dos problemas é feita através da lógica, e foi justamente isso que me fez gostar das histórias de Eu, robô: são como charadas que mostram como três leis tão simples podem gerar problemas tão complexos.

“Razão” é um dos contos que mais gostei do livro. Nele, Donovan e Powell novamente testam um novo modelo de robô, o QT-1, e Cutie é a primeira máquina construída. Porém, após ser montado por Powell e Donovan, os cientistas se veem com um grande problema em mãos: Cutie é cético. Ele não acredita que os dois homens foram os responsáveis por montá-lo, e pior, não acredita que a Terra tenha bilhões de habitantes, que há mundos desconhecidos no Universo, que existam outros planetas, estrelas, galáxias etc. Para a mente positrônica de Cutie, não faz sentido que dois humanos com capacidade mental e física inferior a ele tenham sido capazes de projetá-lo. E o mais interessante dessa história, fora toda a graça de Cutie em tentar refutar os argumentos dos homens, é que ele desenvolve uma crença enorme em um ser maior, um Mestre invisível que é o responsável pela sua existência. É muito engraçado todo esse fervor de teor religioso que o robô desenvolve, sua teimosia mesmo após ter visto Powell e Donovan montando outro robô na sua frente.

E os contos seguem apresentando robôs cada vez mais complexos: Susan Calvin fala da sua experiência com um capaz de ler mentes, Powell e Donovan voltam para o espaço para acompanhar outro modelo capaz de dar ordens a outros robôs, uma empresa concorrente desafia a U. S. Robots a construir com o seu Cérebro uma nave capaz de fazer viagens intergalácticas, Susan e outro colega são enviados para o espaço para identificarem um robô com a primeira lei alterada dentre outras 62 máquinas idênticas… E aí chegamos ao que pode gerar mais problemas entre a relação homem/robô: quando seremos incapazes de distinguir quem é humano e quem não é.

Todos os dilemas propostos por Isaac Asimov nesses contos são divertidos e inteligentes, alguns parecem ter um desfecho bem simples e previsível, mas outros podem fazer até você ficar quebrando a cabeça enquanto usa as três leis para decifrar junto com Susan, Powell e Donovan por que raios aquele robô está agindo feito um louco. Apesar de serem máquinas, Asimov dá um tom bem humano para seus robôs, dotando-os com um humor peculiar. São bem engraçadinhos, em alguns momentos. E no final, fica aquela dúvida, ou sensação, de quem é que realmente manda na Terra: os humanos ou as máquinas? Diferente do seu romance, Eu, robô é um livro bem mais interessante sobre um futuro em que homens mecânicos serão imprescindíveis para o cotidiano do homem, mesmo que de longe.

Ps.: É engraçado como Asimov imaginou algumas coisas sobre o futuro: em pleno 2040, as pessoas ainda têm que revelar fotos; fumar durante uma reunião ainda é tão comum quanto num episódio de Mad Men etc. Gosto de fazer essa comparação entre pequenas coisas que existiam na época em que as histórias foram escritas e que não se mantiveram nos dias de hoje. Afinal, como Asimov escreve, “mesmo dez anos, em termos de tecnologia, significavam muito”. Talvez cinco anos, até.

#LendoSciFiNoÔnibus

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