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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Graça infinita, de David Foster Wallace

graca-infinita-capaGraça infinita chegou no Brasil com toda aquela pompa de livro genial de autor genial que é lido só por gente genial aqui das nossas literaturas contemporâneas. Certo que parte do motivo de tanta gente decidir ler o livro é poder se sentir meio incluso nesse grupinho. Mas hey, é só um livro, uma ficção, uma história escrita há 20 anos e que agora chegou aqui (e que parece que só vem crescendo mais e mais – tem até filme sobre David Foster Wallace pra sair). Mas aí você começa a ler, tem aquele estranhamento inicial de “o que está acontecendo aqui?” – por mais que você tenha lido e relido a sinopse –, e aos poucos tudo vai fazendo sentido, tudo vai se encaixando. Só que nem ler todas as mais de 1144 páginas será o bastante para entender o livro, tem gente que já está na quarta leitura e ainda acha que precisa de mais.

(Mas calma, isso não quer dizer que ele seja completamente obscuro. Guardemos esta informação: não tem problema não entender alguma coisa, tá? E esse entendimento com certeza vai mudar com o passar dos anos e novas leituras, e algumas coisas passam a fazer mais – ou menos – sentido que as outras. Ok, posso continuar?)

A melhor forma, acho, de começar a falar sobre o Graça infinita – traduzido pelo Caetano W. Galindo, esse lindo (hã hã) – é listar o que há nele. O romance se passa a uns 20 anos à frente da época em que David Foster Wallace escreveu o livro – ou seja, seriam os dias de hoje. A América do Norte é agora a ONAN, uma nação em que EUA, México e Canadá são uma coisa só. Seu presidente, o Gentle “Voz de Veludo”, é um cara meio que maníaco por limpeza e sua campanha foi toda baseada nisso: limpar os EU. O que acabou sendo feito às custas de territórios administrados pelos canadenses, que viraram grandes depósitos de lixos tóxicos, o que deixou a população de lá bem putaça e com uns sérios problemas de saúde. E aí tem os conflitos dos separatistas, que aqui são representados por um grupo terrorista de cadeirantes do Québec, os Les Assassins des Fauteuils Rollents – uma grande ideia, quem vai desconfiar dos cadeirantes? Ah, e tem os anos. Eles são subsidiados, ou seja, vendidos para grandes marcas como uma forma de contornar a crise da publicidade. Não há mais 2000 e alguns coquinhos, o que tem é Ano da Fralda Geriátrica Depend, Ano do Whooper, Ano do Chocolate Dove Tamanho-Boquinha etc.

Dando esse contexto “político e social”, vamos falar das pessoas. Temos o núcleo principal, a família Incandenza, formada pelo patriarca James e sua esposa Avril, que tiveram três filhos: Orin, Mario e Hal. James foi um prodígio do tênis na juventude, depois um grande teórico óptico que na reta final de sua vida cultivou uma obsessão pelo cinema fazendo filmes que não agradavam muito o público – não eram nada comerciais –, mas por serem bem inventivos foram fonte de pesquisa para os acadêmicos, essa gente que gosta de coisa obscura para ver o que consegue tirar delas. Ele fundou a Academia de Tênis Enfield, que treina crianças e adolescentes para serem futuros tenistas profissionais. Orin jogou lá até abandonar as raquetes pelos chutes certeiros do futebol americano. Mario vive lá, mas não joga, pois nasceu com uma série de problemas físicos e mentais, e sua presença se deve pelas filmagens que faz com uma câmera especial acoplada à sua cabeça. Hal é um dos atuais gênios do esporte, uma grande promessa tenística, uma mente brilhante capaz de memorizar dicionários inteiros. E Avril é uma canadense que, após o suicídio de James – porque sim, ele se mata – passa a dirigir a Academia com seu meio-irmão, Charles Tavis (vulgo C. T.), uma grammar-nazi totalmente manipuladora.

Próximo à Academia Enfild tem a Casa Ennet, um centro de recuperação de viciados de todos os tipos. É lá que Don Gataly, um homem gigante que está na condicional depois de ter assassinado sem querer um cara gripado durante um assalto – nunca amordace alguém com o nariz congestionado, ele terá uma morte horrível por afogamento com muco – que é promovido a funcionário residente do lugar. E tem Kate Gompert, uma jovem acometida de uma depressão inenarrável. E Joelle, vulgo Madame Psicose, uma das grandes atrizes que estrelou os filmes de J. Incandenza, levada à casa depois de tentar se matar com uma overdose. E Lenz, que tortura animais – das partes mais horríveis de se ler – para aguentar a abstinência das drogas. E muitos outros residentes malucos e acabados e seus diferentes vícios e reuniões dos AAs.

Por fim, temos Marathe e Steeply, um terrorista cadeirante e um agente do “serviço secreto” dos EU que são informantes – e até agora não sei quem trai quem e quem é informante de quem e quem engana quem – e estão em busca de uma arma letal que surgiu por aí: um “Entretenimento” (um “cartucho”, tipo filme mesmo) tão viciante que quem começa a assistir não consegue desligar a tela (TP) e morre por inação. Tanto terroristas quanto o governo estão atrás dessa arma, uns para usá-la para seus propósitos de caos, outros para impedir seu uso. E de quem é esse filme? Claro, do Incandenza pai, o Sipróprio, a sua última obra prima que ninguém sabe onde está – ou finge que não sabe.

Uma dica: marquem a página com a cronologia dos anos e as notas de rodapé - vejam só a maturidade dos meus marcadores.

Uma dica: marquem a página com a cronologia dos anos e as notas de rodapé – vejam só a maturidade dos meus marcadores.

Pronto, esse é o resumo do que há em Graça infinita. Agora adicione descrições minuciosas sobre efeitos de psicotrópicos, álcool, tratamentos para desintoxicação, a depressão, as regras do tênis, a filmografia extensa de Incandenza, as teorias inventadas – ou não – de cinema, os relatos de inúmeros frequentadores dos AAs, as estratégias de conquista de Orin, flashbacks da infância de personagens que até a página 500 nunca tinham aparecido etc. E muitas, muitas notas de rodapé. Há muita coisa nesse livro, e nem me esforçando o máximo eu consigo lembrar de tudo, de quem são todas as personagens e o que cada uma faz dentro da trama. E por mais que seja muita coisa confusa, DFW fez sim um livro grandioso – e não estou falando só de tamanho.

Agora que resumi de certa forma o que o livro tem a oferecer, acho melhor começar a dividir essa resenha em partes para poder organizar melhor os comentários. Não tenho capacidade mental o bastante para fazer um trabalho espantoso como o que a Camila fez no Livros Abertos – LEIAM A RESENHA DELA, PLMDDS –, então decidi ser um tanto mais infame. A estrutura da resenha vai seguir a divisão do clássico “O maior xingamento do mundo”, postado no Orkut no dia 5 de janeiro de 2007 e que, de tão grande, foi dividido em nove categorias no documento Insultus Verbatum (obrigada, Danilo, e desculpa vocês pela ideia tão tosca). Começando:

 

1-      Da Família

“Jim depois disse a Joelle que ele simplesmente não sabia falar com os dois filhos não defeituosos sem a presença e a mediação da mãe dos meninos. Orin você não conseguia fazer calar a boca, e Hal ficava tão completamente recolhido na presença de Jim que os silêncios eram torturantes. Jim disse que suspeitava que ele e Mario se davam tão bem porque o menino tinha tido tantos problemas e dificuldades que não conseguiu nem falar antes dos seis anos, de modo que tanto ele quanto Jim tinham tido chance de se acostumarem com o silêncio recíproco, embora Mario de fato tivesse um interesse por lentes e cinema que não tinha nada a ver com pais ou necessidades de agradar, portanto o interesse era algo a se dividir entre os dois; e mesmo quando Mario recebia autorização para trabalhar na equipe de alguma das Obras mais recentes de Jim era sem nada do tipo de pressão para interagir ou se relacionar via cinema que tinha havido com Orin e Hal e o tênis, em que Jim (Orin lhe informou) tinha sido um juvenil de apogeu tardio mas um universitário top.”

No que eu li sobre o Graça até agora, muitos textos deram destaque para a abordagem que a história traz dos vícios. Mas enquanto lia, principalmente quando estava chegando no final, a família foi o tema que mais rondou as minhas interpretações.

Graça infinita é muito sobre família, se você for prestar atenção em alguns dramas específicos que surgem em diversos momentos do livro. A começar pelos próprios Incandenza: mesmo quando sozinhos, eles estão sempre de alguma forma falando ou pensando uns nos outros. Isso está nas conversas de Hal com Orin e Mario, que considero os momentos mais deliciosos da leitura – mesmo Orin sendo “um dos maiores merdinhas possíveis de se encontrar em todo o cânon masculino e branco de lubricidade, covardia moral, ardis emocionais e merdinhice” –, numa sensação de proteção e acobertamento que existe entre eles, mesmo entre aqueles que já não se falam mais, como Orin e Avril.

O núcleo familiar está dentro da ação do romance, e com os Incandenza é impossível isolar suas personagens e enxergá-las fora desse contexto. A rotina dos Incandenza é parte crucial na história, de quando os meninos eram apenas crianças até a dinâmica entre os membros e em como se tornaram ainda mais peculiares depois do suicídio de James, em como o caminho de cada um vai se separando aos poucos, mas sempre presos por um fio àquele ponto central, o pai, o gênio do cinema.

Dentro dessa família, Mario é o personagem mais cativante. Influenciado demais pela Avril, sim, mas extremamente fofo. Toda a sensibilidade do livro reside nele, nessa vontade de ser bom, prestativo e caridoso com todo mundo, a preocupação em não ofender ou machucar ninguém. Mesmo quando zombam dele ou xingam ele, ou imploram para que ele diga algo de “verdadeiro” e cruel porque isso seria o que uma pessoa “normal” faria, ele é incapaz de magoar. Mario não é um cara normal, ele é a bondade em pessoa. E não de um jeito sem sal, como personagens boazinhas demais tendem a ser. Ele tem uma inocência graciosa, infantil, aquela de quem sabe muita coisa mas sabe mais ainda que não conhece tudo o que há no mundo e não sente medo ou vergonha de admitir isso, de pedir que sua mãe ou irmão expliquem para ele a definição de uma palavra que ele nunca antes tinha ouvido ao invés de fingir que sabe. É assim, o Mario, um dos personagens mais confiantes em toda a história.

Durante a leitura, é possível você sentir vontade de se vestir como uma tenista. Não se reprima.

Durante a leitura, é possível você sentir vontade de se vestir como uma tenista. Não se reprima.

2-      Da Infância

Esta parte pode ser considerada uma continuação do Da Família, pois DFW explora muito as relações de parentesco não só entre os Incandenza, mas também com outras personagens importantes, dando foco para as lembranças da infância e adolescência. A relação entre Hal e seu pai, claro, é a principal delas, mas além disso DFW apresenta um panorama por vezes bem detalhado das famílias de outras personagens: a vida de Don Gataly quando criança vivendo com sua mãe alcóolatra e seu padrasto é relembrada nos momentos finais do livro, enquanto agoniza de dor numa cama de hospital. A relação de Joelle com os pais também aparece no romance, narrado por uma das “cobaias” de Orin para uma equipe em busca do Graça. A relação de Avril e do C. T. é explicada em um desses flashbacks para o passado distante; James Incandenza e o medo e admiração de seu próprio pai e o esforço que ele faz para não espelhar essa relação no filho. E dos trechos mais perturbadores, o segredo da família de Pemulis, envolvendo seu pai e irmão mais velho…

Todas essas famílias são “disfuncionais”, todas guardam sérios problemas que traumatizam e comprometem a sanidade dos outros no futuro. Os Incandenza, apesar de não parecer serem tão trágicos como Joelle e Pemulis, por exemplo, acabam saindo como os mais loucões da história, talvez porque eles se esforçam demais para empurrar todos os problemas para debaixo do tapete e agir como se nada estivesse acontecendo, acobertando tudo com carinho e atenção excessivos.

Nenhuma família é normal aqui, pode apostar.

Agora, depois de terminada a leitura, acabo fazendo uma ligação entre a infância/adolescência dessas pessoas todas e o que se tornaram depois, é possível olhar para esses trechos e soltar um “vê só porque toda essa gente é tão complexada”. Claro, não é assim tão simples, os traumas de infância não podem ser a única fonte de todos os problemas de suas vidas, mas todas essas histórias que cortam o enredo principal do livro adicionam um significado a mais naquilo que elas se tornaram. Só para ver como DFW realmente trabalhava a personalidade de cada personagem.

 

3-      Da Aparência

 “Quando ele falava dessa coisa como um entretenimento perfeito entre aspas, terminalmente atraente – era sempre irônico – ele estava me dando uma cutucadinha sarcástica. Eu tinha mania de andar dizendo que o véu era para disfarçar uma perfeição letal, que eu era letalmente linda demais pras pessoas aguentarem. Era meio que uma piada que tinha tirado de um dos entretenimentos dele, aquela coisa da Medusa e da Odalisca. Que até na OFIDE eu me escondi no escondimento, numa negação da própria deformidade. Aí o Jim pegou uma obra que deu errado e me disse que ela era perfeita demais pra lançar – que ia paralisar as pessoas. Era totalmente claro que era uma piada irônica. Pra mim.”

Em um livro de mais de mil páginas descrições é o que não faltam, e David Foster Wallace manda muito bem nos detalhes das personagens. O caráter físico delas são parte importante da história.

Como, por exemplo, Joelle van Dyne, que quando a conhecemos se esconde atrás de um biombo durante a transmissão de seu programa numa rádio, e vive com o rosto escondido atrás de um véu. Joelle, ex-namorada de Orin que cortou relações com ele pouco antes do suicídio de James, era descrita como uma mulher de beleza estonteante, difícil de encarar. O mistério do véu dura até quase o final do livro, e não pretendo estragá-lo aqui. Mas desde o início sabe-se que Madame Psicose faz parte da OFIDE, a Organização dos Feios e Inconcebivelmente Deformados, o que já dá uma ideia do que há de “errado” com ela.

As imagens que DFW sugere de cada personagem é muito forte, isso porque as descrições físicas estão sempre presentes. Como quando Steeply transvestido conversa com Marathe, o narrador informando como o homem grande e gordo está ridiculamente apertando seus pés em um sapato de salto, ou com a pele marcada pelo sutiã com enchimentos. Gately compartilha desse porte físico, às vezes aparecendo na narrativa com um aspecto ainda mais acabado e decrépito de um homem enorme que tem que lavar as fezes de internos de outro lugar para ganhar o mínimo de dinheiro – os residentes da Ennet, mesmo os que trabalham lá dentro, precisam ter um emprego.

Já os Incandenza estão em outro patamar. Avril, apesar dos seus 50 e poucos anos, mantém uma beleza jovial e hipnotizante. Todos os membros da família são altos e magros, com exceção de Mario, que com 19 anos de idade (durante o Ano da Fralda Geriátrica Depend, período em que grande parte do livro acontece) ainda tem a altura de uma criança, um corpo infantil com uma cabeça enorme, um andar desengonçado e limitado, constantemente caindo no chão. No que trata da aparência, Graça infinita está cheio dos mais variados tipos de gente.

Horácio Pawster Wallace

Horácio Pawster Wallace

4-      Dos Costumes

Uma das coisas que ouvi sobre Graça infinita é como ele é um romance americano. Mesmo no futuro, ele narra esse lifestyle de materialismo e ambições, onde a busca pelo prazer e o entretenimento ocupam o cotidiano das pessoas. E o que DFW traz para o livro se não uma crítica a tudo isso?

Graça infinita é um livro que fala muito sobre entretenimento e sobre pessoas que perseguem demais a felicidade completa e a ideia de que merecemos essa felicidade completa. E essa obsessão pela felicidade e a ansiedade de não dar conta das expectativas estão lá, crescendo dentro de Kate, Hal e Joelle, indo aos poucos pesando mais e descambando pra uma depressão difícil de sustentar (principalmente no caso de Kate).

Outra questão é a crítica que existe ao entretenimento fácil, aos programas e filmes fúteis que hipnotizam milhões de espectadores, ao prazer fácil que esses programas e filmes dão às pessoas. Críticas como essa aparecem quando um personagem fala de como o pai deixava tudo o que fazia para sentar à frente da TV para assistir S*M*A*S*H, nos próprios filmes de Incandenza que ignoravam a história e trabalhavam apenas as questões técnicas das narrativas – e por isso não atraíam público algum. O negócio de DFW não é oferecer conclusões fáceis.

Enquanto Marathe e Steeply discutiam o modo de vida americano e suas prioridades, era possível linkar esta conversa com o estado mental dos residentes da Casa Ennet, com o gradual desânimo de Hal, que vai começando a se preocupar com seu próprio vício escondido de maconha (Bob Hope), e pode parecer uma conclusão fácil, mas não há como não pensar que esse comportamento destrutivo – o vício – que procura preencher o vazio existencial seja causado por algo que você não quer encarar e pode surgir dessa busca descabida pela felicidade. Um refúgio autodestrutivo que te deixa ainda mais longe de resolver o seu problema real até o vício se tornar o seu problema real. Só ideias.

Mas por que o entretenimento tem tanta importância aqui? Bem, vamos pensar: quem são as pessoas que mais veneramos no mundo? Artistas, cantores, atores, diretores, gente que trabalha para uma indústria que te faz esquecer da sua realidade. Damos nosso dinheiro a eles, nos sacrificamos – horas e horas na fila esperando para comprar um ingresso pro show – por eles. Óbvio que há quem venere cientistas, pensadores, empresários, gente que vive da realidade concreta e nos abrem os olhos para o que há de bom e de ruim nessa realidade. Mas a maioria sonha com a vida do ator, do rock star, do gênio por trás das câmeras que sabe contar a história de um jeito tão envolvente que você esquece dos seus problemas por um tempo, pessoas que passam uma imagem de perfeição. Porra, paramos tudo para ver cerimônias em que essas pessoas são oficialmente reconhecidas pelos seus trabalhos como se fosse a coisa mais importante para a humanidade. E desejamos ser como essas pessoas, chegamos até a invejar a vida delas.

Não estou dizendo que o entretenimento não é importante – oi, estou lendo um livro e isso é sim entretenimento –, mas se você não usa o entretenimento de forma correta você entra nessa espiral de se entreter para aliviar a dor da existência, mas alimenta essa dor com o próprio entretenimento – porque não vive de acordo com aquilo que vê na TV ou nos filmes. Complicadinho, não é?

Uma hora Marathe e Steeply falam sobre a liberdade de escolher o que se quer e como a sociedade americana é apegada à sua liberdade e ao prazer. Estão falando, na verdade, sobre o Entretenimento ser uma arma ou não. Você não tem poder de escolha com ele de decidir parar de assistir, mas e se na verdade você tem é a vontade de ser prazerosamente entretido a ponto de não querer mais nada? Morrer vendo o “Graça infinita” não seria uma escolha própria? E toda essa questão de ser um americano maduro o bastante para medir o impacto daquilo que se escolhe agora a longo prazo VS. a infantilidade de querer agora e sem medir as consequências futuras.

“’Você está dizendo que isso é amor? Isso não é amor. Eu vou saber quando for amor por causa do que a gente sente. Não vai ser uma coisa de fluido espinal e desespero pode crer, Camarada. Vai ser uma coisa de olhos se encontrando em algum lugar e aí os joelhos dos dois ficando fracos e daquele segundo em diante você sabe que não vai mais estar sozinha e no inferno. Você não é nem metade do cara que eu tinha começado a achar que você podia ter sido, Ré.’

[…]

‘Como você quiser. Minhas opiniões são só que o amor cujo vocês desse país falam não gera nada do prazer que vocês procuram no amor. Sendo essa ideia toda de prazer e sensações boas o que vocês escolhem. Para se entregar a isso. Que todas as escolhas para vocês levam a isso – esse prazer de não escolher.’”

(Um exemplo da procura pelo prazer, esse diálogo do Marathe com a Kate.)

 

5-      Dos Quereres

“[…] ‘Pois aí você desperta para o fato de que você é amado por vencer apenas. As duas e três vitórias criaram você para as pessoas. Não é que as vitórias tenham feito elas reconhecerem alguma coisa que existia irreconhecida antes dessas vitórias viradas. A vitória de lugar-nenhum criou você. Você tem que continuar vencendo para continuar a existência do amor e dos patrocínios e das revistas coloridas que querem o seu perfil.’

‘E lá vem a pressão’, Steeply disse.

‘Pressão como a que não se pode imaginar, agora que para manter você precisa vencer. Agora que vencer é o esperado. E totalmente só, nos hotéis e aeroplanos, com qualquer outro jogador com quem você podia conversar sobre a pressão de existir querendo ganhar de você, querendo ser o existir acima e não abaixo. Ou os outros, querendo de você, e só enquanto você jogar com entrega, vencendo.’

‘Daí os suicídios. A acabação. As drogas, a autocomplacência, a estragação.’”

Expectativas, ansiedade, realidade. As personagens de Graça infinita estão cheias de vontades, todas frustradas. A ansiedade constantemente acomete alguém que começa a nutrir que não é capaz de fazer o que quer e começa a procurar um escape, algo que faça esquecer quem é e o que esperam que faça – mas que sabem que não podem fazer, ou se autoboicotam porque acham que será menos doloroso que fracassar tentando. É uma boa descrição essa que o DFW faz sobre a pressão. As pessoas esperam muito de você e você congela, pois pensa que não é capaz de atingir as expectativas e não quer desapontar ninguém – principalmente você mesmo, porque fica aquela sensação de idiotice e ingenuidade de você ter acreditado de verdade que era capaz.

Orin quer pegar todas as mulheres que se movem, Hal quer ser um tenista campeão e um universitário exemplar – porém não consegue esquecer a maconha –, Kate e Joelle querem acabar com a dor, Marathe quer encontrar o filme e cuidar de sua esposa deficiente, Gately só quer se manter sóbrio… Mas aí, como dizem, acontece a vida. E tudo é mais complicado, mais difícil do que parecia, mais triste e pouco recompensador.

“O que os AAs da Grande Boston tratam de forma trivial mas correta é o fato de que tanto os beijos do destino quanto suas bifas ilustram a impotência básica e pessoal de um indivíduo qualquer diante dos eventos realmente importantes da sua vida:¹°° i. e., quase nada de importante te acontece porque você produziu. O destino não tem bipe; o destino sempre fica ali encostadinho de capa de chuva num beco fazendo algum tipo de Psst que normalmente você nem ouve porque está correndo tanto para ou de alguma coisa importante que tentou produzir.”

“¹°° A formulação de um Bandeira Branca, p. ex., é que 99,9% do que rola na vida da gente a bem da verdade não é problema nosso, sendo que o 1% que a gente controla consiste basicamente na opção de aceitar ou negar a nossa inevitável impotência diante dos outros 99,9%, que tipo só tentar fazer a conta disso tudo faz a testa de Don Gately ficar roxa.”

6-      Do Pai e da Mãe

“Por algum motivo eu estou pensando agora naquele tipo de filantropo que parece humanamente repulsivo não apesar da sua caridade mas por causa dela: em algum nível você pode ver que ele considera os receptores da sua caridade não como pessoas mas sim como equipamentos de ginástica em que pode desenvolver e demonstrar sua própria virtude. O que é medonho e repulsivo é que esse tipo de filantropo nitidamente precisa de privação e sofrimento para continuar, já que é a sua própria virtude o que ele estima, em vez dos fins aos quais a virtude ostensivamente se dirige.”

Neste trecho do livro, um personagem, antigo colega de Orin, fala sobre Avril e sua relação sempre complicada com o filho. Descrita como uma mulher de classe e inteligência, Avril é a verdadeira mãe coruja com seus filhos – ou tenta se tornar uma depois da morte do marido. Tanto Hal quanto Orin, que não fala com ela desde o suicídio do pai, tentam se manter afastados desse amor maternal que mais sufoca do que conforta. Apenas Mario conversa abertamente com a mãe, seria um típico filhinho da mamãe se não fosse a sua natureza ser assim, querido e prestativo com todos. Mas a questão aqui é que Avril é uma das personagens mais controversas do livro, por não saber exatamente de que “lado” ela está. Ela manipula todos à sua volta, tanto filhos e irmão quanto até os estudantes da Academia. Essa descrição acima é uma comparação clara do filantropo interesseiro com os modos de Avril agir com os filhos.

Joelle também notava esse ar sombrio na personalidade de Avril, relembrando uma de suas personagens nos filmes de James, a Morte, em que dizia que quando uma mulher matava alguém, essa pessoa voltava na vida seguinte como seu filho, e “era por isso que as mães eram tão obsessivas, sufocantes, obstinadas no amor por você, filho delas: as mães estão alucinadamente tentando compensar um assassinato que nenhum de vocês recorda bem”. Só que podemos ainda ficar na dúvida se ela é obsessivamente amorosa por culpa ou só para conseguir algo deles.

Depois da metade do livro, a personalidade de James Incandenza também vai se esclarecendo aos poucos, e acredito que o ápice esteja no final. Não há uma explicação exata para ele ter colocado sua cabeça num microondas e explodido, mas o personagem que até então parecia ser insensível à família, ocupado apenas com seus projetos, revela ser muito mais atento aos filhos do que pensávamos, principalmente com Hal.

“O espectro assoa o nariz num lencinho que visivelmente já viu melhores eras e diz que ele, espectro, quando estava vivo no mundo dos homens animados, tinha visto o seu próprio rebento mais jovem, um filho, o que mais se parecia com ele, o que lhe parecia mais maravilhoso e assustador, virar figurante, mais para o fim. O fim dele, não do filho, o espectro elucida. […] O espectro abre e examina o lencinho usado bem que nem uma pessoa viva nunca consegue deixar de fazer e diz Horror nenhum na terra ou em outro lugar se compara a ver o teu próprio rebento abrir a boca e nada sair. O espectro diz que isso macula a memória do fim da vida animada dele, esse recuo do filho para a periferia do enquadramento da vida. O espectro confessa que, um dia, culpou a mãe do menino pelo silêncio dele. Mas que bem faz esse tipo de coisa?, ele disse, fazendo um gesto borrado que podia ter sido um dar de ombros.”

[…]

“Ele diz. Imagine só o horror de passar toda a tua solitária infância itinerante no Sudoeste e na Costa Oeste tentando sem sucesso convencer o teu pai pelo menos de que você existia, ser bom em alguma coisa a ponto de ser ouvido e visto mas não tão bom pra você virar só uma tela pras projeções dele mesmo (do Pai) do seu próprio fracasso e do ódio que tinha de si próprio, sem nunca conseguir ser visto de verdade, gesticulando insanamente em meio à névoa destilada, de modo que na vida adulta você ainda carregava o peso úmido e flácido do teu fracasso em jamais conseguir fazer ele ouvir você falar de verdade, carregava durante todos os teus anos animados sobre os teus ombros cada vez mais caídos – só para descobrir, perto do fim, que o teu próprio filho também tinha ficado vazio, involuto, silente, assustador, mudo. I. e., que o filho dele tinha virado o que ele (espectro) tinha temido na infância que ele (espectro) fosse.”

Hal tem esse medo paralisante de não honrar a memória do pai, a Academia que ele fundou, os filmes que produziu, todo o legado do J. Incandenza. Orin desviou-se do seu plano, Mario é física e mentalmente incapaz de fazê-lo, e só resta Hal com seu talento para o tênis e inteligência acima do normal – inteligência essa que surgiu depois dele ter comido um pedaço de mofo muito do esquisito quando criança. Ele se vê na obrigação de estar à altura do que foi o pai, esmagado pelas expectativas que todos têm dele, esmagado pela própria autocobrança. E olha aí o início do livro se explicando, a capacidade de Hal de se expressar totalmente danificada, apresentando esses problemas ainda quando James estava vivo, com uma ansiedade tão grande de agradar e parecer inteligente aos olhos dele que isso lhe tirava a capacidade de falar. É chegando nessa parte que você fica sabendo qual é o propósito de todo o trabalho de Jim com o entretenimento:

“Inventar algo que o menino talentoso não conseguisse simplesmente dominar e passar adiante, rumo a um novo platô. Algo que o menino amasse tanto que pudesse induzi-lo a abrir a boca e sair – nem que fosse só para pedir mais. Os jogos não tinham dado certo, profissionais não tinham dado certo, a imitação de profissionais não tinha dado certo. Sua última saída: entretenimento. Fazer alguma coisa divertida pra cacete, que reverteria a inércia da queda de uma jovem alma rumo ao útero do solipsismo, da anedonia, da morte em vida. […] Os acadêmicos, as Fundações e os disseminadores nunca viram que o desejo mais sério dele era: entreter.”

 

7-      Do Futuro

Publicado em 1996, Graça era um livro que se passava num futuro não tão distante: a virada do século XX para o XXI. E aqui estamos agora, já na segunda década do século, vivendo no tempo que DFW imaginou – e, infelizmente, não está vivo para ver. Mas nessas de olhar para o futuro, é interessante ver como algumas coisas que ele escreveu meio que aconteceram. Meio que fazem sentido.

O maior exemplo disso é a Interlace, a empresa que produz e difunde conteúdo audiovisual diretamente para o telespectador. Alguém escutou “Netflix”? Na ONAN, a televisão como a conhecemos (ainda) não existe mais, a publicidade entrou em colapso depois dela mesma causar a destruição da TV – as propagandas passaram a ser tão perturbadoras que as pessoas não conseguiam desgrudar delas, e logo isso impactou os programas e o financiamento das emissoras que não conseguiram contornar a crise, e aí chega a Interlace oferecendo conteúdo sem anúncios e na hora que o telespectador quiser.

Em algumas coisas, parece, DFW foi bem premonitório. Engraçado o livro chegar traduzido aqui exatamente no tempo em que ele se passa, e é legal encontrar essas similaridades. No livro há pessoas trabalhando em casa por causa da Internet, na época longe de ser rápida e avançada como a nossa. Um dos momentos mais interessantes e engraçados é também o fracasso das ligações por vídeo, uma tentativa que gerou uma indústria de máscaras e maquiagens que mudavam totalmente as feições das pessoas no objetivo de parecerem sempre lindas nas ligações (apesar de hoje usarmos muito as chamadas de vídeo, mas lembre de todos os filtros e aplicativos que usamos para dar uma “melhorada” na aparência). Mas o melhor nisso é o trauma social que a ligação por vídeo trouxe, quando as pessoas notaram serem menos importantes do que imaginavam ao verem que a pessoa com quem falam não está dando tanta atenção assim a elas, diferente do que acontecia quando apenas se ouvia a voz.

O futuro de DFW é marcado pela aparência, pela insegurança e pela limpeza, o que não é muito diferente de como ele realmente está agora.

 

8-      A Sua História

“Kate Gompert estava no regime Especial, o que significava Alerta de Suicídio, o que significava que a moça em algum momento tinha traído tanto Ideação quanto Intenção, o que significava que precisava ser observada bem de perto por um funcionário vinte e quatro horas por dia até que o médico supervisor suspendesse o Especial. Os funcionários se revezavam ostensivamente no Especial de hora em hora, para que a pessoa de serviço estivesse sempre descansada e agudamente atenta, mas na verdade porque simplesmente ficar sentado ali ao pé de uma cama olhando para alguém que estava com tanta dor psicológica que queria cometer suicídio era tão incrivelmente deprimente e entediante e desagradável, que eles dividiam a odiosa tarefa o mais que podiam, os funcionários.”

É impossível ler Graça infinita sem ficar um pouquinho perturbado com o que tem escrito lá. Uma coisa importante a dizer é que o livro é engraçado, mas muito mais pela maneira que David Foster Wallace escreve do que pelas ações em si. Ele mistura a fala culta e técnica com o coloquial, ele coloca, entre páginas e páginas que descrevem o efeito de um remédio, por exemplo, as impressões mais inesperadas sobre aquele assunto, a linguagem engraçadinha que existe por trás da seriedade do texto – o uso do diminutivo aqui é bem importante. Claro que isso só funciona porque a tradução soube reproduzir essa mistura, sem economizar nos próprios erros de concordância e gramaticais que estão aí em qualquer conversa real que tenhamos na rua. O livro reúne tanta coisa legal com coisa tosca que você fica surpreso e até se sentindo feliz por um cara crânio como o DFW pensar em guerrinhas de toalha, peidos, escarros e afins dentro de um algum monólogo ou diálogo cabeçudo.

Mesmo com essa coisa de rir em algum momento com uma frase espirituosa que for, as histórias dentro do Graça infinita têm aquele aspecto de inquietação e dor que te deixam meio pra baixo, ou porque você vai construindo uma empatia com essas personagens ou porque você, em algum grau, se identifica com elas. Sua vida pode ser bem menos trágica do que a de Kate, Joelle, Gately ou seja lá quem for, mas no fundo, tirando todos os acontecimentos absurdos que preenchem o romance, o conteúdo central está lá: a solidão, a perda, a dependência daquilo que te destrói e a dificuldade de se levantar por si só.

“Hal ainda não tem idade para saber que isso se deve ao fato de que o vazio inerte não é o pior tipo de depressão. A anedonia de olhos mortos é apenas a rêmora do flanco central do verdadeiro predador, o Grande Tubarão Branco da dor. As autoridades chamam essa situação de depressão clínica ou involucional, ou transtorno disfórico unipolar.

[…]

Aquilo é uma intuição inerte em que o mundo é plenamente rico e dotado de ânimo e não mapístico e também completamente doloroso, maligno e antagônico ao eu, eu deprimido este em torno do qual Aquilo se enfuna e se coagula e que envolve em suas pregas negras e absorve completamente, de modo que se atinge uma unidade quase mística com um mundo que em cada partícula sua deseja o mal e a dor do eu.”

Aquilo é a dor, a angústia palpável, a depressão que Kate Gompert sente. DFW explica muito bem essa depressão sentida pela Kate, quase como se ele pudesse transmitir para um leigo uma teoria da física complicadíssima de entender – porque como ele mesmo fala, é impossível sentir e entender exatamente o que a pessoa deprimida está sentindo porque as emoções dela estão em circuito fechado, não tem conexão externa. Até podemos experimentar a dor, mas ela será diferente. A dor que a depressão causa é inenarrável para alguém de fora, mas ele consegue oferecer um caminho para a compreensão. A analogia que ele faz sobre o suicídio, de que se matar não é desistir, é fugir de algo pior, como uma pessoa que se joga da janela de um prédio em chamas quando o fogo se aproxima, é um jeito bem prático de tentar explicar essa dor.

 “O que eu estou querendo dizer aqui é que certos tipos de pessoas morrem de medo até de colocar um dedo do pé num arrependimento ou numa tristeza genuinamente sentidos, ou de ficar com raiva. Isso quer dizer que elas têm medo de viver. Elas estão aprisionadas em alguma coisa, eu acho. Congeladas por dentro, emocionalmente.”

Apesar de tantas histórias e personagens, o que mais há são embates internos. As personagens do livro não estão tentando conseguir um cartucho que pode matar todo mundo que o assista (ou impedindo que ele espalhe), o livro não é (apenas) sobre gente reunida em prol da superação do vício ou com as forças voltadas para uma partida de tênis em que uma escola saia campeã. Não é algo assim muito coletivo, ou muito “eu contra você”. É eu contra eu, o personagem lutando consigo mesmo, lidando com as dores interiores, essas muito maiores que qualquer treta que você possa ter com outra pessoa. É como Schtitt, o treinador alemão com ares de filósofo, explica o tênis para o Mario:

“O verdadeiro adversário, a fronteira delimitadora, é o próprio jogador. Sempre e só o eu que está lá, em quadra, a ser enfrentado, combatido, levado à mesa em que será forçado a aceitar os termos. O garoto que compete do outro lado da rede: ele não é o inimigo; ele é um parceiro de dança. Ele é a como é que chama desculpa ou oportunidade para você encontrar o eu. Como você é a oportunidade dele. As infinitas raízes da beleza do tênis são autocompetitivas. Você compete com os seus próprios limites para transcender o eu em imaginação e execução. Sumir no jogo: romper limites: transcender: melhorar: vencer. Que é a razão de o tênis ser uma cruzada essencialmente trágica, para se aperfeiçoar e crescer como juvenil sério, com ambições. Você busca vencer e transcender o eu limitado cujos limites são a mesma razão do próprio jogo. É trágico, é triste, é caótico, é agradável.”

Acho que essa última frase do trecho acima meio que resume o que é ler Graça infinita. Ele é um desafio, embora você não precisa levá-lo tão a sério – conseguir ultrapassar as mais de mil páginas, passar pelas notas sem se perder, conseguir ligar uma personagem e história a outra. Ele é recheado de tragédia, o romance é confuso, mas no final passar por tudo isso te deixa meio aliviado, contente consigo mesmo porque você conseguiu chegar no final. Cheio de dúvidas, mas conseguiu chegar no final. Enfrentou a obra-prima de David Foster Wallace e saiu vivo dela – porém, se você gostou muito mesmo da leitura, vai passar a ficar um tanto obcecado com o livro.

Graça é uma dessas histórias viciantes que você começa a relacionar com tudo. Por exemplo, você vai começar a fazer comentários como “ah, isso tem no Graça” ou “isso é parecido com o que DFW escreveu” e aí explica todo um trecho do livro. Me peguei fazendo isso várias vezes e tive que me controlar para não parecer irritante e/ou pedante.

 

9-      Epílogo

“Travadas. Fixas. Atadas. Presas. Tipo presas em alguma espécie de meio de caminho. Entre duas coisas. Puxadas por coisas em direções opostas. […] Não necessariamente tantos desejos. Mais vazio que isso. Como se eles estivessem travados pensando. Como se tivesse alguma coisa que eles tivessem esquecido.”

Ainda sinto que não consegui falar tudo o que queria sobre o livro, que não consegui passar nem metade da experiência que foi ler ele. Quase não falei sobre a Academia de Tênis Enfield e todas as suas tradições, os jogos amistosos de tênis, os campeonatos, a rotina dos jogadores, suas brincadeiras, as sessões de “terapia” na academia, o jogo de Eskhaton no Dia da Interdependência.

Quase não falei dos terroristas canadenses em cadeira de rodas, da brincadeira que levou boa parte dos meninos e meninas a perderem suas pernas em trilhos de trem – se não perderam a vida –, dos planos de se aproximar dos Incandenza para conseguir pistas sobre o filme, dos ataques terroristas com espelhos nas estradas americanas.

Pouco falei do próprio filme, o “Graça infinita”, o Entretenimento, do efeito que causa no adido médico de um chefe de governo árabe em visita aos EUA e como umas 20 ou 30 pessoas (na verdade, não lembro quantas, mas foram muitas) ficam permanentemente incapacitadas para a vida por causa do que assistiram, de como ele silenciosamente vai se espalhando, das pesquisas feitas sobre o efeito do filme, das várias versões anteriores que Incandenza fez e deixou de lado porque não era o entretenimento perfeito e irresistível que ele queria que fosse.

Praticamente não deu para falar sobre o que há no texto de DFW, as expressões como “cara de camponesa-maltratada-pelas-intempéries”, “a mão mais firme no joystick da sanidade mental”, a narrativa que ainda não sei de onde vinha – com exceção dos trechos narrados em primeira pessoa pelo Hal, os diálogos rápidos e confusos que envolviam dois ou mais assuntos ao mesmo tempo.

Mas nesse finalzinho do texto (juro, está acabando), aproveito para citar isso tudo, para mostrar o quão longe o livro vai na abordagem de temas que são difíceis de descrever, coisas que já sabíamos que David Foster Wallace era capaz de fazer – como em “A pessoa deprimida”, em Breves entrevistas com homens hediondos e alguns de seus ensaios – mas que mesmo assim espantam pela clareza. Como esse trecho:

“A sua Mães Avril ouve os seus próprios ecos dentro dele e acha que o que está ouvindo é ele, e isso faz Hal sentir a única coisa que sente até o fim, ultimamente: solidão.

É questão de certo interesse perceber que as artes populares dos EUA da virada do milênio tratam a anedonia e o vazio interno como coisas descoladas e cool. De repente são vestígios da glorificação romântica do Weltschmerz, que significa estar cansado do mundo, ou um tédio elegante. De repente é o fato de que quase todas as artes aqui são produzidas por gente mais velha cansada do mundo e sofisticada e aí consumida por pessoas mais jovens que não apenas consomem arte mas a examinam em busca de pistas de como ser chique, cool – e não esqueça que, para os jovens em geral, ser chique e cool é o mesmo que ser admirado, aceito e incluído e portanto assolitário. Esqueça a dita pressão-dos-pares. É mais tipo uma fome-de-pares. Não? Nós estamos em uma puberdade espiritual em que nos ligamos ao fato de que o grande horror transcendente é a solidão, fora o enjaulamento em si próprio. Depois que chegamos a essa idade, nós agora daremos ou aceitaremos qualquer coisa, usaremos qualquer máscara de tédio e de ironia cínica ainda jovens, quando o rosto é maleável o suficiente para assumir a forma daquilo que vier a usar. E aí ele se prende ao rosto, o cinismo cansado que nos salva do sentimentalismo brega e do simplismo não sofisticado. Sentimento é igual a simplismo neste continente (ao menos desde a Reconfiguração). […] Hal, que é vazio mas não é besta, teoriza privadamente que o que passa pela transcendência descolada do sentimentalismo é na verdade algum tipo de medo de ser realmente humano, já que ser realmente humano (ao menos como ele conceitualiza essa ideia) é provavelmente ser inevitavelmente sentimental, simplista, pró-brega e patético de modo geral, é ser de alguma maneira básica e interior para sempre infantil, um tipo de bebê de aparência meio estranha que se arrasta anacliticamente pelo mapa, com grandes olhos úmidos e uma pele macia de sapo, crânio enorme, baba gosmenta. Uma das coisas realmente americanas no Hal, provavelmente, é como ele despreza o que na verdade gera a sua solidão: esse horrendo eu interno, incontinente de sentimentos e necessidades, que lamenta e se contorce logo abaixo da máscara vazia e descolada, a anedonia.”

A única reação que tive depois de ler isso foi reler só para aumentar o efeito brutal dos sentimentos do Hal. Pouco antes de ler esse parágrafo eu estava pensando que o garoto é desses que escondem a dor – aqui, no caso, é da solidão que estamos falando, mas cheguei a pensar que era uma dor pela perda do pai mesmo. E, nossa, que definição essa de como somos, da máscara descolada que usamos para parecermos legais e sermos acolhidos, fingindo não sentir nada. É tão patético isso, tanto quanto exprimir esses sentimentos. Seria tão mais fácil saber lidar com a dor, com a solidão. Com a admissão dessas coisas. Sem achar o amor algo besta, sem virar a cara para demonstrações de afeto, sem desdenhar do que as pessoas sentem. Mas nós mesmos não nos abrimos porque é tão doloroso ter essas demonstrações ignoradas ou esquecidas, né? É aí que nos sentimos ridículos, idiotas. Daí é mais fácil se blindar dessas coisas com uma apatia chique, não? Não queria, mas como Hal sigo, seguimos, fazendo isso em algum sentido.

***

Enfim, tá aí o que achei do Graça infinita. Acho que foi tanto tempo em companhia do livro que é meio difícil conseguir sintetizar de uma maneira mais sucinta o que foi a leitura. Faz parecer que é uma coisa monstruosa, eu sei, mas não é. Óbvio que o livro tem momentos maçantes que você gostaria simplesmente de poder pular logo para a parte bacana, que no início é tudo tão sem sentido que a atitude mais normal é deixar ele de lado e começar de novo quando estiver se sentindo mais concentrado, mas quando você chega nesses trechos que marquei aqui e quando a história vai se encaixando e fazendo mais sentido você sente aquele gostinho de recompensa por ter conseguido ultrapassar algo difícil. Tá com vontade de ler mas acha que não é o momento? Espera, talvez seja melhor deixar de lado mesmo. Acha que se esperar você corre o risco de nunca achar tempo para começar a ler? Bem, então se joga, vai que dê certo. Mas sério, esse pessoal todo que já vinha comemorando a tradução do livro aqui não estava fazendo festa por nada. Voltamos ao que eu falei lá no começo, lembra do livro genial de um cara genial? Sei que parece exagero, mas é aquilo mesmo.

No final ele ficou assim: não é um livro para ficar intacto na estante.

No final ele ficou assim: não é um livro para ficar intacto na estante.

(Já pensando aqui quando farei uma releitura.)