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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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A segunda pátria, de Miguel Sanches Neto

A_SEGUNDA_PATRIA_1423665868435628SK1423665868BQuando eu era mais nova (ou seja, adolescente), ouvi várias histórias sobre Blumenau. Que a cidade tinha uma série de túneis debaixo dos principais prédios do centro – como os colégios, o Teatro Carlos Gomes, etc. – que serviriam como fuga para soldados alemães na Segunda Guerra Mundial. Que esse teatro, construído durante a guerra, imita o design de um quepe da SS, e teria o propósito de abrigar Hitler durante seus discursos para um público ariano caso precisasse fugir da Alemanha – Blumenau seria um óbvio destino, pelo jeito. Enfim, eram várias as histórias e “teorias da conspiração” postadas em antigas comunidades do falecido Orkut que envolviam uma das mais famosas cidades de Santa Catarina e a Segunda Guerra.

A colonização alemã, que foi bem intensa naquela região, pode ter abrigado, sim, uma certa comunidade nazista (como aconteceu até no interior de São Paulo, vamos lembrar, e também a recente suástica na piscina de um professor de HISTÓRIA de Pomerode, lá do ladinho de Blumenau). Mas, felizmente, o que se viu durante aquele período não foi um anexo menorzinho do nazismo no Sul do país. E aí chega Miguel Sanches Neto com um romance que imagina o contrário do que aconteceu na nossa História: e se o governo brasileiro tivesse ficado do lado dos alemães, e não dos americanos? O que teria acontecido?

Esse é o objetivo de A segunda pátria: contar uma história de um Brasil alternativo, aliado aos nazistas, que viu florescer o nacional-socialismo nos estados do Sul, principalmente em Santa Catarina, e reviver a perseguição aos negros após a abolição da escravidão. O romance segue o ponto de vista de duas personagens: Adolpho Ventura, um engenheiro nascido em Blumenau que se formou no Rio de Janeiro, que foi um menino negro e pobre vivendo em meio aos alemães (não ricos, mas vistos como superiores a ele) e que retorna à cidade por amor pela terra natal. Adolpho cuida sozinho do filho que teve com uma descendente de alemães, caso escondido de todos pois, apesar de seu bom cargo na prefeitura da cidade e dos contatos que tem, a relação entre um “homem de cor” com uma legítima ariana não é aprovada pela sociedade. A outra personagem é Hertha, a mãe do filho de Adolpho, uma mulher sedutora e independente que é recrutada pelos nazistas para “tocar piano” – leia-se “satisfazer um homem na cama” – em Porto Alegre, episódio que vai alterar pra sempre a sua visão sobre o nazismo e também a sua vida.

Já no início do livro Sanches Neto coloca Adolpho em apuros. Enquanto tenta seguir com uma vida normal na cidade, ele vê crescer a adesão dos colonos simples ao exército nazista que vai marchando pelas ruas. E logo ali, nas primeiras páginas, já temos contato com um episódio traumatizante: com o filho bebê no colo, ele é alcançado pela marcha dos nazistas, xingado pelos homens que antes não o hostilizavam na rua, e um deles se aproxima para cuspir na cara da criança chamando-os de negros nojentos.

Daí em diante, a situação só piora para os negros da região: aos poucos, vão tendo seus empregos tirados, as casas desapropriadas, os bens confiscados até todos serem novamente relegados às bordas da sobrevivência. Até começarem a ser presos sem razão alguma, mandados para uma “fazenda” – praticamente um campo de trabalho forçado – e verem sua liberdade retirada em nome de Hitler. Tudo isso acontece rapidamente.

Encerrada essa primeira parte, Miguel Sanches Neto se concentra em Hertha, na viagem para Porto Alegre e na missão que foi contratada para desempenhar. Hospedada no Hotel Majestic (que hoje é a Casa de Cultura Mário Quintana), ela passa dias sozinha no quarto esperando que algo acontecesse. Hertha é uma mulher que gosta de sexo, que não se importa com a fama que ganhou na cidade e aproveita essa fama para conseguir cada vez mais homens. Mas dessa vez ela terá que satisfazer alguém diferente e misterioso. Não é preciso de muito para adivinhar que o homem que ela terá que satisfazer é o próprio Hitler. Mas depois que volta a Blumenau, ela se vê transformada de nazista para o total horror pelo que Hitler comanda em seu país e, agora, no Brasil sob a proteção de Getúlio Vargas.

A segunda pátria pode ser lido como uma trágica história de amor. Um homem negro e uma mulher alemã que não podem ficar juntos por conta do avanço nazista, o sofrimento pela separação que são obrigados a ter. Mas antes disso tudo, ele é uma visão macabra do que o Brasil poderia ser caso a história fosse outra. Foi isso o que chamou minha atenção para o livro, ver que tipos de horrores poderíamos ter aqui caso o nazismo tivesse encontrado um verdadeiro lar nas colônias alemãs, caso a necessidade de se afirmar superior a outra raça chegasse a níveis tão absurdos a ponto de fazer voltar a escravidão. Apesar da ótima ideia para o enredo, acho que faltou algum elemento que me fizesse ficar realmente ligada aos personagens. Não senti profundidade na abordagem dos sentimentos de Adolpho e Hertha – diferente dos contos que já li do autor e que funcionam justamente por inserir essa carga emocional das personagens em um curto espaço. O narrador de Miguel Sanches Neto concentra a história muito mais nas atitudes, nas ações, e não tanto no psicológico dessas pessoas.

Outra impressão que tive durante a leitura é que tudo parece correr muito rápido e de um jeito muito óbvio. Não que esse tipo de horror não ocorra assim, de uma hora para outra, mas senti falta de uma melhor articulação para fazer a trama parecer mais bem planejada e não tão acelerada, querendo estabelecer logo a tragédia na vida de todo mundo. Faltou surpresa. Parece que a narrativa fica muito ocupada em descrever coisas, contar o que está acontecendo como se fosse uma notícia, e não tanto em mostrar que tipo de mudanças isso está causando no interior das personagens, o que estão realmente sentido e quão abaladas elas estão. Dizer que Hertha estava desconsolada caminhando com a mesma roupa por Blumenau durante meses não é tão impactante como seria mostrar ela chegando a esse estado lentamente, enquanto ela, por si própria, mostrava ao leitor a dor que sentia. Deixando essa informação partir dela, e não do relato impessoal de um narrador.

A segunda pátria tem uma premissa assustadora – e, para mim, esse exercício de “reimaginar” a história é uma maneira eficiente de mostrar que tragédias como essa podem acontecer em qualquer lugar, a qualquer tempo, se permitirmos. Como alerta, é uma leitura válida, que nos faz imaginar um cenário que vai além da história, que pensa nas possibilidades e implicações. Infelizmente, o romance não foi tão impactante tanto quanto a ideia.