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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Minha luta, de Karl Ove Knausgård

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Já faz um tempo que Karl Ove Knausgård é bastante falado por aí. Quando o primeiro livro da série Minha luta saiu em inglês, foram resenhas atrás de resenhas elogiosas – fora o sucesso na Noruega, claro. Porém, mesmo com todo esse espaço na imprensa, a impressão é que muita gente não leu os livros dele – como escreveu Tim Parks nesse artigo do New York Review of Books, em que fala do argumento das vendas do livro para vender mais livros que não necessariamente serão lidos. Seria mais uma pura modinha? Acho que não. Já havia lido o primeiro livro no ano passado, mas queria escrever sobre os dois já lançados no Brasil ao mesmo tempo, então finalmente estou aqui levantando a mãozinha e dizendo “sim, eu li!”.

Minha luta é a série em que Knausgård narra toda a sua vida, ou pelo menos as partes mais importantes dela – eu sei, você pensou em Hitler com esse nome, mas esquece isso. Não é uma autobiografia, pelo menos eu não vejo como uma, mas sim uma história romantizada, cheia de memórias, “causos”, pensamentos e reflexões do autor sobre a literatura e a escrita. Não é um “eu sou essa pessoa e essa foi a minha vida”. Acho que vai bem mais além disso. Mas é só um cara escrevendo sobre coisas cotidianas? Sim, é, e é muito bom.

No primeiro volume da série, A morte do pai, Knausgård dedica o livro à história, claro, de seu pai. Da infância nas cidades em que morou na Noruega, dos tempos da escola, a adolescência solitária e isolada, com poucos amigos, a vida nos anos 1980 e 1990, as expectativas que tinha dessa vida. E seu pai ronda todos esses temas, a conexão sensível entre eles, a personalidade carrancuda, imprevisível, beberrenta. Karl Ove não segue uma ordem cronológica nos livros, na verdade a narrativa dele me lembrou muito o esquema de How I Met Your Mother (sim, que comparação, hein), onde a partir de um acontecimento principal vários flashbacks vão cruzando a história, como grandes parênteses dentro do texto principal.

No primeiro livro já fiquei encantada com Knausgård. Sua história não é nada extraordinária, não tem nenhum grande drama, um caso inusitado ou espantoso – a curiosidade pode estar, talvez, em se tratar da vida de um escritor, de um leitor estar mais próximo do que ele pensa podendo ver como surgem suas ideias. Mas ele é só um cara lidando com a morte do pai, limpando com o irmão a casa imunda onde ele passou os últimos anos de sua vida, lembrando de uma festa de Ano Novo em que ele e um amigo fizeram de tudo para conseguir levar bebidas alcoólicas, contando de como tinha uma banda horrível na escola, das brincadeiras de criança, da cidade onde cresceu. Não é nada especial, falando desse jeito. Mas é narrado de uma forma tão envolvente que você não se sente entediado lendo 30 páginas sobre essa faxina, um capítulo inteiro sobre esse Ano Novo frustrado. Knausgård transforma as coisas mundanas da vida em algo interessante, e você só quer ler mais e saber mais sobre ele.

“Sempre tive uma grande necessidade de estar sozinho, preciso ter meu quinhão de isolamento, e, quando não consigo, como nos últimos cinco anos, a frustração que surge pode às vezes se transformar em pânico ou agressividade. E, quando aquilo que me levou para a frente durante toda a vida adulta, a ambição de um dia escrever algo brilhante, de algum modo se vê ameaçado, meu único pensamento, que me corrói as entranhas, é que preciso fugir.”

O segundo livro, Um outro amor, é centrado em Linda, sua segunda esposa com quem teve três filhos. O início do livro já deixa você imerso na rotina de desentendimentos da família: voltando de uma viagem que não deu certo, ele, a esposa e os filhos param num parque decrépito na beira da estrada e ele conta como anda irritado com todos esses pequenos dramas que ele e a mulher criam, deixando o ambiente tenso como se eles estivessem prestes a explodir um com o outro a qualquer momento. Aí Knausgård volta no tempo, começa a contar em detalhes como era sua vida assim que se saiu da Noruega e se mudou para Estocolmo, como conheceu Linda, como se apaixonou por ela, como passaram a viver juntos e como a história de amor que começou tão bem foi aos poucos ficando cada vez mais conflituosa.

Além de falar da mulher e dos filhos que vieram a seguir – o parto de Vanja, sua primogênita, foi a única descrição de um nascimento que realmente me emocionou depois de tantos filmes e novelas –, ele também escreve sobre a própria escrita, da insegurança com seu texto, da publicação do segundo romance – Karl Ove, desde a primeira publicação, já colecionava prêmios e elogios da crítica –, de como ele considera tudo o que faz ruim. Logo suas reflexões sobre a literatura, que já aparecem em A morte do pai, voltam para cá. A sua vida é ler e escrever, e ele quer discutir literatura e usá-la para narrar sua história. É uma relação forte demais para que ele separe a vida dos livros. Como ele diz no primeiro livro:

“Escrever é retirar da sombra a essência do que sabemos. É disso que a escrita se ocupa. Não do que aconteceu aí, mas do aí em si. Aí, esse é o lugar e o propósito da escrita.”

Quando a escrita não o satisfaz, é aos livros que ele recorre, a literatura para ele é, também, um escape da realidade: “eu não conseguia encontrar paz em nada, a não ser nos livros, cheios de lugares, épocas e pessoas, onde eu não era ninguém e ninguém era eu”. Tanto em A morte do pai como em Um outro amor, é o que Knausgård faz e pensa que conta. Ele não está contando histórias das pessoas da sua família ou dos seus amigos, ele está contando a sua história, qual é o seu ponto de vista sobre a vida e o que ele pensa sobre si mesmo, como ele afeta as pessoas que estão em volta dele e como elas o afetam. Ele não economiza na autodepreciação, em dizer que não é um bom escritor, um bom pai ou um bom marido, também não ameniza as críticas aos amigos e família. Em vários momentos, Karl Ove fala como quer, sempre, agradar as pessoas em volta, fazer com que elas gostem dele, e como isso muitas vezes acaba prejudicando ele mesmo, levando-o a fazer coisas que não quer, e essa frustração toda está presente nos livros.

Minha luta parece um exercício de autoconhecimento, sempre abordando os lugares e os sentimentos que eles despertam no autor. Suas lembranças são falhas, como ele mesmo diz, mas a impressão que elas deixam são fortes. E aí ele vai escrevendo sobre tudo, sem economizar as páginas. Mas seria tudo isso realmente verdade? Para mim, sinceramente, não importa. As personagens são reais, sim, mas a memória é mesmo falha, e não vejo problema em pensar que muito do que está no livro foi inventado ou então maquiado pelo autor. Nós mesmos fazemos isso com as nossas memórias todos os dias, deixando-os mais trágicas ou mais amenas, dependendo de como queremos que nosso ouvinte/leitor nos veja. É uma construção de imagem. E é assim que ele faz: Karl Ove tenta resgatar, como o final do segundo livro revela, suas memórias através das anotações que foi fazendo durante toda a vida, e aí é possível imaginar ele preenchendo essas anotações com detalhes que lembra da época ou que então percebe apenas agora. Pode ser verdade, pode não ser, mas isso não tira nem um pouco do mérito de sua escrita.

“[…] o que declaramos ser verdadeiro pode sempre ser declarado falso. Esse é o marco zero, o lugar a partir de onde o valor zero se espalha. Mas não se trata de um ponto morto, tampouco para a literatura, porque a literatura não se resume às palavras, a literatura é aquilo que as palavras despertam em quem lê. É essa transcendência que torna a literatura válida, e não a transcendência formal em si, como muitos parecem acreditar.”

Se em dois volumes com quase 600 páginas cada Karl Ove conseguiu falar de sua infância, da adolescência, do início da vida adulta e de dois casamentos, podemos nos perguntar se já não é o bastante, se existe material para os outros quatro livros. Acredito que existe sim. São muitas conversas, muitos detalhes. Até aqui, a sua vida de escritor ainda está só “começando”. E não duvido que esses próximos livros continuem tão bons quanto os dois primeiros.

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Olar.

Ps.: Para quem está se perguntando “cadê o terceiro livro?”, ele se chama A ilha da infância e vai ser lançado aqui em maio. 😉