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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Stoner, de John Williams

stoner-capaDepois de sua morte, o que será que resta de você no mundo? De William Stoner, o que restou foi um manuscrito medieval doado pelos seus colegas à biblioteca da Universidade do Missouri em sua memória, mas a lembrança de quem foi e o que fez não contém a mesma permanência que o livro. Stoner nasceu em 1891, morreu em 1956, e sua vida não foi das mais emocionantes. Mas ele é o protagonista de Stoner, romance de John Williams publicado em 1965 e resgatado da memória literária em 2003, depois de ficar tão esquecido como o seu personagem. Pessoas como Stoner merecem ter sua história contada, pois pessoas como ele são iguais a maioria de nós:  não são nada especiais, passam pelo mundo deixando poucas marcas, vão embora sem fazer muita falta. E a vida segue.

Filho de pequenos agricultores, Stoner foi parar na Universidade do Missouri por ideia de seu pai. Prevendo que a terra seca não traria muito futuro, seguiu a indicação de um amigo de enviar o jovem William à universidade para aprender mais sobre a terra do que ele jamais aprendeu. O garoto, com 19 anos, segue o conselho e vai para Columbia, assim como acontecerá com qualquer decisão que virá a tomar no resto de sua vida. É quase como se ele não fizesse escolhas por conta própria, sempre empurrado pelas ideias dos outros. Mas depois de dois anos na faculdade, ele decide trocar o curso de ciências agrícolas para o de literatura, matéria que desconhecia até então. E aí Stoner troca o trabalho na terra pelo intelectual. Um mundo completamente diferente daquele de onde veio.

John Williams narra em pouco mais de 300 páginas cerca de 50 anos da vida do protagonista. Do mesmo jeito que foi empurrado pelo pai para a faculdade, ele é sugado pela vida acadêmica por aconselhamento de seu primeiro professor de literatura. Como se no mundo não houvesse outra opção para ele além de se proteger dentro da universidade. Um dos seus poucos amigos na época do doutorado, Dave Masters, resume bem a decisão: “É para nós que a universidade existe, para os despossuídos do mundo; não para os estudantes, não para a busca desinteressada do conhecimento, não por nenhuma das razões que se ouvem”. A vida acadêmica, como Stoner confirma depois, é para quem não sobreviveria ou não suportaria viver na realidade que é o mundo (e por isso mesmo pode acolher certos fracassados que, lá dentro, conseguem se enganar e enganar os outros com um talento fingido, o que não é o caso dele).

Depois de se tornar professor, Stoner se casa com Edith, filha de um banqueiro de St. Louis tão desinformada sobre a vida que não consegue jamais se sentir confortável com o próprio marido – um casamento triste, insosso, no limite do conveniente. Mas para o que o leitor já sabe sobre ele, um feito até surpreendente. Os dois têm uma filha, Grace, menina que durante os primeiros anos de vida foi praticamente negligenciada pela mãe, mas amada pelo pai. Porém, ela é “tirada” de seu convívio conforme Edith vê que ele não poderia ter a menina como aliada – os sentimentos de Edith por Stoner passam do ódio à apatia conforme os anos passam. E ele pouco liga para isso.

E assim John Williams leva William Stoner pela vida: passivo, ele não tem forças para tomar as próprias rédeas, para reivindicar aquilo que merece, porque ele não acredita que mereça alguma coisa. Resumindo de uma forma grosseira, Stoner está pouco se fodendo para o que acontece com ele. O embate com Lomax, um professor rival, é a única coisa que injeta algum tipo de vontade própria em seu cotidiano, mas Stoner facilmente se cansa das intrigas, em algum momento desiste de lutar e aguenta calado as consequências. De novo, foda-se o que suas atitudes vão causar. Nem com Katherine, jovem professora com quem mantém um caso, ele é capaz de tomar alguma atitude drástica. Quando vê a sua carreira e a dela ameaçadas, ele permanece quieto, deixando que ela vá embora sem querer pensar demais no assunto.

É somente através da literatura que Stoner se expressa e que conseguimos ver que sim, ele não é esse homem sem sal que demonstra ser em quase todo o livro. Como quando está montando seu escritório na nova casa: “Enquanto consertava sua mobília e a arrumava no escritório, era a si mesmo que ele estava dando forma, era em si mesmo que estava pondo alguma espécie de ordem, era a si mesmo que estava dando uma chance”. É nesse momento notamos que William tem ambições, vontades, ele se enxerga nas estantes em que deposita as leituras de sua vida e carreira, na literatura medieval e latina, nos versos que estuda na sala de aula, no único livro que escreveu na vida. E quando, na intenção de infernizar a vida de Stoner, Edith desmonta seu escritório e o passa para o cômodo mais impróprio da casa, vemos como ele é facilmente desmontado pelos outros, descaracterizado de sua personalidade. Stoner vai sendo, aos poucos, levado para longe daquilo que o define, e novamente faz muito pouco, ou nada, quanto a isso.

Apesar de apresentar com tamanha rapidez a história desse personagem – em poucas páginas muitos anos podem se passar –, John Williams mantém em todo o livro esse clima melancólico de uma vida aparentemente apática, e é isso que faz de Stoner uma narrativa incomum. A narração indireta intensifica essa sensação de “desimportância” que o personagem têm, aumenta a “pena” que sentimos por ele. Porque mesmo nos momentos de felicidade, Williams vai construindo o momento de virada, aquele em que as coisas voltarão a não dar certo para Stoner, não deixando elas acontecerem sem um propósito, como se viessem do nada, elas têm um background convincente.

No fim da vida, Stoner se vê como um fracasso. Ele não foi o professor brilhante que gostaria de ser, não teve o casamento feliz que pensaria que fosse ter, não foi um pai presente como os primeiros anos de sua filha sugeriram que seria, teve o amor com que sonhou, mas não teve coragem de seguir com ele. Enfim, Stoner teve todas as oportunidades de ser um grande homem bem ali ao seu alcance, mas não soube aproveitá-las. Mas, como ele se pergunta, “o que você esperava?”. Stoner não nutriu grandes ambições, conscientemente recusou as que surgiram. Só que, apesar dessa conclusão soturna, ele ainda foi alguém que mereceu consideração. Ele conseguiu se ver como um ser humano completo, que passou por todas as fases da vida. E essa passagem não foi assim completamente ignorada. Ele esteve no mundo, e por mais que as pessoas fossem esquecer rapidamente dele, as marcas ainda estariam aí para quem conseguisse, ou quisesse, ver.

É engraçado pensar que Stoner, o livro, teve praticamente o mesmo destino de seu personagem. Que ficou esses anos todos jogado no fundo de uma prateleira sem que quase ninguém o lesse ou desse atenção, apesar de ter sido bem recebido assim que foi lançado. E para provar o final do próprio romance de John Williams, uma hora as coisas são redescobertas. Assim como algum aluno, tardiamente, pode pegar aquele manuscrito medieval, ver nele a homenagem a William Stoner e se perguntar “quem foi esse homem, o que ele fez?” e ir atrás dessas respostas, alguém fez reviver o brilho do romance. Que depois que a “moda” passar, pode acabar sendo esquecido de novo.