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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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A amiga genial, de Elena Ferrante

a_amiga_genial_capaEu lembro de, na escola, ter umas coleguinhas em que me espelhava para tentar ser como elas. Bonitas, bem vestidas, inteligentes, geralmente elas vinham de famílias que tinham mais dinheiro que a minha. Era uma mistura de inveja com admiração, creio eu. Não é que eu odiava elas daquele jeito tipo “se eu não tenho isso, elas também não podem ter”. Eu queria estar próxima delas, por mais que visse que algumas não gostavam das mesmas coisas que eu e até eram meio “malvadas” – faziam fofoquinhas, zombavam dos outros alunos, essas coisas. Eu não era esse tipo de gente, mas achava importante estar perto para ter um tipo de aprovação delas, para que elas vissem que eu era tão boa como elas. Acho que por isso achei tão fácil me identificar com Lenu Greco, a narradora e protagonista de A amiga genial, de Elena Ferrante (tradução de Maurício Santana Dias).

Lenu – apelido para Elena – tem essa relação com Lila – Rafaella Cerullo –, com quem desde criança firmou uma amizade marcada justamente por essas características: o desejo de ser como ela, a competição velada entre as duas para ver quem estava mais à frente, seja nos estudos ou na vida social, a necessidade de aprovação uma da outra. Mas, acima de tudo isso, a admiração, principalmente da parte de Lenu, que é quem nos conta essa história toda.

A amiga genial é o primeiro romance da série Napolitana, que irá abranger toda a vida dessas duas amigas. Ao receber a ligação de Rino, filho de Lila, Lenu descobre que sua amiga, que nunca deixou Nápoles, sumiu sem deixar rastro algum. Além dela, todas as suas coisas sumiram – roupas, fotos, cartas, Lila foi embora sem deixar marcas de sua existência. A própria Lila não guarda nada da amiga para provar que sim, ela existe – ou existiu. Lila tomou o cuidado de sumir completamente. Então, para desafiar a amiga, Lenu decide escrever toda a sua história, contar em detalhes essa amizade desde o seu início para preservar a memória de Lila. E é aqui que A amiga genial começa.

Elena Ferrante divide o texto em blocos curtos, deixando toda a leitura passar sem trancos, sem obstáculos. Ela segue a ordem cronológica dos fatos, embora às vezes se adiante ou volte um pouco no relato para explicar melhor algum aspecto da história, algum causo para ilustrar a personalidade de Lila ou algum conflito que esteja acontecendo entre os moradores do bairro pobre em que a história se passa. E faz isso muito bem, construindo cada personagem a fim de dar uma complexidade que vai além das descrições de Lenu.

Desde pequena, Lila é uma personagem desafiadora e encantadora, o que atrai a atenção de Lenu desde que a conhece. Ela não se intimidava com os adultos ou com as crianças maiores, não via obstáculos à sua frente. Sabia ler antes de todos, fazer contas antes de todos, e nela Lenu viu alguém que iria além daquele bairro violento do subúrbio onde cresceram. E, talvez até por Lila não se sentir ameaçada ou diminuída pela amiga, é que as duas firmam uma amizade. Cheia de admiração e com uma ponta de competitividade, Lenu quer mostrar que pode ser igual a ela.

O que Lenu faz neste seu relato é deixar o leitor também admirado, quiçá até apaixonado, pela figura de Lila. Essa curiosidade vem justamente daquilo que Lenu não consegue colocar no papel: o que Lila queria fazer de sua vida, o que ela realmente pensa, que relação ela acha que tem com a amiga. Mas pequenos atos da personagem dão pistas de que, assim como a narradora via na amiga uma imagem de autoridade, de ousadia e ambição, o mesmo era sentido por Lila. Por exemplo, quando Lenu passa nas provas para entrar em outra escola e Lila não consegue seguir adiante nos estudos, a amiga logo corre para pegar os livros a aprender antes de Lenu aquilo que ela veria nas aulas. Ela não quer ficar para trás, não quer parar e não poder acompanhar os avanços intelectuais de Lenu. Enquanto a narradora faz o mesmo na questão social: quando Lila começa a receber as primeiras propostas dos garotos para namoros, ela logo arranja de se mostrar mais atraente para também ser cortejada. É quase uma batalha, mas saudável, pois leva as duas a fazerem coisas que não fariam sem o incentivo da outra, e a irem além dos outros moradores do bairro.

Elena Ferrante não fica apenas na descrição dos sentimentos e pensamentos de Lenu quanto a Lila nesta história. A trama se passa poucos anos após o fim da Segunda Guerra, e essas tensões ainda estão presentes na cidade, e, claro, na narrativa. Ela descreve uma comunidade violenta e em constante conflito. A toda hora estouram tensões, vizinhos discutem, mulheres se puxam pelo cabelo, rolam socos e tiros pelas casas até que as pessoas chegam às vias de fato. Como Lenu narra em um parágrafo, era um tempo em que ser ofendido, brigar e até morrer era algo muito comum no cotidiano da comunidade.

“Vivíamos em um mundo em que crianças e adultos frequentemente se feriam, o sangue escorria das chagas, que depois supuravam e às vezes se acabava morrendo. Uma das filhas de dona Assunta, a verdureira, se ferira num prego e morrera de tétano. O filho menor da dona Spagnuolo morrera de crupe na garganta. Um primo meu de vinte anos saiu de manhã para remover uns escombros e à tarde morreu esmagado, com sangue saindo pelas orelhas e pela boca. O pai de minha mãe morreu porque estava construindo um prédio e caiu lá de cima. O pai de seu Peluso não tinha um braço, foi um torno que o arrancou de surpresa. A irmã de Giuseppina, mulher de seu Peluso, morreu de tuberculose aos vinte e dois. O filho mais velho de dom Achille – eu nunca o vira, mas tinha a impressão de me lembrar dele – foi para a guerra e morreu duas vezes: a primeira, afogado no oceano Pacífico; a segunda, devorado pelos tubarões. Toda a família Melchiorre morrera abraçada, gritando de medo, sob um bombardeio. A solteirona Clorinda morreu respirando gás em vez de ar. Giannino, que estava na quarta série quando nós estávamos na primeira, tinha morrido porque um dia achou uma bomba e tocou nela. Lugina, com quem brincávamos no pátio – ou talvez não, era só um nome – morreu de tifo exantemático. Nosso mundo era assim, cheio de palavras que matavam: crupe, tétano, tifo exantemático, gás, guerra, torno, escombros, trabalho, bombardeio, bomba, tuberculose, supuração. Atribuo os medos inumeráveis que me acompanharam por toda a vida a esses vocábulos e àqueles anos.”

Como dá para perceber no trecho, Elena Ferrante descreve com cuidado e detalhes um número enorme de personagens, todas ligadas a alguma função. Pois não são só Lenu e Lila quem contam nessa história, mas todos os vizinhos, colegas de escola, pessoas com quem vão se relacionando mais ou menos durante os anos e são parte essenciais de todas as tramas que viveram. É uma gama rica de pessoas e personalidades que fazem parte da narrativa. O pai de Lila, o sapateiro; o pai de Lenu, o contínuo da prefeitura; a professora Oliviero, quem impulsionou Lenu para os estudos; Melina, a louca de amor por Donato, o fiscal de trem poeta; dom Achille, da charcutaria, de quem todos tinham medo por fazer dinheiro com o mercado negro durante a guerra, assassinado pelo marceneiro Peluso; os Solara, donos do bar-confeitaria que, na adolescência de Lenu, se sentiam os donos do bairro por serem membros da camorra; enfim, todos têm uma função, um status trazido por essa função, amizades e inimizades passadas de geração e geração.

E com toda essa ambientação Elena Ferrante te leva para dentro dessa história, para os conflitos, mudanças e descobertas que Lenu vai fazendo, afastada ou não de Lila. Muito além de uma inveja e competição, Lila e Lenu têm apenas uma a outra na vida, no plano de serem ricas, de saírem da pobreza e violência do bairro em que cresceram. Uma impulsiona a outra a ser melhor, a ficarem acima das mesquinharias de seus vizinhos e do medo que sentem por alguns deles.

E no final você se pega triste pelo fim do livro, ansiosa pela continuação – xingando Elena Ferrante pelo modo que ela encerrou este primeiro volume ao mesmo tempo que a elogia pela qualidade da história –, pesquisando imagens de Nápoles no Google só para tentar ver melhor esse lugar que irá abrigar os próximos capítulos. Ninguém sabe quem é Elena Ferrante, ela não se revela, ela diz que a obra deve ser independente de seu autor, e falo isso apenas agora porque sim, o livro te traga totalmente e você nem dá bola para quem o escreveu. A curiosidade pela trama parte, sim, desse mistério que envolve a autora. Mas a história encanta por méritos próprios.