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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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A ilha da infância, de Karl Ove Knausgård

a-ilha-da-infancia-capaUma das memórias mais antigas que tenho, acho, é de quando ainda morava em Witmarsum. Estava na cozinha da casa de madeira onde eu e meus pais morávamos, fazendo sei lá o que, e aí resolvi ir para perto do fogão. Fiquei mexendo nele até apertar o botão do acendedor automático. Não esperava pelo barulho de choque que ele fez, e isso me assustou tanto que saí correndo para meu quarto e me joguei na cama. Só que bem onde caí tinha uma vaquinha vermelha de plástico que deu uma pontada na minha costela. E aí comecei a chorar mesmo. O “acho” foi porque eu não tenho certeza se isso realmente foi uma lembrança ou se foi um sonho infantil. Eu deveria ter uns dois anos de idade na época, e não acho possível que tenha uma memória capaz de lembrar dessas coisas com esses detalhes. Acontece que é bem difícil para nós lembrarmos das nossas primeiras memórias, porque as células do nosso cérebro são “trocadas” e aí os arranjos que elas formariam para resgatar essas lembranças não são mais possíveis de serem refeitos. Por isso lembramos tão pouco (e mal) dos nossos primeiros anos de vida.

Enfim, Karl Ove Knausgård ignora essa questão em A ilha da infância, terceiro livro da série Minha luta (tradução de Guilherme Braga). Mas pelo bem da literatura, claro. O escritor norueguês começa a história justamente quando tem oito meses de idade – e, como diz logo depois, é claro que ele não se lembra de nada do que acabou de escrever. Seu pai, sua mãe e Yngve, seu irmão mais velho, estão chegando na casa nova localizada em uma ilha de Sørlandet. E a partir daí ele segue uma narrativa linear sobre o tempo em que viveu lá, até os 13 anos de idade. E essa é uma característica diferente dos outros dois romances anteriores, que apresentavam longos flashbacks fora de ordem enquanto outra cena mais mundana acontecia na vida de Karl Ove. Que eram, de uma forma mais simples, lembranças que iam surgindo. Mas aqui elas estão mais “organizadas”, e não temos ideia do que o autor estava fazendo enquanto escrevia sobre sua infância.

A ilha da infância é, então, aquilo que o título sugere: uma história sobre um lugar, este em que Karl Ove cresceu, e sobre seus primeiros anos de vida, as pessoas que conheceu, a rotina de sua família, as coisas que foi aprendendo. É um livro que guarda toda a inocência da infância sobre aquilo que ignoramos ou não temos idade para entender, e também toda a surpresa das descobertas que fazemos. Mas embora o livro tenha sido aquele que fez a série “pegar no tranco” lá fora, ainda considero Um outro amor a narrativa mais forte de Knausgård.

Karl Ove foi, segundo ele mesmo, uma criança medrosa. Com medo de fantasmas, medo do barulho que os canos de água quente faziam pela casa (a ponto de fazê-lo tomar banhos gelados), medo de nadar no mar e, principalmente, medo do próprio pai. É quase como se este fosse um segundo livro dedicado à memória dele, mas no lugar de reviver a relação distante que os dois mantiveram durante a adolescência e a vida adulta do autor – e refletir sobre todos os sentimentos que tinha pelo pai –, aqui ele se concentra no ambiente fechado e amedrontado em que ele e seu irmão viviam, em constante receio por conta acessos de fúria do pai. Pelo menos até quase o final do livro, quando o professor de literatura encontra um emprego em outra cidade e se muda antes de toda a família, cada página é marcada pela expectativa do momento em que Karl Ove vai novamente sofrer alguma represália, crítica ou até agressão de seu pai, por mais que não tenha feito nada de errado.

E durante essa leitura ficamos fazendo uma comparação entre essa infância e a vida adulta de Knausgård e o que sabemos sobre ela: um homem alto, bonito, com um jeito meio severo, casado, pai e intelectual. Sem parecer em nada com o menino loiro de bunda meio grande e empinada e andar desajeitado. A diferença entre o menino de 6 anos para o homem de 40 é gigantesca, tanto que até o próprio escritor olha para seu passado como se fosse o de outra pessoa. E para o futuro também. É como ele escreve logo no início:

“Será que aquela criatura é a mesma que agora está em Malmö escrevendo estas palavras? E será que a criatura que agora está em Malmö escrevendo estas palavras, aos quarenta anos, num dia encoberto de setembro num cômodo repleto do murmúrio do tráfego no lado de fora e do vento de outono que uiva no antigo sistema de ventilação, há de ser o mesmo velho grisalho e encolhido que daqui a quarenta anos talvez vá estar tremendo e babando em uma casa de repouso no meio das florestas suecas? Para não falar do corpo estendido que um dia há de se estender em cima da mesa de um necrotério? Mesmo assim, as pessoas vão se referir a ele como ‘Karl Ove’.”

Como o trecho acima já mostra, A ilha da infância continua com o estilo incansavelmente descritivo de Knausgård. Tudo é detalhado, cada informação, relevante ou não, está no livro. As flores da primeira touca de natação – que lhe causou um constrangimento difícil de lidar –, a marca dos óculos, os tipos de carros, a potência dos motores dos barcos, as roupas das meninas que lhe despertavam o desejo na escola, as árvores e outras plantas das florestas em que brincava com seus amigos. Nada escapa da “memória” de Knausgård – coloco memória entre aspas porque, novamente, é impossível se lembrar de tudo sem adicionar ficcionalmente alguns detalhes.

As meninas, aliás, são parte importante desta história, principalmente depois da metade do livro. Já aos 7 anos Karl Ove demonstra o interesse pelo sexo oposto, toda semana tendo uma nova paixãozinha na escola. E assim continua pelos anos seguintes, com a diferença de que, conforme cresce, esses “namoros” atingem novos patamares. De brincar junto a andar de mãos dadas, de selinhos a beijos calorosos, das olhadas às apalpadas por debaixo da roupa. E quando pensa nelas, ele vai tomando consciência de como é diferente, um pouco esquisito, como as pessoas tendem a não gostar dele por ser meio arrogante e sabichão. Mas além disso, Karl Ove segue os dias de brincadeiras com seus amigos, as tardes de leitura no quarto. E sempre volta o pai. A apreensão que surge quando ele está em casa, quando exige a presença do filho.

E ele realmente é assim amedrontador. Karl Ove fica tão sem reação quando está de frente da fúria do pai que não consegue se defender, nem fisicamente e nem com as palavras, mesmo quando as reprimendas do pai não têm justificativa. Ele apenas aceita o castigo, murmura que nunca mais isso vai se repetir, obedece sem reclamar para que a bronca não seja maior. E alguns castigos sugerem até um tom de tortura, como quando Karl Ove foi obrigado a comer uma maçã atrás da outra até começar a passar mal, tudo porque na noite anterior pegou duas maçãs sem sequer ter notado. Felizmente, para Karl Ove e Yngve, existe a sua mãe, que tem a paciência e o carinho para lidar com os filhos.

A ilha da infância continua a leva de boas leituras que Knausgård proporciona. Aqui não há aquela reflexão quase que teórica sobre a escrita e a literatura que o autor fez nos outros livros. O que ele traz é o início de sua formação como leitor, como essas histórias foram moldando o gosto literário de Karl Ove e aliviando suas tardes solitárias. E neste livro o autor se concentra nessas histórias, revivendo uma lembrança atrás da outra, os causos engraçados, curiosos ou até trágicos que acontecem na vida de toda criança. Talvez por isso seja uma leitura muito mais leve e, se posso usar essa palavra, divertida. Mas, claro, não podemos ler pensando que sim, tudo aconteceu daquele jeito, foi tudo assim, tim-tim por tim-tim. Porque se até nas lembranças mais recentes tendemos a alterar os detalhes, tirar ou acrescentar coisas, imagina como as memórias mais antigas podem se distanciar do que realmente aconteceu. Mas isso não importa. Knausgård ainda mantém a qualidade da narrativa dos primeiros livros.