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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Do que é feita uma garota, de Caitlin Moran

do-que-e-feita-uma-garota-capaJohanna Morrigan é uma garota de 14 anos que não vê a hora de experimentar a vida. Em 1990, ela vive em Wolverhampton, uma cidadezinha no condado de West Midlands, Inglaterra, com sua família totalmente decadente: um pai (Pat) sem noção da realidade que sonha em ser um astro do rock milionário, uma mãe em depressão pós-parto depois da chegada dos gêmeos surpresa (que nem nome têm), o irmão mais velho (Krissi), de 15 anos, uma sombra sensata na casa, e outro de seis anos (Lupin), sempre às voltas com a irmã. Ninguém na casa trabalha e a família vive de benefícios do governo – o pai é “meio deficiente”. Mas Johanna é uma adolescente feliz, inteligente, que devora todos os livros da biblioteca, reencena musicais com seus irmãos, se diverte do seu jeito.

O único porém é que ela está louca para perder a virgindade e não tem perspectivas de ver isso acontecer tão cedo – é feia, gordinha, não tem amigos, nenhum atrativo para um homem. Então, para tentar fazer isso acontecer e também arranjar mais dinheiro para sua família – e para se livrar de um episódio humilhante protagonizado por ela na TV –, Johanna decide se reinventar assumindo uma nova personalidade, a de Dolly Wilde. Do que é feita uma garota (tradução de Caroline Chang) é um romance de formação onde a própria protagonista se constrói, costurando hábitos, conhecimentos, experiências para se tornar uma garota cool e “transável”. Caitlin Moran, autora de Como ser mulher, recheia essa história com referências a livros, séries, filmes e, o mais importante, muita música da cena underground dos anos 1990. Pois quando se torna Dolly Wilde, ela escolhe como objetivo, além das transas, claro, ser jornalista e crítica musical numa revista de circulação nacional.

O que mais encanta no livro é o humor de Johanna. Ela é adorável, seu jeito estabanado gera momentos de constrangimentos engraçadíssimos, mas apesar de todos os erros, das confusões que causa, ela nunca perde o otimismo, sempre olhando para as coisas do jeito mais positivo possível. Ela é totalmente ingênua nesse mundo de drogas, bebedeiras, sexo e música, mas nem por isso se envergonha ou se abala. Ou mesmo se diminui por essas pessoas. Mesmo quando começa a se enturmar mais e a agir mais com o que esse novo mundo espera, ela mantém essa inocência, o que deixa as situações ainda melhores.

Caitlin Moran é sincera na construção da personagem. Johanna descreve para o leitor tudo o que sente sem filtros, e vamos vendo junto com ela os avanços que faz na construção de sua própria imagem, experimentando o que dá ou não dá certo, vendo em tempo real as suas dúvidas sobre o que ela mesma quer ser. Como ela fala: “Ainda não há uma palavra para descrever o que quero ser. Não há nada que eu possa almejar. O que eu quero ainda não foi inventado.” Ela só tem uma certeza por enquanto: não quer ser mais virgem.

“Para mim, a questão de perder minha virgindade é muito mais urgente do que o declínio industrial de Wolverhampton. Passou do limite da urgência, está, na verdade, prejudicando toda a família. Enfiei na cabeça que eu deveria fazer sexo pela primeira vez enquanto ainda sou menor de idade – parece… trapaça esperar até que seja legal. Qualquer pessoa consegue fazer sexo quando tem dezesseis anos. Tente fazer aos catorze, saindo apenas com seus irmãos e usando o sutiã da sua mãe. Nem mesmo Challenge Andrea tentaria uma coisa dessas.”

Johanna fala sobre seus desejos e impulsos sexuais de forma bem aberta, bem-humorada, e mesmo as passagens mais constrangedoras têm uma graça e naturalidade difíceis de encontrar numa narrativa. Como num dos trechos em que ela está com os hormônios fervendo, querendo a qualquer custo uma noitada com alguém:

“Quero que todo mundo – homens, mulheres, minotauros (leio bastante mitologia grega e topo qualquer coisa que me apareça na frente) queira fazer um sexo absoluto, total comigo, bem nas minhas áreas sexuais, da maneira mais sexual possível. Sexualmente.”

A coisa fica ainda mais interessante quando, aos 16/17 anos, já trabalhando para uma revista e inserida nesse mundo da música, ela começa a se relacionar com vários homens e recolhe histórias engraçadíssimas sobre eles. Johanna não têm medo ou vergonha de sua própria inexperiência no assunto, muito menos de narrar isso para seus colegas de redação. Ela está aí para descobrir, e está descobrindo.

Além de toda essa obsessão de Johanna com o sexo e a sua virgindade, nasce dessa construção de seu alter ego uma relação intensa com a música. A descoberta da cena underground é outro ponto de virada para a personalidade daquela que vai ser Dolly Wilde, adquirindo uma importância grande na sua vida, como um escape dessa rotina pobre que leva com sua família cada vez mais sem grana. “Mas está tudo ali, numa fita cassete, se eu quiser e precisar e eu quero e preciso: quero e preciso de todas essas novas cores e ideias e vozes, em pequenas fitas cassete cinzentas que posso guardar no bolso, como amuletos. Como os livros antes delas, sei que cada uma dessas músicas poderia, no final das contas, provar ser justamente aquilo do que eu preciso: uma saída. Um lugar aonde ir”, escreve ela.

A toda hora, a protagonista pensa sobre o que está fazendo, sobre quem está se tornando. “Fiz minhas anotações, veja bem, sobre do que é feita uma garota e como lançá-la no mundo. Todo mundo bebe. Todo mundo fuma. A Miki-Esponja-Berenyi é uma puta de uma mulher legal. Fingir até conseguir. Você conversa sobre sexo como se fosse um jogo. Você tem casos. Você não faz citações extraídas de musicais. Você faz tudo aquilo que os outros estão fazendo. Você fala coisas para ser ouvida, mais do que para estar certa. Você lamenta para as luzes dos postes, pensando que são o Sol.” E assim, fingindo outra personalidade, fazendo aquilo que se espera que uma garota legal, divertida e liberal faça, Johanna chega com Dolly Wilde onde quer: tem casos, tem histórias, tem uma fama como uma das críticas mais ferozes da revista para onde escreve. Mas será que é disso mesmo que uma garota legal é feita?

E aí chega o momento em que Caitlin leva sua protagonista a questionar seus atos, suas escolhas, a pensar se realmente se tornou uma garota legal e admirável ou se não está indo pelo caminho errado, pisando em cima dos sonhos das bandas que detona em suas críticas e dos homens com quem sai para contar histórias mirabolantes na redação – como a de Al Pau Grande, um dos momentos mais hilários do livro. Em um momento de reflexão sobre a sua persona, Johanna chega numa das reflexões mais bonitas da narrativa, quando explica por que se dedica a falar daquilo que não gosta, de ser tão cruel em seus textos:

“Porque acredito que a música pop é importante demais para ser deixada para os inertes, broncos e pouco ambiciosos. Porque as pessoas ricas, poderosas, bacanas ou o tipo de caras presunçosos que integram essas andas são o tipo de gente que normalmente desprezaria uma adolescente gorda oriunda de um bairro popular, e, no único lugar em que sou mais poderosa do que eles – as páginas da D&ME –, quero minha vingança – vingança em nome de todas os milhões de garotas como eu.

[…]

Porque sou a mais fraca e mais jovem do bando de D&ME, e preciso matar para provar minha lealdade. Porque ainda estou aprendendo a caminhar e a falar, e é um milhão de vezes mais fácil ser cínica, e empunhar a espada, do que ser fraca e ficar ali, segurando um balão e um bolo de aniversário, com o infinito potencial de parecer uma idiota. Porque ainda não sei realmente o que penso e sinto, e estou jogando granadas e enchendo o ar com fumaça enquanto desesperadamente, desesperadamente tento sair do chão: me elevar. Porque eu ainda não aprendi a coisa mais simples e mais importante de todas: o mundo é difícil, e todos nós somos frágeis. Então, seja gentil.”

Johanna sabe que é fraca nesse meio, que tem que se impor de alguma forma se não quiser ser pisoteada pelo mundo, e se concentra nessa imagem que tenta construir de si mesma: ela não tem medo, ela não tem vergonha, ela é tão louca e safada e desinibida que fica acima de todos. Ela é admirável, e não vai se deixar submeter a outra pessoa. Mas ela sabe que é assim por ser fraca, por ter medo, e também sabe que não é o ideal, que uma hora esse seu cinismo vai trazer problemas.

“Pois quando o cinismo se torna a linguagem-padrão, o lúdico e a criação se revelam impossíveis. O cinismo alveja uma cultura como água sanitária, varrendo milhões de pequenas ideias em germe. O cinismo faz com que a resposta-padrão de uma pessoa seja ‘não’. O cinismo significa presumir que tudo irá acabar em desapontamento. E esta é a razão pela qual, no fim das contas, qualquer pessoa se torna cínica. Porque as pessoas têm medo de decepção. Porque têm medo de que alguém tire vantagem delas. Porque temem que sua inocência seja usada contra elas – que, quando corressem alegremente tentando abarcar o mundo inteiro com a boca, alguém tente envenená-las.”

Quando percebe que faz coisas sem realmente querer fazê-las, Johanna muda novamente. Tenta dar “reset” em Dolly Wilde, pois vê que é importante para ela fazer o que ela realmente quer fazer, não o que os outros esperam que ela faça. E, no final do livro, Caitlin Moran mostra do que, realmente, é feita duma garota. Ela é feita de suas vontades, do desejo de fazer o que será bom para ela. E somente para ela. Johanna não se arrepende do que fez, do que se transformou, das histórias que viveu, pois tudo foi feito movido pela própria vontade, feito para agradar a ela mesma. E é isso que ela seguirá fazendo.

Impossível não se apaixonar por Johanna e toda a sua jornada em Do que é feita uma garota. A narrativa é deliciosa, engraçada, todos os personagens são encantadores – além de Johanna, Krissi é um dos meus favoritos. E no final, você fica com essa sensação que Johanna passa de que o que você mais quer ser no mundo é apenas ser uma pessoa melhor. Trabalhar, batalhar, para ser alguém melhor sem machucar ninguém pelo caminho.

Encerrando com uma foto da Caitlin pois amo o estilo dela. <3

Encerrando com uma foto da Caitlin pois amo o estilo dela. <3