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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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O primeiro homem mau, de Miranda July

o-primeiro-homem-mau-capaO primeiro homem mau, novo livro – e primeiro romance – de Miranda July (tradução de Caroline Chang e Christina Baum) causa estranhamento – o que não é ruim. Cheryl é uma mulher de 43 anos obcecada por um homem com mais de 60. Vive de uma forma bem monótona, regrada, fazendo tudo para economizar tempo e esforço. Tudo para não chegar ao extremo de jantar na banheira e fazer xixi em garrafas quando está sem forças para levantar – quando a vida parece miserável demais e não há sentido em manter a casa limpa, o cotidiano em ordem e sair para trabalhar (te entendo, Cheryl).

Sua obsessão por Philipp vem da certeza de que eles, em vidas passadas, eram um casal, assim como a certeza de que há, no mundo, um menino de quem ela é a verdadeira mãe – Kubelko Bondy, uma “entidade”, acho melhor dizer, que ela percebe psiquicamente em crianças com as quais cruza na rua desde pequena, sempre dizendo “dessa vez ainda não sou sua mãe, mas nunca vou te abandonar”, e abandona. É uma rotina bem peculiar que é logo quebrada e virada mais ainda de cabeça para baixo quando Clee, filha de 20 anos de seus patrões, se hospeda em sua casa sem indicativos de sair. E é aqui que a história realmente começa.

O “homem mau” do título poderia ser Philipp, um homem patético que joga no colo de Cheryl a tarefa de “consentir” que ele tenha uma relação com uma garota de 16 anos – enquanto manda para ela mensagens descrevendo o que estão fazendo, cobrando de forma passiva-agressiva uma decisão. Mas o termo se refere à Clee, que não é “o primeiro homem mau de todos, mas o primeiro que eu conhecia que tinha cabelo loiro e usava calça de veludo rosa”. E a garota merece o apelido. Grosseira, rude e violenta, os seus primeiros meses na casa de Cheryl são um horror para ela. Clee não respeita as suas tão ordenadas regras, não fala e, quando nada poderia ser pior, ainda agride Cheryl sem motivo. É complicado tentar entender as motivações da garota por trás dessas ações, e mais difícil ainda ver a falta de imposição da mulher dentro de sua própria casa.

Até o momento em que Miranda July leva sua protagonista à ação. Impulsionada pela terapia – grandes momentos do livro, em que ela quase que analisa internamente a própria terapeuta e sua relação com outro médico com quem divide a sala –, em uma das agressões de Clee, Cheryl se revolta. E revida. E aí começa o “jogo de adultos” que vira o sentido dos dias da protagonista. Os vídeos de autodefesa feminina produzidos pela empresa onde trabalha viram roteiros para sua relação com Clee, reencenados assim que uma ou outra chegam em casa. Mas por trás desses agarrões, socos e pontapés, é possível enxergar algo maior acontecendo, uma ligação entre as duas mulheres que vai além da brincadeira de briguinha.

“’Era o que eu tinha pensado’, ela disse. ‘Metade do seu rosto é mais velho e mais feia do que a outra metade. Os poros são todos grandes, e é como se a sua pálpebra caísse dentro do olho. Eu não estou dizendo que o outro lado parece bom, mas se os dois lados fossem como o lado esquerdo, as pessoas achariam que você tem setenta anos.’

Abaixei a mão. Ninguém nunca tinha falado comigo assim, de maneira tão cruel. E ao mesmo tempo atenciosa.”

Assim como fez em seu livro de não ficção, O escolhido foi você, em O primeiro homem mau Miranda July não tem medo de colocar os pensamentos mais inusitados no papel, aqueles que temos todos os dias mas que evitamos dizer em voz alta por medo de sermos chamadas de loucas. O jeito esquisito e envolvente de Miranda contar suas histórias nos filmes, livros e em seus outros projetos está aqui nesse romance, e é bem essa a qualidade que gosto dela. Mas não posso deixar de dizer que em várias passagens senti que o livro não iria a lugar algum pelo tanto de estranhamento que sentia com a história. O que era logo remediado por Miranda.

Mesmo com a violência, a melancolia e a solidão presentes na narrativa, este é, sim, um romance sobre o amor. Um amor bem estranho, claro, pois é nisso em que deságua as simulações de luta entre Cheryl e Clee. Mas a felicidade das duas como um casal é passageira, algo que se nota assim que ela começa: Clee não é alguém que vai se contentar em ter Cheryl. Cheryl não é alguém que quer prender Clee à vida que as duas construíram durante poucos meses. A chegada de Jack, fruto de uma gravidez inesperada de Clee e um importante ponto de virada do livro, faz esse amor surgir, ser verbalizado, mas quando o menino passa a fazer parte realmente da rotina das mulheres é fácil notar que as coisas estão saindo da fantasia bonita que Cheryl pensou estar vivendo. O que permanece, apenas, é o amor que alimentou logo nas primeiras horas de vida do menino, ou melhor, que alimentou desde a sua própria infância já que ele é, claro, uma “reencarnação” de Kubelko, a criança de seus sonhos.

Ao fim do romance, é parece tênue a mudança que Cheryl passa no sentido de se impor. É quase possível ver ela entrando novamente em fantasias que não condizem em nada com a realidade, sem tomar atitudes, ações, suas próprias decisões – com mais uma dose de ódio do leitor por Phillip, um sujeito realmente intragável. Mas esse foi só um truque de Miranda para deixar o leitor ainda mais embasbacado com a história. E Cheryl, Clee e Jack terminam bem. Na medida em que as histórias de Miranda July terminam bem.