estacao-onze2Alguma coisa acontece no mundo de modo que a sociedade não é mais aquela que conhecemos. Uma catástrofe nuclear, um avanço tecnológico, uma invasão extraterrestre, a própria natureza se vingando do homem… Anos depois, podem ser centenas, podem ser milhares, essa sociedade se reorganiza, seja na própria Terra ou em outros planetas – nem sempre ela continua habitável, né. Há muitas ficções científicas assim, e vale lembrar que um velho livro conhecido da galera (vulgo Bílbia) traz um monte de ideias de como acabar com o mundo. Mas em Estação Onze (tradução de Rubens Figueiredo), o que podemos chamar de sci-fi pós-apocalíptico, a coisa acontece em um tempo mais recente e estamos observando tudo. E é isso o que me fez gostar muito do romance de Emily St. John Mandel.

É noite em Toronto, no Canadá. Jeevan Chaudhary está na plateia de uma montagem nova de Rei Lear, clássico shakespeariano, quando o ator principal, Arthur Leander, tem um ataque cardíaco fulminante. Estudando para ser paramédico após anos de carreira jornalística como paparazzi e repórter, ele logo tenta reanimar o ator, mas já é tarde. No palco, uma atriz-mirim de 8 anos, Kirsten Raymonde, vê tudo sem entender exatamente o que está acontecendo. Pouco depois da morte de Arthur, começam a aparecer na cidade as primeiras vítimas da Gripe da Georgia, até então limitada apenas à Europa, que em questão de horas mata uma multidão de pessoas. E aí o mundo como o conhecemos acaba.

Vinte anos depois do “fim”, Kirsten, que conseguiu sobreviver e faz parte de uma sinfonia itinerante que, além de fazer apresentações com sua pequena orquestra, também representa peças de Shakespeare por uma América do Norte dizimada. Sem gasolina, sem energia elétrica, sem qualquer tipo de tecnologia e combustível para movê-los, o grupo viaja em carros adaptados puxados por cavalos, oferecendo entretenimento nas cidadelas que encontram. São, basicamente, bem recebidos por todos, até encontrarem uma cidade em que está nascendo um culto religioso que pode colocá-los em perigo.

Neste “novo mundo” criado por Emily, nada é produzido. As pessoas vivem de caça, de pequenas plantações, mas algumas provisões, como roupas, produtos de limpeza e outros objetos, ainda podem ser encontrados nas casas abandonadas do “velho mundo” – assim como os cadáveres de quem não escapou da morte, seja pela gripe ou pela violência que se instaurou nos anos seguintes. Por mais que Kirsten não lembre exatamente como eram as coisas antes da gripe, pedaços de sua antiga vida permanecem em sua memória, principalmente aquela última noite de normalidade. Assim como permanece o seu interesse pelo ator morto, que ela alimenta com recortes de antigas revistas de fofoca que encontra por aí e com dois volumes de uma HQ que ele lhe deu de presente, “Estação Onze”, em que uma sociedade vive em uma estação espacial de proporções gigantescas tomada pela água. E assim Emily vai criando a trama que liga o passado (os dias de hoje) ao presente, esse futuro próximo em que nada mais é como imaginamos agora.

Esse vai e vêm no tempo pode dar a entender, no início, que a autora irá fazer apenas um breve relato das consequências da gripe no mundo, como uma explicação rasa do motivo das pessoas estarem vivendo do jeito que estão. Felizmente, ela vai muito além disso. A questão de Estação Onze é mostrar como essas personagens tão diferentes, e outras que serão apresentadas depois, estão ligadas antes e após a pandemia, e como cada uma delas escapou (ou não) dessa “limpeza” feita pela natureza. E, mais legal ainda, Emily narra como elas foram se adaptando a uma realidade de escassez e violência e como o mundo se transformou de um lugar onde todos tinham tudo e queriam mais ainda naquele em que os sobreviventes ficam felizes por encontrar uma barrinha de sabonete usada num banheiro abandonado. Em Estação Onze, você não vê só resultado do “apocalipse”. Você vê ele acontecendo.

A construção das personagens e os detalhes sobre suas vidas são bem desenvolvidos pela autora. Arthur pode ser considerado o protagonista da trama mesmo tendo morrido antes mesmo da gripe destruir a civilização. A sua história de vida – a infância em uma pequena ilha do Canadá, o início da carreira de ator em Toronto, o fenômeno cinematográfico que se tornou em Los Angeles – está detalhada na trama e é fundamental para o seu desenvolvimento. Principalmente os seus amores: o primeiro casamento com Miranda, uma garota de sua cidade-natal criadora de “Estação Onze”; o casamento com Elizabeth, com quem teve um filho que também será uma peça chave para a trama. Ele é o ponto central do livro, aquele que une uma personagem a outra. E ele é cativante, apesar de ser consumido pela fama a maior parte do tempo e ter se afastado daqueles que ama.

Mas é outra personagem que destaco como uma das melhores do livro: Miranda, a primeira esposa de Arthur. Sua história é tão importante dentro da trama quanto a dele, pois é a partir da criação dela, os quadrinhos, que certos acontecimentos vão reverberar anos após a gripe. Assim como Arthur, ela carrega uma autenticidade que conquista logo de cara, marcada pelo deslocamento que sente ao viver sob os holofotes do mundo do marido e a dedicação com o seu projeto e os desenhos que parecem nunca ter fim. E com isso Emily faz o leitor se prender a cada um desses personagens, como acontece com Clark, antigo amigo de Arthur, Kirsten e todos os seus colegas da sinfonia.

“– Não faz sentido – insistiu Elizabeth. – Quer dizer que temos que acreditar que a civilização simplesmente chegou ao fim?

– Bem – sugeriu Clark –, ela sempre foi um pouco frágil, não acha?”

Estação Onze, nesse sentido, é um livro mais sentimental que “aventuresco”. Sobreviver no novo mundo é imprescindível, claro, mas isso não é o mais importante. O que Emily destaca são as emoções que cada um carrega, as relações que foram estabelecendo em suas vidas, a maneira que lembram, com nostalgia, de como tudo era antes da gripe chegar, a forma com que se adaptaram. É um jeito bem diferente (lembrando que não sou lá uma leitora muito ávida de sci-fi) de abordar o “fim”. Não há disputa de poder, de tecnologias ou algo do tipo – até o momento em que a história chega no embate ideológico/religioso, pelo menos. Só há pessoas tentando sobreviver, juntas ou sozinhas, neste lugar ainda novo, que está aprendendo a conviver novamente como uma civilização. Um mundo que tenta manter viva a memória de como tudo era antes relembrando sua arte, as tecnologias e pequenos confortos da vida pré-gripe. E lembrando as pessoas que não chegaram até ali.

Emily não deixa pontas soltas no que diz respeito às ligações entre as personagens. Aqueles que têm suas histórias mais detalhadas no livro têm uma forte relação uma com outra, e de formas que surpreendem. No final, Emily deixa um mistério apenas em aberto, mas que, a meu ver, não precisa realmente de uma conclusão. O mundo, aqui, não importa tanto. Em Estação Onze, a jornada dessas personagens e suas visões de mundo são muito mais interessantes. E a maneira com que Emily mostra como uma noite qualquer reverbera tantos anos depois nas suas memórias, mesmo depois de tudo ter chegado ao fim.