nora-webster-2Uma mulher com mais de quarenta anos perde seu marido. Com duas filhas jovens já fora de casa, às voltas com a faculdade, e dois garotos (pré) adolescentes para cuidar, ela não tem muito dinheiro, não tem emprego, e as coisas não são exatamente fáceis para uma mulher no final dos anos 1960 na Irlanda, ainda mais uma viúva. Nora Webster, romance mais recente de Colm Tóibín – que veio para a Flip de 2015 – é a história dessa mulher. Um livro, segundo o autor, que levou anos para ser escrito e que traz ecos da história de sua própria mãe e de como ela, Tóibín e seu irmão lidaram com a perda do pai.

Nora Webster (tradução de Rubens Figueiredo) não é apenas um livro sobre o luto, embora ele esteja sempre presente. Quando começa a narrativa, seis meses após a morte de Maurice, um respeitado professor da cidade, Nora ainda está fragilizada, triste e inconformada com a perda do amor de sua vida. A toda hora ela pensa o que Maurice faria, relembra suas opiniões, conversas que tiveram sobre conhecidos da cidade, sobre suas famílias, sobre os filhos. O sofrimento dela é palpável, transmitido ao leitor pela escrita simples e tocante de Tóibín. Ele não precisa de muito para mostrar como Nora está emocionalmente desgastada, apavorada com o futuro dela e de sua família. E, ainda maior que isso, sua irritação com a maneira que passa a ser tratada por todos.

Apesar de não contar em detalhes como era a juventude e a personalidade de Nora, sabemos que ela nunca foi uma mulher “fácil” – dócil, obediente, calada, como seria a figura feminina perfeita da época. Foi uma dor de cabeça para a mãe, se destoa das duas irmãs, não se encaixava com perfeição na própria casa em que cresceu. E, justamente por ter essa personalidade forte, ela se irrita facilmente com a condescendência com que é tratada pelos vizinhos, amigos e conhecidos. Constantemente a protagonista se pega desejando não encontrar ninguém conhecido na rua, ninguém que possa lhe perguntar como estão as crianças, e as garotas crescidas, como sentiram muito a perda de Maurice, como respeitavam o falecido. Sempre os outros, os filhos, a memória do marido, o respeito e admiração que tinham por ele – respeito por ele, não por ela. Sempre parece que, quando fazem um favor a Nora, é em nome de Maurice que essas gentilezas são feitas, e não à própria mulher. Todo esse tratamento reservado a ela só torna o seu desejo de solidão ainda maior.

“No momento, o tema sobre o qual podia discutir era ela mesma. E todos, Nora sentia, já estavam fartos de ficar remoendo o passado e pensar em outras coisas. No entanto, não havia outras coisas. Só o que tinha acontecido existia. Era como se ela vivesse embaixo d’água e tivesse desistido de subir rumo ao ar da superfície. Seria demais para ela. Parecia impossível se sentir livre no mundo dos outros, era algo que ela nem mesmo desejava. Como Nora poderia explicar aquilo a alguém que tentasse entender como ela era ou a alguém que perguntasse se estava conseguindo superar o que havia acontecido?”

Quando volta a trabalhar, faz novos amigos, inicia uma relação forte com a música e o canto e parece que tudo está novamente nos eixos. Tóibín sempre mostra de forma sutil que, no seu íntimo, Nora ainda está de luto. Ainda não superou a perda. E até o final do livro, nos três anos em que a história se passa, o luto está ali, sempre presente. Por mais que Nora aos poucos vá recuperando as rédeas da vida, se impondo como a mulher que sempre foi e não deixando ter sua identidade soterrada pela maldição da pobre viúva indefesa, o amor por Maurice e a sua memória sempre retornam, mas não de uma forma opressiva. É, sim, necessário superar a perda, ao mesmo tempo que é doloroso pensar que é possível viver normalmente sem a presença física e a lembrança constante do grande amor de sua vida, do pai exemplar e carinhoso.

É tão bonita a forma como Colm Tóibín vai apresentando todos esses detalhes no romance. Temos acesso ao que Nora pensa, a todas as suas ações, mas não é como se o autor estivesse relatando de forma mecânica aquilo que se passa na vida da mulher. Nora Webster traz o cotidiano pacato de uma cidadezinha da Irlanda abalado pelas notícias dos conflitos entre protestantes e católicos na Irlanda do Norte, notícias que movimentam um pouco mais a vida de Nora e a comunidade onde vive. O texto passa a tranquilidade das férias passadas na praia, das saídas durante os dias da semana para ver o mar, dos encontros musicais que ela passa a frequentar, do cotidiano do trabalho. É uma narrativa lenta e envolvente, que quando você percebe já está completamente ligado àquele modo de vida, vendo as roupas e objetos dessa época não tão distante no tempo, mas com grandes diferenças com os dias de hoje.

Mas é Nora quem realmente encanta. Seu jeito protetor com os filhos, mas sem ser sufocante, que dá a liberdade para eles serem quem quiserem ser, fazer o que quiserem fazer – como apoia Aine em seu interesse pela política, Donal, e depois Conor, em seu amor pela fotografia. Como não os força a contarem tudo para ela, por mais que se irrite quando sua cunhada ou suas irmãs sabem mais sobre a vida deles do que a própria mãe, mesmo sentindo que eles não estão tão confortáveis para contar com a ajuda dela em algumas questões. E como ela não é uma mulher que se deixa abater apesar de toda a dor que sente. Como se sente mais livre para dizer o que pensa, para comprar o que quiser, para sair quando quiser, para escolher por si mesma com quem quer se relacionar socialmente ou não. Aos poucos, vai surgindo uma nova Nora que não existe apenas à sombra do marido, mas que tem opiniões próprias, é inteligente e faz suas escolhas.

Ao fim de Nora Webster, a sensação é de que ainda sabemos pouco sobre a protagonista. E que queremos saber ainda mais.