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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Não há lugar para a lógica em Kassel, de Enrique Vila-Matas

nao-ha-lugar-para-a-logica-em-kassel2Em 2011, Enrique Vila-Matas aceitou o convite para participar da Documenta, uma exposição de arte sediada na cidade de Kassel, na Alemanha (seria Kassel a Inhotim da Europa?). Conhecido como um evento que apresenta o que há de mais novo no mundo da arte, o rótulo vanguardista da Documenta, à princípio, não o deixa muito animado. É da arte vanguardista que seus colegas riem, pensa o escritor, são ideias “inovadoras” facilmente rejeitadas. Mas esse não é o tipo de pessoa que ele quer ser, alguém que zomba daquilo que propõe ser novo, inédito, diferente. Aceitando participar, viaja à cidade onde fica por alguns dias, mais contemplando as obras e refletindo sobre a literatura e a arte do que, de fato, sendo parte da obra – ou, pelo menos, da obra que ele deveria representar. O relato – romanceado – desse convite e de sua participação está em Não há lugar para a lógica em Kassel, recém-lançado no país com tradução de Antônio Xerxenesky. A tarefa de Vila-Matas na Documenta é sentar em um restaurante e escrever, assim como outros colegas escritores fizeram. Escrever e interagir com possíveis curiosos que venham lhe perguntar o que está escrevendo. Dar ao visitante a oportunidade de conversar com o autor sobre seu processo criativo enquanto ele está realmente criando, quem sabe. Mas a perspectiva de passar dias sentado à mesa de um restaurante chinês durante algumas horas em uma cidade alemã não lhe é muito empolgante, e logo a animação que sente ao raiar do dia vai sendo soterrada pela ansiedade de estar à espera de ninguém tendo que escrever “ao vivo”.

O que interessa a Vila-Matas não é ser uma obra dentro deste festival. Como revela logo antes da viagem, “quando aceitei, dias depois, ir a Kassel, no fundo, ainda que fosse apenas muito no fundo, esperava encontrar lá o segredo da arte contemporânea, ou talvez uma invocação à poesia de uma álgebra desconhecida, ou talvez uma porta encaixada em um arco original árabe, uma porta de um remoto passado chinês, por trás da qual a linguagem pura levaria uma vida oculta”. Assim que chega à cidade, o autor apresenta aquilo que viu e, principalmente, o que pensou sobre a experiência de estar em Kassel, vendo e sendo arte. Conforme é levado a museus e instalações pela assistente das organizadoras da Documenta, o que Vila-Matas faz é olhar para as obras estranhas que tem diante de si. Obras que, logo de início, chamam sua atenção (não de forma negativa). Depois das primeiras experiências como escritor sendo observado – em que escreveu apenas uma frase, contemplou muito o movimento do restaurante e até dormiu, em grande parte de sua estadia Vila-Matas se dedica a visitar a exposição, conhecer suas principais obras e, claro, interpretá-las. Desse jeito, sutil e inesperado, ele se encontra fascinado pelas obras, revisitando-as e adicionando algum pensamento a mais naquilo que vê. Ele fazer parte da programação pode ser considerado um mcguffin, algo que inicia o relato mas que não tem relação com o que ele realmente quer discutir no livro: a arte de vanguarda – e o livro é recheado de mcguffins.

“Talvez esse desejo de que houvesse algo a mais fosse o que nos levava a buscar o novo, a acreditar que existia algo que pudesse ainda ser distinto, não visto, especial, algo diferente ao dobrar uma esquina mais inesperada; por isso, alguns de nós passávamos a vida toda querendo ser vanguardistas, pois era a nossa forma de acreditar que no mundo, ou talvez além dele, além do pobre mundo, poderia haver algo nunca visto.”

Para a surpresa – e alegria – do escritor, a Documenta mostra, através de obras à princípio com pouco ou nada a dizer, que este “novo” ainda existe. Como o susto inicial que toma ao entrar no quarto escuro, sendo tocado por pessoas que não enxergava e ouvindo as suas vozes sem saber exatamente de onde vinham; como a brisa misteriosa que o impulsiona a andar pelo museu, sendo essa brise, apesar de invisível, também uma obra; como a música na estação de trem e a história que este lugar carrega; como o cão de patas rosadas chafurdando na lama enquanto uma colmeia de abelhas ocupa o lugar da cabeça de uma estátua. Tudo tem uma referência e o remete a outras leituras, outras formas de arte, e tudo passa a fazer parte de seu cotidiano e dominar seus pensamentos. Afinal, ele também é uma obra em Kassel, e precisa de material para trabalhar – mas esse material o autor trabalha muito mais em sua mente, em suas reflexões, do que no papel. O que Não há lugar para a lógica em Kassel mostra é um Vila-Matas diferente daquele que conheci quando li Bartleby e Companhia e Suicídios exemplares. No que os livros discorriam sobre a negação, as ideias abandonadas, a falta de vontade de fazer o que quer que fosse, neste o leitor experimenta um Vila-Matas alegre, que apesar da rabugice que o ataca ao fim da tarde e perdura até a manhã seguinte, aos poucos vai se sentindo contagiado pela Documenta. Todo o ar artístico da cidade que não parece fazer muito sentido, mas que reúne tantas ideias, o deixa certo de que o mundo, apesar de estar “perdido”, ainda tem muito a produzir de novo e belo. Como ele revela em um encontro quase desagradável com uma conhecida, “desde que havia chegado à cidade, sentia que tinha se apoderado de mim uma força invisível que me levava a achar tudo apaixonante, como se Kassel tivesse me presenteado com uma mudança de ritmo inesperada, como um súbito ímpeto suplementar que me ajudaria, no futuro, a ter otimismo maior em relação à arte e à vida, ainda que não diante do mundo que eu já considerava perdido”. Em Kassel, Vila-Matas encontra o “impulso” da busca por algo novo, descobrir o que ninguém ainda não fez ou viu. A experiência deixa o autor, apesar das reticências no início do livro, maravilhado com a arte contemporânea, crente de que o inusitado ainda pode ser alcançado por um artista do nosso tempo. Um sentimento que não abandona Vila-Matas quando ele deixa Kassel, nem o leitor ao terminar o livro.

“Porque, ao contrário do eu tantos acreditam, não se escreve para entreter, embora a literatura seja das coisas mais divertidas que existem, nem se escreve para isso que chamam de ‘contar histórias’, embora a literatura esteja cheia de relatos geniais. Não. Escreve-se para prender o leitor, para assenhorar-se dele, para seduzi-lo, para subjuga-lo, para entrar no espírito do outro e permanecer ali, para comovê-lo, para conquistá-lo.”