a-venus-das-peles“Masoquismo é uma tendência ou prática parafílica, pela qual uma pessoa busca prazer ao sentir dor ou imaginar que a sente.”

Isso é o que Wikipedia diz sobre masoquismo. Nada muito complexo, apenas isso mesmo: encontrar o prazer na dor, ou na sensação de estar sentindo dor. Ser amarrado, chicoteado, socado, cortado, quiçá xingado, humilhado e até traído. A dor pode ser física ou também mental, mas é isso o que buscam: uma submissão que só pode ser conquistada com a confiança – pois no final você sabe que é só ali, na hora do sexo, e depois tudo voltará à velha forma de antes. O termo foi inspirado no nome de Leopold von Sacher-Masoch por conta do livro A Vênus das peles, uma das primeiras narrativas em que o desejo da dor como meio de atingir o prazer sexual foi narrado na literatura, escrito em 1870 – e que, claro, causou o maior escândalo na época. O livro ganhou uma nova edição pela Hedra em 2015 com tradução de Saulo Krieger.

Severin é um jovem rico quando conhece Wanda, uma viúva tão bem financeiramente quanto ele. A inicial admiração pela beleza da mulher logo se transforma em juras de amor, juras que encontram resistência na própria mulher que, amante da própria liberdade, sabe que seu desejo por Severin não será eterno. Mas, louco de paixão, ele se entrega à sua visão da Vênus em carne e osso – e peles. Uma entrega tão grande que ele lhe revela suas predileções, que consistem em ser maltratado, amarrado e espancado, tratado como um escravo ávido por satisfazer os desejos de sua “dona”. Apesar de nunca ter praticado tais atos, Wanda aceita, com algumas objeções iniciais, ser a Vênus das peles de Severin.

Uma das primeiras coisas que me chamaram a atenção neste livro foram justamente as opiniões de Wanda sobre desejo, compromisso e como vê as relações entre homens e mulheres de forma diferente daquela praticada pela sociedade da época. “Somos fiéis enquanto vivemos, ocorre que vocês exigem das mulheres fidelidade sem amor, e entrega sem desfrute – onde está, então, a crueldade, na mulher ou no homem? O amor é para vocês, no Norte, coisa por demais importante e por demais séria. Falam de deveres onde se trata de deleite”, diz ela a Severin quando fala sobre sua “inconstância” nos relacionamentos. Wanda não quer estar presa a um homem, sabe que não o amará por tempo suficiente para querer se prender a outro matrimônio. Ela é uma mulher que conhece seus desejos e quer saciá-los, não se importa se as regras morais daquela época – e, convenhamos, ainda hoje – que vê com maus olhos a mulher que se entrega desse jeito ao sexo – sem compromisso, com vários homens, com aquilo que ela quiser no momento.

“O ideal que anseio ver realizado em vida é o da serena sensualidade, do prazer sem dor dos helenos. Pois no amor pregado pela cristandade, pelos modernos, pelo espírito da cavalaria, neste eu não acredito. Sim, olhe para mim, sou bem pior que uma herege – sou uma pagã.
(…)
Prefiro amar e viver, como viveram Helena e Aspásia. A natureza não fez duráveis as relações entre homem e mulher.
(…)
Mas o indivíduo que se coloca contra a organização da sociedade será expelido, marcado a ferro e fogo, o senhor quererá dizer. Pois bem. Ouso arriscar que meus princípios são mesmo pagãos, e quero vivenciar essa conduta. Eu renuncio ao seu respeito hipócrita – prefiro ser feliz. Os inventores do casamento cristão o fizeram bem feito, assim como os que inventaram a imortalidade. Mas eu não penso em ser eterna, e quando, com um último suspiro, aqui tudo se findar com Wanda von Dunajew, que vantagem extrairei do meu espírito, esse estado puro, se juntar a um coro de anjos ou se meu pó de novo se reunir em um novo ser? O certo é que não persistirei como sou – devo, então, renunciar em consideração a quê? Pertencer a um homem a quem não amo simplesmente porque um dia o amei? Não, eu a tanto me recuso, amo a quem me agrada, e faço felizes todos os que me amam. Feio isso? Não. É pelo menos muito mais belo do que se eu me regozijasse das tormentas provocadas pelos meus encantos e virtuosamente me desviasse do pobre que se consome por mim. Sou jovem, rica e bela, vivo serenamente para o desfrute e para o gozo.

Isso foi escrito em 1870, mas ainda hoje persiste a regra de que você tem que pertencer a alguém. Ainda choca a ideia de que você não precisa de uma pessoa para te completar e fazer feliz, a ideia de que a mulher pode procurar o prazer e a felicidade onde quiser e com quantas pessoas quiser.

Esse quase monólogo, feito logo no início do livro, tanto choca quanto encanta Severin, e reconhecendo em Wanda a mente avançada e aberta para as novidades, logo propõe ser dela seu servo. No início ela tem receio de o machucar (fisicamente), dizendo-se incapaz de cometer qualquer vilania contra um homem. Após os pedidos de Severin, Wanda vai aos poucos se transformando na tirana que ele tanto deseja, alguém que lhe faça se entregar a uma “submissão física, lenta, mas tão completa”. Partindo para Florença, começa, enfim, a relação sadomasoquista entre os protagonistas.

Wanda se mostra uma perfeita dona ao tirar de Severin tudo o que tem: os amigos, o dinheiro, as roupas e os direitos. Em contrato elaborado por ela e assinado por Severin em total acordo, ele tem que atender a tudo o que ela pedir: quando Wanda chamar, ele deverá atender prontamente, seja para fazer trabalhos para ela ou apenas ficar por perto. Sua única tarefa neste arranjo é estar sempre vestida com peles nos momentos em que infligir dor em Severin. E Wanda não poupa seu escravo: dá ordens, o maltrata física e psicologicamente, e ele a tudo atende, apaixonado como é, vivendo com o medo de que ela não o ame mais e o abandone – uma fantasia que não sabemos ao certo se ele quer realmente que aconteça, já que aprecia tanto a dor.

Apesar de ser um romance que tem o sexo como tema principal, este não é exatamente um livro erótico. As cenas em que Sacher-Masoch narra as agressões físicas não são muitas, apenas os golpes e a dor são descritos com mais detalhes. Há muito mais drama do que sensualidade em A Vênus das peles. Severin é um homem com fantasias e profundamente apaixonado, capaz de se submeter a qualquer coisa por Wanda, incapaz de abandoná-la por mais cruel que ela possa ser. Mas os momentos de sofrimento por esse amor são maiores que o prazer que ele encontra quando ela o açoita. Ok que isso faz parte de seu desejo por submissão. Ele encontra prazer nesse medo constante que tem de perdê-la, mas Severin passa muito mais tempo se lamentando que realmente desfrutando do prazer que Wanda lhe causa.

Sacher-Masoch criou uma fantasia sexual sem pudor, mas ainda é movido pelo espírito romântico, o de sofrer por amor, o de fazer juras eternas de paixão e fidelidade – da parte de Severin, claro, pois Wanda, por mais que o tenha amado por determinado tempo, sabe que ele não é o homem de sua vida e não vai se prender a ele quando o amor acabar. A Vênus das peles é, então, um livro muito mais dramático que erótico. Mas o que o livro traz, talvez, de mais importante para a época do que um retrato de um “ultrassensual” sem o tratar como uma aberração é a independência de Wanda, a força feminina que, embora no fim se submeta a um homem – mas por vontade sua, é bom ressaltar –, desfruta do que quer sem temer julgamentos sociais e morais. Não se dobra a qualquer um.