so_faltou_o_tituloUma das coisas que mais me surpreendeu depois de começar a trabalhar em uma editora é a quantidade de gente que despreza a literatura contemporânea e os autores novos. Os motivos são vários: não lidam com profundidade em seus livros com os problemas de nosso tempo; não têm o requinte dos clássicos e assassinam a nossa língua; são narrativas feitas para se agradar e agradar aos seus pares etc. Sem falar nas acusações de panelinhas, de favorecimento porque o autor recém lançado é amigo de um amigo de um amigo que conhece um editor e, por algum tipo de favor, conseguiu ser publicado. Mas nenhuma dessas acusações é mais divertida do que aquela que diz algo parecido com: “Não entendo como vocês publicam esse tipo de lixo quando tem um autor muito melhor para ser publicado: eu”. Ter confiança no trabalho e amor próprio é bom, claro, mas devemos baixar um pouco a bola da amargura quando o pobre escritor renegado pelo mercado editorial se acha absurdamente melhor que qualquer coisa que esteja nas livrarias.

Por conta disso, ri muito logo de cara de Edmundo Dornelles, protagonista do primeiro romance de Reginaldo Pujol Filho, Só faltou o título. Entre os 40 e 50 anos, idade que tem durante a história, Edmundo escreve páginas e páginas de rancor dirigidas ao mercado literário pelas constantes recusas a seus romances – tão bem escritos, elaborados, obras-primas da literatura nacional que ninguém lê porque boas histórias não vendem no Brasil e nem interessam aos “leitores”. Além de elaborar impropérios contra autores, leitores, editores e livreiros, ele também reclama da gentinha sem cultura e sem inteligência que o rodeia: a namorada, Babi, com quem passa a morar junto em 2002 e o atormenta por considerar sua escrita um “hobby”; os colegas de bar, que fica logo abaixo de seu apartamento em Porto Alegre e que frequenta assiduamente; Tatiana Fagundes, a assistente editorial da Record que lhe passa as revisões que rendem o único dinheiro que consegue ganhar; o irmão Sérgio, que continuou com o negócio do pai, sua mãe e toda a família que o vê como alguém sem sucesso na vida. Ninguém é tão inteligente, culto e importante como Edmundo, e ninguém é capaz de enxergar a sua grandeza.

Edmundo é, então, um personagem desprezível. Mas é aí que está toda a graça de Só faltou o título. Dá certo prazer ver Edmundo levar uma recusa atrás da outra, de ver suas fantasias de escritor reconhecido sendo frustradas a cada nova tentativa. Sim, eu gostei muito de ver ele apanhar, tão arrogante e medíocre ele é como pessoa. Só que o personagem de Pujol Filho não está aí apenas para reclamar da vida e das editoras e de toda a gente envolvida nisso (engraçado é pensar que o próprio autor seria vítima das críticas de Edmundo). Interrompendo esse diário rancoroso do escritor-frustrado, estão as transcrições do julgamento de um crime que, ao que tudo indica, tem Edmundo como principal suspeito.

Além de querer ser reconhecido pelo mercado editorial, o que Edmundo mais quer é ser lido. É por conta disso que ele atura dia após dia a “ignorância” dos borrachos do bar: porque eles são os únicos que ouvem atentos suas histórias inventadas na hora ou decoradas das páginas que ele mesmo escreveu. Sem que os bêbados saibam, eles alimentam a veia narrativa de Edmundo, o que causa conflito no próprio narrador, tão descontente por ter esses caras como únicos interessados em sua história, mas necessitado da atenção que eles dão. Até você notar que não são só os borrachos que estão caindo nas histórias dele, mas você também faz parte do plano de Edmundo de finalmente ser lido.

Após uma recusa seguida de uma crítica dada por Tatiana, da Record – que avaliou seu último romance como “inverossímil” –, os planos de Edmundo mudam, e sua história se encontra com a história de um crime, este em que ele é réu. Algo que vai até contra o que o próprio narrador enxerga como literatura, já que ele fala com tanta veemência que romancear a própria vida é uma trapaça. Os delírios de grandeza de Edmundo são tão intensos que ele decide sacrificar a própria liberdade pela verossimilhança para mostrar que, sim, todos vão, algum dia, ler a sua história, a sua grande criação literária. E quão surpreso você fica ao saber que também está sendo manipulado pela história que ele conta, tentando prever o desfecho, adiantando as conclusões sobre o livro – sem ter ideia do que o protagonista realmente fez.

Só faltou o título é um livro divertido por misturar o real com a ficção. Os autores, editores, jornalistas etc. que Edmundo tanto despreza são esses que vemos nas livrarias, revistas e jornais – segundo o autor, nesta entrevista, um exercício que fez para falar mal de quem ele mesmo gosta. Apesar dele ser fictício, não é difícil imaginar que em algum lugar por aí – atrás de um perfil do Twitter ou na caixa de comentários de um blog – há um projeto de Edmundo, alguém que acredite mesmo que tudo é ruim, que nada presta – podendo ter ou não razão em algum ponto –, e só o que ele mesmo faz tem valor (um valor que ninguém vê).

“Contudo, cultura nesse portentoso diário chamado Zero Hora é ignorar os bons livros, é isso, é evidente, nem uma mísera linha, no dia do lançamento preferiram falar de um show dos Engenheiros do Hawaii a comentar o meu evento, não é difícil perceber por que não apareceu ninguém, não sou judeu, não sou intelectualoide pederasta, não sou filho de ninguém, não mereço ser incensado e louvado nas suas páginas vis porque sou apenas e tão somente um escritor de talento, espirituoso, com futuro promissor (…)”