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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Assim começa o mal, de Javier Marías

assim-comeca-o-malNo início dos anos 1980, a Espanha vive seus anos de liberdade após o fim da ditadura franquista. Francisco Franco ficou no poder de 1936 até sua morte, em 1975, e o país viveu tempos obscuros durante esse período. O que aconteceu entre opositores e apoiadores de Franco nestes anos raramente era comentado logo após as primeiras eleições livres, e os espanhóis, principalmente os jovens, aproveitavam essa liberdade, enquanto os que viveram os anos de ditadura preferiam não lembrar os detalhes do que aconteceu. Mas esse silêncio é quebrado, em parte, por Juan de Vere, um jovem de 23 anos contratado pelo cineasta Eduardo Muriel para ser seu assistente.

Assim começa o mal, novo romance de Javier Marías, alterna entre a vida privada e as histórias da ditadura franquista que vêm à tona. Muriel, preocupado com os boatos que surgem sobre a índole de Jorge Van Vechten, famoso médico pediatra e seu grande amigo, incumbe De Vere de investigar se as histórias que ouviu são verdadeiras ou não, fatos tão horríveis, na avaliação do cineasta, que podem lhe custar a amizade. Conforme se aproxima da vida de seu patrão, De Vere também vai se inteirando das questões pessoais de sua família, observando a relação de Muriel com sua esposa, Beatriz Noguera, uma mulher de 40 e poucos anos que preserva a beleza de sua juventude, mas que é constantemente rechaçada pelo marido. Beatriz ainda preserva o amor que sempre sentiu por Muriel, mas ele, quando estão sozinhos, trata a esposa com grosserias e xingamentos. Com o divórcio ainda proibido na Espanha, o casal continua a viver junto, para o desgosto de Muriel e satisfação de Beatriz, que tem esperanças de reconquistar o marido.

Assim, De Vere se vê envolvido por dois mistérios: o que teria feito o dr. Van Vechten durante a ditadura e qual é a origem da amargura que envolve a relação entre seu patrão e a esposa. Já tendo praticamente a idade de Muriel enquanto faz este relato, De Vere vai escavando as memórias da juventude para narrar a maneira com que a Espanha lidava com os acontecimentos da ditadura logo após o seu fim, permeando a história com a trama de rancor que envolve um casal que não pode se separar.

O que tanto atrai na narrativa de Javier Marías é como ele consegue descrever tantos sentimentos de forma tão clara enquanto todos os acontecimentos se desenrolam. De Vere é, acima de tudo, um grande observador daquilo que acontece à sua volta, ele capta os menores movimentos e expressões e interpreta-as para o leitor. Participando ativamente da cena ou apenas espiando de longe, o narrador permeia a descrição das cenas com suas percepções, os pensamentos e interpretações que surgem no momento ou que percebe apenas mais tarde, quando traz à tona suas lembranças. Assim começa o mal, da mesma forma que Os enamoramentos (que foi o primeiro romance que li do autor) me deixou colada às personagens pela maneira que Marías trata das relações, do amor, do ódio, do rancor, do desejo, enfim, de tudo o que surge entre homens e mulheres enquanto descobrem seus segredos.

É importante comentar também sobre a maneira que De Vere fala da sociedade espanhola daqueles anos. De alguma forma, a sociedade decidiu que o que aconteceu nos anos de Franco deveria permanecer no passado. Discutir o que aconteceu ou apontar para aqueles que agiram de maneira suspeita, a favor ou não de Franco, era querer levantar uma questão mais do que delicada, como se o melhor a fazer fosse esquecer o que havia acontecido, de que lado você tinha ficado, que tipo de horrores você fez, viu ou foi obrigado a fazer.

“Os ganhadores a tinham relatado até a saciedade, a princípio, e continuaram, mas com tantas mentiras e grandiloquência, com tantas ocultações, calúnias e parcialidade, que o relato não podia satisfazê-los e, sim, esgotar-se por repetição, e a partir de certo momento o deram por sabido e aproveitaram para se aplicar em esquecer os mais tenebrosos aspectos da sua atuação, seus crimes mais supérfluos. Impor uma história já não contenta mais a longo prazo, no fim é como se só a pessoa a contasse para si mesma, e isso não tem graça: se não se vê referendada a não ser pelos correligionários e pelos acólitos e pelos temerosos servos, é como jogar xadrez sem adversário. E os que haviam perdido preferiram não recordar as atrocidades, nem as suas nem as alheias maiores – mais duradouras e mais bestiais, mais gratuitas –, menos ainda transmiti-las a seus filhos (quem vai querer contar episódios e cenas em que aparece tão mal), para quem desejavam apenas que não se passasse a mesma coisa e que tivessem a bênção de uma vida tediosa e sem sobressaltos, ainda que submissa e sem liberdade. Sem ela se pode viver, da liberdade se pode prescindir. De fato, é a primeira coisa de que os cidadãos com medo estão dispostos a prescindir. Tanto que muitas vezes exigem perdê-la, que a tirem, não tornar a vê-la nem pintada, nunca mais, e assim proclamam para quem vai tirá-la, e depois votam nele.”

Este trecho resume de certa forma esse sentimento da época: não se fala do que aconteceu, não se contesta o que as pessoas se tornaram nos anos de Franco e o que se tornaram depois. Reputações eram montadas a partir daquilo que havia ocorrido, e quem as julgava era tachado de invejoso. Logo, baixavam a cabeça e não revelavam, não desmentiam, e a vida seguia. O mistério que ronda Van Vechten diz respeito a isso, às suas ações humanitárias durante a ditadura que o transformaram num médico celebrado e admirado, por mais que sua atitude pessoal – mulherengo, vulgar – destoe tanto de sua fama. E é esse passado que De Vere tem que remexer, o que tenta fazer em suas noitadas por Madri em que arrasta o “amigo”, apesar da grande diferença de idade entre os dois.

Muriel é um personagem que representa bem essa coisa de preferir ignorar o que aconteceu. Após acontecimentos que demovem o cineasta de descobrir a verdade sobre o seu amigo médico, pedindo que De Vere desista da investigação que ele mesmo encomendou, Muriel revelar ser uma dessas pessoas que preferem não saber, por mais que os segredos lhe envolvam. “Na realidade, tudo o que se conta, tudo aquilo a que não se assiste é só rumor, por mais que seja envolto em juras de autenticidade. E não podemos passar a vida dando bola para isso, ainda menos agindo de acordo com seu vaivém. Quando a gente renuncia a isso, quando renuncia a saber o que não se pode saber, talvez então, parafraseando Shakespeare, talvez então comece o mal, mas em compensação o pior fica para trás”, justifica ele ao assistente.

Por mais que tente, inicialmente, apenas observar a vida de Muriel e Beatriz, De Vere se vê cada vez mais envolvido com a história do casal e de mero espectador vira também personagem. É a sua grande curiosidade que o leva a seguir Beatriz em suas saídas diárias para tentar descobrir o que faz, como se mantém firme apesar da amargura de Muriel, descobrir o que deixou esse casal que parecia ter sido tão apaixonado preso em uma luta doméstica de afastamento e tentativas de perdão. “Uma das normas que eu tentava seguir era esta, aproximadamente: julgar o menos possível e não me imiscuir nas vidas alheias, menos ainda intervir nelas”, diz De Vere. “Meu anseio teria sido não diferenciar nenhum vulto no oceano e não ter que decidir nada a seu respeito. Mas isso é impossível, até porque a gente também é um vulto de que os demais se afastam, ou rumam em nossa direção, ou com quem tropeçam.” Mesmo tentando ficar alheio, Muriel e Beatriz estão próximos demais dele para que ele ignore o que acontece entre o casal, ou para ele mesmo se manter afastado das ações que os envolvem, então passa a investigar – por conta própria – por que Muriel trata a esposa com tanto ódio e por que Beatriz continua amando-o apesar de tudo.

Sobre esta última dúvida de De Vere, uma conversa de Beatriz com suas amigas resolve o mistério (uma das passagens do livro que, pessoalmente, mais fizeram sentido para mim):

“A gente não apaga a memória a seu gosto e, enquanto a tem, a pessoa com quem compartilhou boas épocas continua sendo a mais próxima delas, a que as encarna. Ela é sua representação e seu testemunho, não sei se me entende, e a única capaz de trazê-las de volta, a única com possibilidade de devolvê-las a mim.”

Beatriz, após o início do tratamento frio e maldoso que Muriel lhe dá, se transforma numa mulher triste, insegura e desanimada. Mas por mais que a vivência com ele seja dolorosa, é apenas ele quem pode voltar a lhe oferecer os dias felizes que teve antes. A sua presença tanto machuca quanto lhe dá esperança. Vê-lo e tê-lo por perto é poder se lembrar de como era a vida quando tudo estava bem, e essa é uma coisa que ela não quer abrir mão tão facilmente. Viver sem ele não é uma possibilidade para Beatriz. Mesmo que os momentos de alegria ao lado dele sejam cada vez mais raros, é o mais próximo que ela pode chegar daquilo que tanto quer.

Assim começa o mal é, perdão pelo clichê, um livro que não gostaria de largar por nada. A curiosidade que move De Vere toma conta totalmente do leitor, descobrir aquilo que envolve a vida privada e pública das personagens se torna uma prioridade. As personagens não podem ser divididas entre boas ou más, todas são culpadas ou vítimas de alguma coisa, até o próprio narrador, que termina o livro ele mesmo com um grande segredo que apenas nós, os leitores, conhecemos. É sempre bom ler um romance que oferece uma ótima história e um pouquinho de conforto – ou de compreensão, não sei – por estar de certa forma ligado ao que você também sente, por mais que a ficção esteja afastada do leitor tanto em local quanto em tempo. Mas os sentimentos, eles são universais, e estão bem representados aqui.

“‘Thus bad begins and worse remains behing’, é o que diz Shakespeare em sua língua. Só depois de assentir e dar de ombros, na verdade o pior fica para trás porque pelo menos já é passado. E assim começa somente o mal, que é o que ainda não chegou.”