cyberstorm

Tensão política, uma tempestade de neve e um ataque cibernético: uma das maiores cidades do mundo, Nova York, é derrubada e seus moradores se encontram em desespero. A comunicação começa a falhar, comida e mantimentos não chegam mais à cidade, e ainda há o boato de que muitas pessoas estão morrendo de gripe aviária, o que não pode ser confirmado nem desmentido. Às vésperas de um ano novo de frio rigoroso, todos estão presos na cidade e sem contato com o mundo, sem luz elétrica e sem água. Em Cyberstorm (tradução de Carolina Caires Coelho), Matthew Mather cria um cenário apocalíptico com esses ingredientes, e mostra como a paranoia e a falta de informação pode complicar ainda mais a sobrevivência quando o mecanismo de uma cidade começa a falhar.

Essa história é contada pelo ponto de vista de Mike, um homem de uns 30 e poucos anos que trabalha com internet e vive uma pequena crise em seu casamento: com um filho de dois anos, ele e sua mulher, filha de uma família tradicional e rica, estão se afastando aos poucos quando ela cogita voltar para a carreira de advogada. A proximidade com um vizinho que pouco o agrada levanta suspeitas de traição, que logo são eclipsadas quando Nova York começa a enfrentar o ataque cibernético. Com ajuda de Chuck, amigo e vizinho paranoico que mantém um abrigo e estoque de mantimentos em caso de ataques ou desastres, eles montam no prédio em que vivem um acampamento, ajudando mais pessoas que moram no seu andar e mantendo a mínima ordem. Algo que logo começa a chamar a atenção de gente de fora que, claro, não estão preparadas para enfrentar a neve, a fome e a falta das coisas básicas para a sobrevivência.

Enquanto narra como os moradores conseguem se virar para se mantarem aquecidos, alimentados e limpos, Mather também faz seus personagens debaterem sobre o que poderia estar causando esse caos em Nova York. O país poderia estar sob o ataque de chineses ou dos iranianos, que seriam responsáveis pelo vírus que derrubou todos os meios de comunicação e a internet, obrigando que todos os servidores fossem desligados e reiniciados. Sem conseguirem informações concretas sobre o que está acontecendo, mesmo através dos canais de notícias que também não têm como verificar  a veracidade dos boatos, as teorias conspiratórias proliferam. O silêncio do governo norte-americano também não contribui para este cenário, enviando apenas mensagens genéricas para que todos se mantenham aquecidos e dentro de casa. Matthew Mather consegue passar bem essa sensação de desconfiança e desespero que toma o grupo de Mike, pois conforme as coisas pioram, mais violentas e individualistas ficam as pessoas à sua volta. Até chegar ao ponto em que conseguir um pacote de comida pode colocar sua própria vida em risco.

Mather mostra em Cyberstorm que uma das coisas mais difíceis nesse apocalipse tecnológico, fora conseguir sobreviver sem água, luz elétrica e um estoque mínimo de alimentos, é se acostumar a não ter mais as mordomias que existiam antes. Sem água encanada quentinha, sem internet, sem tele-entrega, correios, televisão, sem tudo aquilo que facilita as nossas vidas e permite que façamos muitas coisas sem esforço. E como Mather escreve, o mundo está informatizado de uma forma tão interligada e com tecnologia tão complexa que o problema em uma ponta afeta a outra, e não há recursos para retornar a uma tecnologia anterior que suprisse a falta daquilo que antes usávamos – pois tudo é atualizado e substituído conforme a tecnologia avança. É como ter que começar tudo do zero, o que não é muito animador para os moradores de Nova York, acostumados com tudo funcionando tão perfeitamente.

“A tecnologia não podia regredir, mas os seres humanos sim, e com uma facilidade e rapidez surpreendentes quanto os vestígios do mundo moderno desapareciam. O animal tribal sempre esteve ali, escondido por baixo da superfície da nossa existência, dos cafés, dos telefones celulares e da TV a cabo.”

Sobreviver nessa cidade isolada que não funciona mais fica ainda mais difícil quando o desespero começa a tomar conta de seus moradores. As pessoas começam a ficar violentas, brigam por um pacote de salgadinhos, roubam e matam por um gerador de energia, e nada disso ajuda na hora de tentar manter a ordem. Os próprios “mocinhos” da história têm que usar a força física em vários momentos para proteger o seu grupo. Felizmente, o conhecimento de alguns contribui para a sobrevivência de muitos, quando um deles cria uma rede básica de mensagens por celular, em que as pessoas se empenham para passar informações que possam contribuir para sua segurança. Mas isso não diminui a desconfiança de que o seu vizinho pode estar tramando com outras pessoas para roubar os seus últimos mantimentos, e sem informações concretas sobre o que está acontecendo, quem são os culpados, e sem previsão de restabelecimento da energia, da distribuição de água e da internet, as teorias surgem e qualquer um pode ser o inimigo. A violência se alastra não só pela falta de vigilância, mas também pelo medo.

Foram 63 dias em que Mike, sua família e amigos viveram de forma tão diferente, e muito mudou nele e nas outras pessoas durante esse período. Vidas se perderam, máscaras caíram, todos fizeram coisas que nunca imaginariam que teriam que fazer, levando eles a nem se reconhecerem mais. Parece pouco tempo, mas Mather mostrou bem como o desespero e a falta de informação fez todos esses dias durarem como se fossem anos, a pensarem que nada voltará a ser como era, tão intenso e difícil foi cada segundo em que a civilização parecia desmoronar por causa de uma sucessão de erros e da falta de colaboração da meteorologia. Como o próprio autor escreveu em uma carta para os leitores, Cyberstorm quer mostrar como mesmo o lugar mais desenvolvido e tecnológico do mundo pode sucumbir a um simples ataque a lugares estratégicos e a uma sucessão de eventos a que ninguém está preparado.