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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Gigantes, de Pedro Henrique Neschling

gigantesJá devo ter comentado em algum texto, acredito, sobre aquilo que eu pensava que gostaria de ser quando adulta. Aos 15 anos, decidi estudar jornalismo, sonhando, sei lá, ser uma correspondente internacional, fazer grandes matérias, escrever sobre aquilo que eu acreditava ser importante e fazer diferença para o mundo. Aos 17, indo para a faculdade, estava empolgada com as aulas, ansiosa para começar a trabalhar feito uma louca em algum jornal, crente de que iria aguentar o tranco. Também estava feliz em um relacionamento que indicava durar para sempre, imaginando um futuro em que dividiria um espaço só meu com alguém que amava. Não preciso nem dizer que tudo saiu bem diferente do planejado. Não só deixei o sonho de ser uma grande jornalista de lado como estou em outra cidade, dividindo um apartamento com uma amiga, sem nenhum sinal de relacionamento ou amor no horizonte. E estou bem satisfeita com isso, ou pelo menos com parte disso.

Não sou só eu que não seguiu os planos da adolescência. Na verdade, para muitos deve ser assim – quando jovens, somos cheios de sonhos e expectativas com a vida que teremos pela frente, e, bem, geralmente estamos com a cabeça bem longe da realidade. Essa introdução toda é só para mostrar como o enredo de Gigantes, primeiro romance de Pedro Henrique Neschling, está tão próximo da realidade do jovem-adulto de hoje, que tem acesso a tantas informações, possibilidade de se conectar com tantas pessoas e lugares, que tudo parece fácil e possível, até descobrirmos que não é. Da mesma forma que eu fiz escolhas que nunca imaginei que faria, Fernando, Duda, Camila, Zidane e Lipe não se tornaram aquilo que desejavam ser.

O livro começa com a festa de formatura dos cinco amigos, quando todos estavam cheios de planos e aquele sentimento de liberdade que o fim da escola traz. Agora eles poderiam ser tudo o que queriam, realizar grandes coisas, fazer as próprias escolhas. Duda, após sua primeira desilusão amorosa – a traição de Fernando com Camila –, sai do país para estudar e se manter distante das lembranças do relacionamento que não deu certo. Camila, sempre tão livre e decidida a fazer o que lhe der na telha, engata um relacionamento com um homem mais velho e que tem uma filha. Fernando sonha em escrever e dirigir uma grande obra cinematográfica. Lipe está empenhando em conhecer pessoas e lugares que lhe aceitem – já que o pai não aprovaria a sua sexualidade. E Zidane segue com as mesmas ambições da adolescência: ter sucesso com sua banda de escola. Mas tudo o que desejam será bem, bem diferente, e os planos vão mudar por vezes seguidas.

Ao mesmo tempo em que estão eufóricos com essa nova realidade da vida adulta, também há aquela ansiedade do que virá pela frente, a impaciência de quem quer alcançar tudo o mais rápido possível. E conforme o tempo passa, os amigos amadurecem e a vida impõe decisões que mudam por um tempo, ou para sempre, o que eles seriam, e mostra que sonhar não é o bastante para se chegar aonde quer. Em capítulos curtos que pulam de ano em ano, Neschling vai mostrando como os cinco lidam com essa coisa inevitável que é aceitar que os planos que você tinha não serão postos em prática, que as coisas não acontecem só porque você as deseja, e que, também, você não viverá para sempre e sua jornada pode terminar mais cedo do que você esperava.

“Todo garoto sonha em ser gigante, pensava, mas poucos conseguem triunfar, e não tinha mais tanta certeza que ele possuía capacidade de se tornar tão grande quanto suas ambições. Talvez fosse mesmo só um peso-médio e, o quanto antes tomasse consciência disso, tudo ficaria mais fácil. Talvez.”

Gigantes não é um livro que traz muitos detalhes sobre a vida de cada personagem, mas essa também não é sua proposta. Neschling não especifica claramente nos capítulos a passagem do tempo, mas a transição entre um período ou outro é bem conduzida através das referências a eventos, músicas, filmes etc. Com isso, o leitor consegue perceber em que momento o livro está, quanto tempo se passou entre uma cena e outra. E essas referências despertam aquela nostalgia dos anos em que, avaliando agora, a vida parecia ser mais fácil e feliz. Tudo é narrado de forma bem direta, muitas vezes não vemos as mudanças acontecendo, mas depois delas já terem tomado existência e sabemos que consequências elas trouxeram na vida de cada personagem. Mas o que é relevante para notar essas mudanças e levar as personagens adiante está lá.

Não é fácil para eles admitirem que não são os donos de si mesmos quando se trata do futuro. Ou que não são assim tão especiais para o mundo que tudo vai se realizar num estalar de dedos. Ou que algumas coisas simplesmente estão fora de seu alcance e que terão de se conformar com isso. Mas esse não é também um livro melancólico em que todas as personagens estão insatisfeitas com a vida. Sim, elas se ferram, choram, cometem erros, perdem coisas e pessoas importantes, tem que recomeçar tudo de novo por vezes seguidas, só que elas também aprendem a traçar novos objetivos e a gostar daquilo que lhes aconteceu.

Considero que o mais importante nessa história é que o leitor que está passando por essa mesma fase da vida vê suas inseguranças e dúvidas refletidas nas personagens. Que é normal ainda se sentir imaturo, incompleto, perdido quando se tem 23, 25, 27 ou 30 anos de idade. Não é como se, ao chegar a um certo ponto, ficaremos automaticamente com a vida ajeitada, com a sabedoria de um ancião, tendo casa, carro, filhos ou seja lá o que pensamos dever ter para nos sentirmos totalmente realizados. Depois de passar pelos 20 anos, ainda somos como adolescentes assustados e ansiosos com o futuro e a imensidão de coisas que ainda vão acontecer.