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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Estação Atocha, de Ben Lerner

estacao-atochaAdam Gordon é norte-americano, tem 20 e poucos anos, é poeta e está vivendo em Madri. Ganhou uma bolsa prestigiosa para viver um tempo na capital espanhola para escrever. Mas no lugar de alegria, orgulho ou contentamento ( qualquer sentimento mais eufórico sobre ser um jovem poeta promissor), ele sente bem o contrário. A rotina é medida pelos momentos em que toma seus remédios para controlar a depressão e ansiedade. Mais fuma e passeia do que escreve. Enfim, Adam não se sente digno da bolsa, de ser chamado de poeta, não vê exatamente genialidade naquilo que escreve e pensa que a bolsa seria bem mais aproveitada por outro estudante que soubesse falar espanhol melhor que ele. Ele se considera uma farsa, e para disfarçar o iminente fracasso que vai desmascará-lo a qualquer hora, inventa algumas mentiras aqui e ali só para parecer mais interessante.

Protagonista e narrador de Estação Atocha, de Ben Lerner (tradução de Gianluca Giurlando), Adam pode parecer um personagem intragável, mas não é. Ele é só mais um jovem inseguro que se compara demais com os outros, pensando que não merece nada daquilo de bom que lhe acontece. Estação Atocha acompanha esses meses de bolsa, suas tentativas de interagir com a comunidade artística de Madri, com as mulheres que encontra, com sua compreensão afetada pelo seu espanhol ruim (ruim, pelo menos, em sua auto-avaliação), com sua batalha interna de lidar com as próprias mentiras que dão início a uma culpa instantânea. Ben Lerner acompanha os vaivéns de um poeta sem muita confiança em si mesmo.

O nome do romance vem, claro, da Estação Atocha, um dos alvos dos atentados terroristas de 11 de março de 2004, que explodiram mais de 10 bombas em trens que estavam na estação ou se aproximavam dela, além de outras localidades. Os atendados deixaram mais de 190 mortos e levantaram uma onda de protestos pelo país. Depois de uma noite de despedida de Isabel, um de seus romances na cidade, Adam é tragado pela onda de indignação e desespero do povo espanhol por conta do episódio de terror. Acompanhando seus amigos Artur e Teresa – ela também um interesse romântico do jovem –, Adam entra no meio dos protestos e das discussões e vivencia a demonstração de patriotismo num momento de fragilidade. Claro que os amigos solicitam sua visão artística-política do evento, sendo ele um americano que há pouco tempo passou por eventos similares em seu país – os ataques de 11 de setembro. Mas Adam é quase que arrastado a contragosto pela multidão a esses protestos, como se não estivesse neles por conta própria por não ter realmente o que dizer ou fazer pelas pessoas nesse momento. A sensação é como a de um sonho, em que as coisas vão acontecendo sucessivamente sem muita lógica. E no meio disso ele escreve, cria os poemas sobre a situação do país, poemas que pouco leva em consideração.

O que Adam narra tem sempre uma carga de dúvida quanto ao que realmente está acontecendo, com ele tentando interpretar aquilo que ouviu ou acha que ouviu, já que considera ter dificuldades em compreender o que estão lhe dizendo em espanhol. Quando se sente ainda menos confiante e não quer ser mal interpretado, volta ao inglês para se expressar, já que toda hora pensa gerar mal-entendidos pela falta de familiaridade com a língua.

“‘Cheguei nesse país’, comecei, ‘e ninguém me conhecia. Então pensei: você pode ser para essas pessoas qualquer coisa que quiser. Você pode contar que é rico ou pobre. Pode falar que vem de qualquer lugar do mundo, que trabalha em qualquer coisa. Inicialmente me sentia muito livre, como se minha vida antiga não fosse mais real’. Isabel estava tentando se convencer de que realmente eu tinha confessado minha mentira para Rufina. ‘E me sentia feliz por estar longe do meu pai’, acrescentei, para tornar tudo mais plausível, insinuando que meu pai, o homem mais gentil do mundo, fosse uma espécie de tirano.”

Por sempre me identificar com esse negócio de se considerar uma fraude, a tal Síndrome do Impostor, não foi difícil entender esse modo de agir de Adam. É aquela coisa de achar que tudo o que você faz é ruim, ou que você atingiu algo por causa de uma trapaça, um macete ou por mera sorte. Porque as coisas parecem fáceis demais por um lado, mas aquelas que são difíceis você logo desiste de tentar conquistar porque acha que não tem talento ou recursos para isso, logo também não tem mérito algum pelo que conquista. A falta de confiança no próprio potencial faz Adam viver se autoboicotando.

“Eu era um mentiroso compulsivo, violento e bipolar. Era um autêntico americano.”

Adam é sim um mentiroso compulsivo. Mente para gerar simpatia, chamar a atenção, e está ciente disso. É por ter essa consciência que ele chega a se arrepender quase que instantaneamente das mentiras que cria – como ligar para os pais pedindo desculpas por ter dito a pessoas que eles nem conhecem que sua mãe estava morta ou com uma doença grave, e para o pai por ter se referido a ele como um fascista violento. Ele não chega a ser um cara desprezível por isso, bem o contrário. Esse embate entre ser legal e ser correto o transforma em alguém preocupado com a impressão que passa, não querendo parecer canalha e escroto, mas sincero e bacana – embora pareça se embabacar um pouco quando tenta corrigir suas mentiras. Ele é um cara cheio de falhas com pouca confiança, mas isso não o transforma em uma pessoa intragável.

“Era estranho surpreender-me defendendo minha poesia, comparando as possibilidades que as duas opções me ofereciam em relação à minha escrita, como se fosse moralmente obrigado a fazê-lo pela minha genialidade, genialidade que eu sabia não ter, não há nada de duende aqui, pensava comigo mesmo tocando meu corpo à procura de sensações, nada de cante jondo.

Depois da tensão que Adam sente ao ter que se apresentar em público, dando sua visão de americano sobre a literatura espanhola e o momento social e político que o país vive, o lançamento do seu livreto de poemas, parte final de seu projeto da bolsa, surge como a confirmação que ele precisava para enxergar o próprio talento. Para lhe mostrar que ele não é uma mentira ambulante, que as pessoas enxergam nele aquilo que ele pensava fingir ser. Nesse momento de Estação Atocha, Adam supera a falta de consideração consigo mesmo, entende que é só um rapaz novo que tem muito o que aprender e ver ainda, muita bagagem a recolher para as outras coisas que vai vir a escrever. E estar em Madri, naquele momento e com aquelas pessoas, é a melhor coisa que poderia lhe acontecer.