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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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O mundo em chamas, de Siri Hustvedt

o-mundo-em-chamasÉ meio incrível pensar que, ainda em 2016, precisamos falar tanto sobre mais espaço para as mulheres. Mais espaço na política, nos negócios, na literatura… É incrível porque é (ou deveria ser) óbvio que mulheres são tão capazes de fazer alguma coisa e terem sucesso nela quanto um homem. Porque é óbvio que elas deveriam receber igual reconhecimento – público e monetário. Porque é óbvio que ser mulher não significa ser fraca, incapaz, ou qualquer outro adjetivo que antigamente davam à gente para justificar menor participação na sociedade. Mas parece que é difícil aceitar essa obviedade. Ou talvez nem nos damos conta de quão óbvio é. E aí as mulheres têm que, toda vez, não só tentar se sair bem num mundo masculino, mas provar que essa falta de reconhecimento existe.

Provar a existência do apagamento da mulher é o objetivo de Harriet Burden, artista com mais de 60 anos que vive em Nova York e protagonista de O mundo em chamas, de Siri Hustvedt (tradução de Ana Ban). Durante anos casada com um famoso marchand e mãe de dois filhos, o mundo artístico sempre foi o seu lugar. O problema é que esse mesmo mundo a ignora. Suas exposições não recebem atenção da imprensa, da crítica e do público. Jovens recém-saídos da faculdade de artes se saem muito melhor do que ela, que está há anos na estrada. É mais conhecida por ser esposa de Felix Lord do que por suas obras, que quase nada venderam. Até ela vir com uma ideia: expor sua arte usando “máscaras”, artistas homens que se apresentariam como autores das peças expostas para provar como a recepção à obra mudava quando se sabia que havia um “pau” por trás dela.

Em O mundo em chamas, Siri Hustvedt cria diversos narradores para contar esse projeto ambicioso de Harry. Os filhos, Maisie e Ethan, a melhor amiga Rachel Briefman, uma das suas máscaras, Phineas Q. Eldrige, o desprezível crítico Oswald Case, uma assistente maluquete, Sweet Autumn Pinkey, o último companheiro, Bruno Kleinfeld, artistas e críticos e pessoas que de alguma forma tinham algo a dizer sobre a arte de Harriet depois de sua morte. E, claro, a própria Harry, que deixou seu relato sobre a experiência em cadernos que serviam tanto como anotações sobre seus estudos em filosofia e psicologia quanto diários. Unindo esses relatos, a pesquisadora (I. V. Hess) quer entender a motivação de Harriet em realizar esse projeto, mostrar a recepção dada pelo mundo artístico quando é revelado que foi ela, e não Anton Tish, Phineas ou Rune, a verdadeira autora das exposições tão bem recebidas, e mostrar quem era a pessoa por trás disso tudo.

“Aliás, ela estava determinadíssima a entender a psicologia da crença e do delírio, que, sejamos francos, é exatamente a mesma coisa. Como é que ideias mirabolantes, até impossíveis, tomam conta de populações inteiras?  O mundo da arte era o laboratório de Harry – o seu microcosmo de interação humana – em que burburinho e boatos literalmente alteram a aparência de pinturas e esculturas.”

Siri entrega logo no início do romance alguns desfechos dessa história: Felix está morto. Harriet está morta, Anton Tish, o primeiro artista, se retirou do mundo da arte. Com Rune, a última das três máscaras, as coisas não se saíram bem, e há quem duvide que Harry tenha sido a mente por trás de todos esses trabalhos. Aos poucos, com o relato de cada pessoa envolvida, o leitor vai juntando as peças até formar o drama completo dessa mulher. O que interessa não é saber o que aconteceu, mas sim conhecer Harriet – o livro é um grande perfil sendo construído.

Harriet é uma personagem complexa, que desde pequena sentia não ser aquilo que esperavam que ela fosse. “Eu queria voar, sabe”, conta ela, “e soltar fogo pela boca. Esses eram os meus desejos mais sagrados, mas eram proibidos, ou eu sentia que eram proibidos. Demorei muito, muito tempo para me dar permissão para voar e soltar fogo pela boca”. Harriet sempre teve essa noção de que o que ela queria ser não era condizente com o que o mundo esperava dela – o mundo que espera delicadeza e condescendência de uma mulher, e ela já extrapolava essa expectativa no próprio corpo (alto e grande). Ela não desejava ser homem, mas ela sabia que tudo seria mais fácil, que encontraria menos barreiras se fosse. Como uma das personagens conta, “Harry às vezes desejava ser menino, e posso dizer que, se fosse, o seu caminho teria sido mais fácil. Brilhantismo desajeitado num menino é mais fácil de categorizar e não representa nenhuma ameaça sexual”.

Ao falar de Harriet através de seus cadernos, Siri Hustvedt recheia páginas com suas referências a autores da literatura e psicologia que falam sobre percepção e memória, com mulheres que também se viram no mesmo lugar que a artista, ignoradas durante anos até serem resgatadas e devidamente creditadas por algum pesquisador, por histórias e pesquisas que apontam que mulheres são levadas “menos a sério” do que os homens em vários assuntos – na literatura, na ciência, nas empresas etc. Harriet tem toda a sua energia voltada para esse projeto. Mas claro que nem tudo dá certo, e com sua última máscara, um artista que já coleciona certa fama, seu plano desmorona – pelo menos em parte.

Cada personagem tem sua voz, seu jeito de narrar a história. E cada personagem adiciona um ingrediente a mais na personalidade de Harriet. A mãe carinhosa preocupada com os filhos, que inventava histórias para dormir que agradassem aos dois ao mesmo tempo. A esposa que organizava boas recepções, a amiga com quem tinham extensas conversas sobre o comportamento humano, a mulher do marchand que em alguns momentos era rude, a artista genial, a amante carinhosa e alegre, a mulher histérica e carente por atenção. Harriet pode ser tudo isso, enquanto outras coisas podem ser meras caricaturas dela, mas ela não é uma pessoa perfeita, sem defeitos, uma heroína em busca da virtude e do reconhecimento para todas as mulheres do mundo. Nem ela escapa de dar tratamento diferenciado aos homens, como mostra o momento em que Maisie, sua primogênita, diz ter se sentido deixada de lado pela mãe quando ela voltava sua atenção para o sensível irmão mais novo. Mas uma coisa que não se pode negar é que ela era uma mulher de grande inteligência e muitos não enxergavam isso – ou consideravam essa qualidade irritante. E quando havia reconhecimento, “Harry também espantava as pessoas. Ela sabia demais, ela lia demais, era alta demais, detestava quase tudo que era escrito a respeito de arte e corrigia o erro das pessoas”. E as pessoas tendem a não gostar de mulheres que sabem demais.

Em um ensaio em que fala sobre gênero na literatura (usando Karl Ove Knausgård como objeto), Siri conta sobre como certas pessoas a tratam com menos crédito por acharem que seu marido, o escritor Paul Auster, é quem incentiva ou aprimora sua escrita. As partes narradas por homens no livro foram escritas por ele? Foi ele quem lhe despertou o interesse pela psicologia? Tudo como se fosse o homem o responsável pelo sucesso da mulher, como se tivesse que “ter um pau” por trás de cada livro bem-sucedido. E tem muito disso em O mundo em chamas: as pessoas duvidam que Harriet seja capaz de realizar coisas geniais por ela ser mulher. As pessoas creditam coisas que ela disse ao seu marido, porque o cara famoso é ele. As pessoas enxergam seu trabalho como sentimental demais, histérico, exagerado, porque é só mais uma mulher colocando pra fora seus sentimentos conflitantes em forma de arte – enquanto que, quando um homem faz a mesmíssima coisa, é visto como corajoso, vanguardista, diferente (de forma sempre positiva). “‘Com as mulheres’, Harry dizia, ‘tudo é sempre pessoal, amor e sujeira, com quem elas transam’”. Não seria spoiler dizer que sim, o projeto de Harry mostrou que tudo isso aconteceu quando sua produção foi apresentada como sendo de autoria de três homens diferentes. Mas mais do que comprovar, de forma não tão científica, que sua percepção tem fundamento, O mundo em chamas apresenta uma personagem complexa que têm vários perfis, várias outras pessoas dentro dela, e que a arte tinha, para ela, uma importância maior do que qualquer outra coisa.

Num dos trechos narrados por Rachel é bem visível o desespero de Harriet por não ser reconhecida. Por ter sempre se reprimido para ser a boa filha, a boa mãe, a boa esposa, o que não a ajudava em nada na carreira de boa artista porque ela não impunha suas palavras, seus pensamentos, suas criações, para evitar conflito. A angústia por ter sido ignorada vai aumentando gradativamente, assim como a sensação de não ter conquistado nada.

O último capítulo pode parecer sentimentalmente apelativo. Mas foi lindo. Não pude deixar de me emocionar com os últimos parágrafos, que mostram o quanto Harriet trabalhou, o quanto dela mesma, de sua energia, ela colocou em cada peça que estava em seu estúdio. Se o projeto das máscaras pudesse parecer um exagero egocêntrico de uma artista arruinada, essa percepção se desfaz nas últimas linhas. Ela tinha inteligência, talento e capacidade de ser a grande artista que era. Mas o mundo, até aquele momento, havia escolhido ignorá-la. Siri Hustvedt criou uma artista séria, comprometida com sua arte, tão envolvida com ela que se deixou esmagar pelo próprio projeto ambicioso de mostrar como o sexismo atua no mundo artístico.

“Desconfio que, se eu tivesse vindo em outro pacote, o meu trabalho poderia ter sido abraçado, ou pelo menos abordado com mais seriedade. […] Talvez ser ignorada seja pior – aquele olhar de tédio nos olhos da outra pessoa, aquela garantia de que nada vindo de mim pode suscitar qualquer possível interesse.”