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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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O último samurai, de Helen DeWitt

o-ultimo-samuraiSibylla foi ainda jovem para a Inglaterra. Inventou suas próprias habilidades para conseguir estudar em outro continente, não que ela não soubesse de nada, apenas porque não precisava que nenhuma autoridade atestasse o que ela sabe. Sibylla é uma jovem peculiar de uma família peculiar. Filha de uma mulher com talento para música, mas não talento suficiente para viver dela e se tornar a pianista que sonhava – assim como aconteceu com todos os seus tios. O pai, ateu, se desviou de um futuro brilhante nas ciências exatas para satisfazer a vontade de seu pai, um pastor, de pelo menos dar uma chance à religião. Duas pessoas que foram levadas a não fazer aquilo que queriam e nunca mais conseguiram voltar, que construíram juntos uma rede de motéis e cuja vida se resumia a isso – encontrar o próximo lugar à beira da estrada que poderia abrigar mais um empreendimento de sucesso. Sibylla quis sair dessa vida, e conseguiu.

Voltar para os Estados Unidos seria um fracasso pessoal para Sibylla. Com ajuda de uma amiga, consegue um visto de trabalho na Inglaterra, arruma emprego em uma editora, conhece um escritor famosinho em uma festa com quem passa apenas uma noite, e dessa noite nasce Ludo (ou David, ou Steven ou Stephen). Agora, cuidando de um garoto brilhante de quatro anos de idade, ela ganha a vida como digitadora de revistas cujos temas são os mais absurdos possíveis, e cuida sozinha da educação do filho. Uma criança tão peculiar quanto toda a sua família.

O último samurai*, de Helen DeWitt (tradução de Vera Ribeiro), é um livro com personagens que não esperamos encontrar por aí. Apesar de ser filho de um famoso escritor que com certeza poderia auxiliar em sua educação, Sibylla não procura sua ajuda, nem menciona que a criança existe – na verdade, ela nunca mais chega a encontrá-lo. Para ela, a figura masculina que Ludo precisa para o seu desenvolvimento pode ser substituída pelo filme Os sete samurais, de Akira Kurosawa, filme que os dois assistem diariamente até o decorar do começo ao fim. São dois autodidatas, Ludo e Sibylla, e toda a educação do garoto é feita pela mãe – que até tentou colocá-lo numa escola para ele ter contato com as crianças de sua idade e aprender a ser sociável, mas o garoto não aguentou as poucas semanas, entediado com a baixa capacidade intelectual dos coleguinhas. A saída para lhe fazer conviver com crianças da sua idade é matriculá-lo na escolinha de judô, o que ele acaba aceitando. Lendo isso, você pode pensar que os dois personagens são detestáveis – e há quem ache isso mesmo –, mas todo esse isolamento social de mãe e filho e seu raciocínio pouco usual só me fizeram gostar deles.

Na primeira parte do livro, Helen DeWitt usa Sibylla como narradora. A mãe que trata seu filho praticamente como um adulto, mas que tem aquela preocupação de que ele se torne tão estranho ao mundo que não conseguirá sobreviver a ele. Ela se pergunta se é saudável um garoto de quatro anos aprender grego, japonês, ler a Ilíada e a Odisséia, conhecer os filósofos, ler As mil e uma noites, estudar física e matemática como se fosse um universitário. Mas qualquer dúvida que ela tenha sobre os caminhos de sua educação se desfazem quando Ludo insiste para que ela lhe ensine tudo o que sabe. Ela não é, de forma alguma, uma mãe rígida e competitiva que quer que seu filho seja o mais inteligente de todos. Ela se deixa levar pela própria sede de conhecimento do guri. Ele quer aprender japonês? Ótimo, mas vai ter que ler isso, isso e aquilo até estar preparado para o desafio – e ela mesma ter tempo de se preparar para a tarefa.

Mãe e filho passam os dias andando pela linha circular do trem para escaparem do frio de sua casa. Ela carrega em seu carrinho o filho e seus livros, e nesses trajetos os dois chamam a atenção das outras pessoas pelo tamanho do garoto e o tamanho dos livros que ele carrega. Esses momentos geram diálogos divertidos entre Sibylla e esses outros passageiros, muitos duvidando da capacidade de leitura do guri, outros admirados, mas preocupados com que tipo de relação ele terá com outras pessoas, outros repreendendo Sibylla por exigir tanto de um menino tão novo. Por mais que ela soe rude e grosseira em algumas respostas, não dá para ler esses trechos sem pensar que ela reage com sinceridade: o que essas pessoas estranhas que nunca mais vão os ver na vida têm a ver com a educação do menino? Que cada um cuide de sua própria vida, assim como ela vai cuidando da dela sem se meter na de mais ninguém.

“Certa vez li em algum lugar que Sean Connery abandonou a escola aos 13 anos de idade e tempos depois leu Proust e Finnegans Wake e fico esperando encontrar no trem um entusiástico desertor da escola, aquele tipo de pessoa que só lê alguma coisa por ela ser maravilhosa (e, portanto, detestava a escola). Infelizmente, todos os entusiásticos desertores da escola estão cuidando da própria vida.”

Assim como ela cuida de sua educação como se Ludo fosse um adolescente, Sibylla não esconde qualquer informação sobre a vida de seu filho. Responde suas dúvidas como se ele tivesse maturidade para entendê-las – vida, morte, amor, desilusão –, isso porque o próprio garoto não a deixa em paz até ela dar uma resposta satisfatória – nesta primeira parte, é comum que a narrativa de Sibylla seja interrompida pelas insistências de Ludo para que ela lhe conte e ensine tudo, interrupções marcadas no texto por fontes maiores ou em caixa alta, como se ele fosse uma criança esperneando no supermercado para que a mãe lhe compre aquele cereal. Mas no lugar de fazer birra por um doce com um prêmio dentro, o que ele quer é saber como o mundo funciona, compreender sem precisar de legenda o que os samurais de Kurosawa falam, aprender mais e mais e, conforme cresce, saber quem é seu pai.

Aí chegamos à segunda parte, narrada por Ludo. Quando a curiosidade de saber quem é seu pai se instala, ele não para. Todo dia questiona a mãe sobre o paradeiro do pai e sua identidade. No começo, Sibylla se esquiva das perguntas insistentes, mas logo dá a real: ele não é fruto de duas pessoas apaixonadas, não foi planejado, seu pai não faz ideia de que ele existe. Ele surgiu de uma noite em que Sibylla se viu na cama de um homem que só viu uma vez na vida porque queria ser gentil com ele, porque acharia grosseiro dar uma desculpa para dizer que preferiria ir para casa sozinha.

“Ela disse: Na nossa sociedade uma das virtudes mais altamente valorizadas, se não a virtude mais altamente valorizada, é a de dormir de graça com alguém que não se deseja, e se ela é valorizada nas pessoas que têm de fazê-lo com certeza seria uma virtude ultravalorizada em alguém que nem fosse casado.

Eu disse: Foi isso que você fez?

Ela disse: Bem, eu estava tentando ser gentil.

Não seria agora que eu haveria de ficar mudo de espanto. Eu disse: Qual foi a palavra que escapou da barreira de seus dentes?

Ela disse: Há um estranho tabu em nossa sociedade contra pôr fim a alguma coisa simplesmente por ela não ser agradável – a vida, o amor, uma conversa, seja lá o que for, manda a etiqueta que você comece na ignorância & persevere apesar do conhecimento, & embora naturalmente eu ache que isso é profundamente errado não é bom sair por aí ofendendo constantemente as pessoas.”

Esse diálogo acontece quando Ludo já tem 11 anos. Sibylla não quer revelar quem é o pai porque ele é um escritor medíocre, em sua avaliação, e dá algumas pistas ao garoto para que ele perceba essa mediocridade e desista das perguntas. Seria uma vergonha se relacionar com alguém medíocre, dado as capacidades intelectuais dela e de Ludo. O garoto compartilha dessa opinião, tanto que, quando descobre quem é o pai e o encontra (e contesta que sim, ele é medíocre como escritor), procura em outras figuras do mundo artístico alguém que esteja à altura de ser seu pai – sempre fazendo referência a frases de Os setes samurais: “Um bom samurai aparará o golpe”. Assim começa a aventura da segunda parte, em que ele seleciona diversos homens que se encaixam no que ele considera boas figuras masculinas se apresentando como filho, descobrindo como eles reagem a essa afirmação para avaliar se são bons o bastante para “apararem o golpe”.

Essa é a parte mais interessante e divertida de todo o livro. Ludo é um personagem com total liberdade de ir para onde quiser e fazer o que quiser. Apesar de jovem, ele tem total consciência de como se movimentar, de como tratar as pessoas sem ser grosseiro com elas – podemos ter a impressão de que um garoto criado como ele tenha zero trejeitos sociais, mas ter assistido Os sete samurais por vezes seguidas realmente funcionou como substituto paterno para ele. Ludo tem sensibilidade e empatia mesmo quando se mostra arrogante por saber demais, e é isso o que diverte em seu relato.

O último samurai é repleto de trechos com bons diálogos e sacadinhas, aqueles momentos em que você se vê apaixonado pelo garoto. Mas um dos momentos mais marcantes do livro é quando Ludo aborda o jornalista Red Devlin, que retornou à Inglaterra após conseguir sair do cativeiro em que estava no Oriente Médio. Ludo o encontra quando ele está prestes a se suicidar, traumatizado com o que viu da guerra e com o tempo que passou sequestrado, e o garoto não poderia ter mostrado maior sensibilidade nessa hora.

Eu provavelmente não peguei e compreendi a maior parte das referências filosóficas, matemáticas, físicas, literárias e linguísticas que Helen DeWitt coloca no livro, mas isso não atrapalha a leitura de forma alguma. Ludo e Sibylla são duas personagens que teriam de tudo para desagradar com sua inteligência fora do normal (é meio ridículo pensar que desprezamos a inteligência acima da média, não é? Ainda mais quando ela vem de uma mãe solteira e seu filho), mas eles conquistam justamente pela estranheza que causam. O último samurai é um desses livros que divertem por não subestimar as personagens deixando-as mais próximas a uma realidade que conhecemos (a realidade em que garotos de quatro anos não falam vários idiomas, entre eles grego e japonês). Um bom livro.

* Sim, a capa é horrível assim mesmo, nem tudo é perfeito.