o-pomar-das-almas-perdidasEm 21 de outubro de 1987, três mulheres de diferentes gerações se encontram de maneira dramática. O encontro acontece durante a cerimônia que comemora o início do governo de Siad Barre em 1969, realizado num estádio na segunda maior cidade da Somália, Hargeisa. Todos da cidade, principalmente as mulheres, são convocados a participar e exultar o poder do presidente. Nem todas estão satisfeitas de estarem nessa situação. É através dessas três mulheres que Nadifa Mohamed narra os eventos que dariam início à Guerra Civil da Somália em O pomar das almas perdidas (tradução de Otacílio Nunes).

Kawsar é uma senhora solitária e idosa que vive em um pequeno bangalô de Hargeisa. Viúva, foi casada com um antigo chefe da polícia da cidade antes do golpe, e perdeu sua jovem filha logo depois, que não se recuperou após ser presa com estudantes que protestavam contra o governo. As duas perdas e a solidão em que ficou anos depois só aumentaram sua antipatia com todo o regime em que vive o país, e é com desgosto que ela caminha com suas vizinhas até o estádio. “As mães da revolução foram chamadas de sua cozinha, de suas tarefas, para mostrar a dignatários estrangeiros como o regime é amado, quanto elas são gratas pelo leite e pela paz que lhes trouxe. Ele precisa de mulheres que o façam parecer humano”, pensa ela enquanto entra no estádio.

Deqo tem nove anos, é órfã e vive em um campo de refugiados. Sua mãe (que todos dizem ser uma “puta”, significado que ela desconhece) chegou do nada ao local e, assim que deu à luz, seguiu seu caminho, deixando a menina aos cuidados das enfermeiras do campo. Nesta data, ela está fazendo sua primeira visita “à cidade grande” com um grupo de crianças que irá se apresentar nas comemorações do 21 de outubro. Está feliz por ver tanta gente, encantada com a comemoração, satisfeita por ter ganhado seu primeiro par de sapatos.

Filsan é uma mulher com cerca de 30 anos, soldado do exército da Somália que segue a carreira militar do pai, um importante nome da capital Mogadíscio. É de lá que ela é transferida para Hargeisa, para conter as recentes rebeliões que surgem no norte do país. Neste dia, ela apenas cuida da segurança do estádio, certificando que tudo estará em ordem. Até que Deqo se assusta com toda a grandiosidade do lugar, esquece seus passos de dança, é retirada à força da apresentação e agredida pelas mulheres que organizam a comemoração. Kawsar, nutrindo uma revolta interna desde que saiu de casa, não aguenta ver a cena de agressão covarde e deixa as arquibancadas para defender a menina. Ato que coloca Filsan na jogada, que prende Kawsar pela intromissão e, horas depois, a espanca dentro da prisão. Após esses acontecimentos, os caminhos das mulheres se separam, mas a narrativa as acompanha conforme a Somália entra em seus tempos mais sombrios.

O pomar das almas perdidas é um livro curto dividido em três partes: primeiro, o encontro das três protagonistas descrito acima; logo após, o caminho que cada uma tomou depois de 21 de outubro e; na última parte, o reencontro caprichoso do destino. Nadifa Mohamed não se estende muito na forma de narrar: tudo é escrito de um jeito objetivo e descritivo, Deqo fez isso, Kawsar pensou aquilo, Filsan reagiu de tal forma. O que não deixa muito espaço aberto para que ela desenvolva mais a personalidade das três.

Assim que começa a segunda parte, acompanhamos a pequena Deqo perdida por Hargeisa. Ela não quer voltar ao campo de refugiados e arranja um jeito de sobreviver sozinha. Até ser presa por engano com um grupo de estudantes e, na cadeia, conhecer Nasra, uma prostituta que acolhe a menina assim que elas deixam a prisão. Deqo é muito jovem, ingênua e não tem noção alguma do que acontece à sua volta, apesar de ser esperta o bastante para saber se virar sozinha. Mas ela não percebe, por exemplo, que há algo acontecendo na cidade, que conflitos surgem a cada canto e que a vida não será mais a mesma dali a poucas semanas. Talvez por conta dessa “cegueira” da menina à realidade, esse primeiro capítulo da segunda parte não seja tão interessante, sendo escrito com muitas descrições breves e diálogos. Mas mesmo assim, a personagem tem seus momentos em que percebe a precariedade da sua situação, como quando avista o protesto de estudantes pela primeira vez:

“Deqo revira os olhos; sente-se superior a essas meninas ingênuas e protegidas que protestam sem saber nada do que é o mundo real. Elas são incapazes de apreciar o teto que as manterá secas, os corpos que as manterão aquecidas, a torneira que, pingando no canto, saciará sua sede.”

Quando passa a narrar sob o ponto de vista de Kawsar é que percebemos o conflito que se forma na Somália. Acamada depois das agressões de Filsan, Kawsar está sob os cuidados de Nurto, jovem prima de uma vizinha, incumbida de alimentar e banhar a senhora. É da cama que ela observa tudo o que está prestes a acontecer, mas mais do que isso, é lá que ela relembra o seu passado e aqueles que perdeu. A única coisa que interessa a Kawsar é permanecer no lugar em que sempre viveu, ao lado do pomar que cuidou com toda a dedicação que daria à filha se ainda estivesse viva. Cada árvore do pomar representa, para ela, uma vida que não será ceifada pelo regime. É dele que vem o nome do livro, e é nele que ela resolve colocar os pés quando os rebeldes estão prestes a invadir a cidade. A dor de Kawsar é mais palpável do que o deslumbre e desconhecimento de Deqo, e o livro começa a ganhar um contorno mais definido e interessante.

Com Filsan, é claro, o conflito está acontecendo na frente de nossos olhos. Solitária na cidade, ela só quer exercer sua função como bom soldado, mas não consegue esconder a insatisfação de ter sido sempre sozinha, de não ter ninguém ao seu lado, de não ser reconhecida devidamente pelos seus serviços. Constantemente se pega pensando no pai, que até então ela queria agradar e dar orgulho, apesar de toda a rigidez com que ele a criou – a mãe de Filsan “abandonou” a família para se casar com outro homem, e o seu pai a afastou da mãe. As relações familiares conturbadas afetaram a soldado na vida adulta, deixando-a com dificuldades para se relacionar com as pessoas, principalmente com os homens. Esses capítulos sobre Kawsar e Filsan são os mais interessantes porque eles criam um bom background para as personagens. Não são só pessoas jogadas no meio de uma cidade entrando em ruínas, elas sabem o que está prestes a acontecer e suas ações são guiadas pelo passado e o que preveem do futuro.

Por fim, na terceira parte, o conflito se desenrola: os rebeldes invadem Hargeisa, o exército é combatido e a cidade fica em ruínas. Num cenário mórbido e sem esperanças, elas ainda tentam sobreviver. É aí que entra o negócio do destino que falei lá em cima: as três se reencontram em um contexto diferente, sabendo que escapar do fim é mais importante do que havia acontecido algumas semanas antes. Mas assim como Nadifa é objetiva na primeira parte do livro, o desenrolar da história é acelerado.

Apesar de poder ter se saído melhor no desenvolvimento, Nadifa Mohamed agradou de verdade em uma coisa: a independência das personagens. As três são mulheres que não se submetem aos homens e às adversidades. Deqo sabe, apesar da pouca idade, fugir das ameaças; Filsan, mesmo querendo ascender na carreira, quer que isso seja feito pelo seu esforço profissional, e não por se deitar com um superior; Kawsar simplesmente se encheu de ter que engolir qualquer coisa que o regime lhe pede e faz sua rebelião pessoal. São mulheres que sabem que o mundo, para elas, é ainda mais perigoso, e é isso o que as une no final. Um final bonito, aliás, apesar da destruição e das mortes.