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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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História do novo sobrenome, de Elena Ferrante

historia-do-novo-sobrenomeQuando terminei a resenha de A amiga genial no ano passado, falei que a curiosidade de ler a série Napolitana de Elena Ferrante vinha desse mistério sobre a autora: dá poucas entrevistas e nenhuma pista sobre sua real identidade. Mas além disso, também falei que, fora essa curiosidade, o romance se sustenta sozinho, justamente o objetivo de Elena ao querer manter a sua identidade desconhecida. Se eu pensava que essa era uma estratégia muito bem-feita de chamar a atenção do mercado editorial e de ser lida, não penso mais o mesmo depois de ler o segundo livro, História do novo sobrenome. Não importa mesmo quem ela é, porque enquanto lia nem pensava nesse mistério. A qualidade de A amiga genial e a maneira que o livro terminou fizeram minhas expectativas crescerem muito com a série, e o segundo livro alcançou todas elas.

Com tradução de Maurício Santana Dias, História do novo sobrenome começa um pouco além do ponto em que o primeiro livro acaba: o casamento de Lila Cerullo com Stefano Caracci, dono da charcutaria do bairro humilde de Nápoles. A festa luxuosa do jovem casal, que marcaria sua entrada na vida adulta e prometia um futuro feliz, só foi perfeita nas aparências. Como descobrimos depois, logo na primeira noite juntos Lila percebe o erro que cometera ao se casar. Ela não esconde do marido seu arrependimento, e os dois logo entram em conflito. Na noite de núpcias começam as agressões de Stefano na mulher, que apesar dos socos e tapas não recua em sua rebeldia. Isso tudo é narrado, claro, por Lenu Greco, que semanas após o casamento descobre o que vem acontecendo entre ela e seu marido. Ela só vai conhecer de verdade os sentimentos da amiga meses depois, quando Lila lhe confia alguns cadernos em que registra a história do seu casamento, sua infância e outros pensamentos – itens importantes para Lenu entender coisas que nunca teria notado sozinha. Mas antes de estar de posse desses cadernos, Lenu já tem preocupações quanto ao futuro brilhante da amiga, deixado de lado por causa de uma união conveniente apenas para sua família.

No começo do romance, vemos com tristeza e indignação a situação de Lila, o que vai perdurar por quase todo o romance. Esses sentimentos são despertados pela narradora, que ainda persegue os sonhos que compartilhava com Lila na infância: sair do bairro, estudar, escrever um livro e ficar rica para não depender de ninguém. Casando-se aos 16 anos, Lila estaria desistindo de tudo isso, se rendendo ao comportamento padrão do lugar que tanto queria deixar. Neste ponto começam as dúvidas de Lenu quanto ao que ela deseja ser. A narradora questiona se não estaria errando ao tentar quebrar essa regra social – a de que a mulher deve estudar o mínimo desejável para saber ler e escrever, arranjar logo um bom marido e ter filhos. Lenu se pergunta se não seria arrogância demais da parte dela querer lutar contra isso, ou, como pensa várias vezes, querer ser melhor do que aquelas pessoas. Mas lhe incomoda ainda mais o fato de que tudo o que Lila tem de bom e admirável possa ser perdido com o casamento:

“Durante o resto da vida lhe sacrificaria todas as suas qualidades, e ele nem sequer se daria conta do sacrifício, teria em torno de si a riqueza de sentimentos, da inteligência e de fantasia que a caracterizava sem saber o que fazer com isso, simplesmente a esgotaria.”

Lila era boa demais para Stefano, e jogaria todo o seu potencial fora ao ficar com ele. Mas, felizmente, ela nunca pretendeu ser apenas a boa e bonita esposa que o marido pensou que teria.

As agressões de Stefano se tornam comuns – como Lenu também observa, a violência contra a mulher era normal no bairro, sempre viam acontecer com suas mães e vizinhas e ninguém movia um dedo para proteger as mulheres. Lila se recusa a engravidar, gerando boatos de que ela teria uma força interior capaz de matar qualquer tipo de vida que tentasse nascer dentro dela. Provoca o marido de todas as formas possíveis, apanhar ou não já não importa. Só quer ter a liberdade de volta, mas os negócios da família com os Caracci e os Solara não permitem que ela simplesmente o deixe – assim como a sociedade da época não a perdoaria. Vendo a fábrica de sapatos do pai e do irmão finalmente acontecer e tendo, pela primeira vez, dinheiro e conforto, Lila suporta o marido, seu sobrenome e suas surras, mas mantém seu orgulho. Sabe como agradar, como ser fria e como soltar os cachorros em cima de todos quando precisa.

A nova vida de Lila reflete no cotidiano de Lenu. Ainda muito ligada a amiga, tendo-a como um modelo a seguir e a ser superado, Lenu começa a ir mal nos estudos. O estímulo que Lila dava a ela para ser melhor havia, de alguma forma, sumido com o seu casamento. Sem concentração para estudar para as provas, sem tirar as notas que antes a destacavam entre os professores, ela volta sua atenção para os rapazes do lugar: o namorado Antonio, com quem troca carícias todos os dias em um canto remoto do bairro; e Nino Sarratore, colega mais velho da escola de quem sempre foi apaixonada. A paixão por Nino nunca foi revelada, apesar de um breve beijo dado no primeiro livro, pois Lenu pensa ser intelectualmente inferior ao filho do ferroviário/poeta, um jovem que ninguém do bairro aprovaria por considerá-lo arrogante e por não ter futuro. Lenu esconde o interesse da própria Lila, que não o considera nem bonito nem inteligente o bastante para ela. Mas é Nino quem vai acabar desencadeando uma nova competição e união entre as amigas, responsável pelo conflito que ocupa a maior parte do livro.

A competição e admiração que existiam entre Lenu e Lila em A amiga genial são intensificadas em História do novo sobrenome. As duas não travam apenas uma batalha de intelectos, mas também disputam as relações pessoais. Apesar de não estudar como Lenu, Lila se mostra tão ou mais inteligente e interessada do que ela. Quando Lila fala de questões políticas e opina sobre diversos assuntos, parece que ela nunca largou os estudos, sua desenvoltura e seus argumentos são, na visão de Lenu, sempre superiores aos dela. Mesmo sabendo da triste e violenta vida de casada de Lila, a narradora sente aquela inveja branca da casa onde ela mora, da banheira sempre à sua disposição, das roupas e joias que a deixam ainda mais bonita. Lila pode dar a impressão de não se importar tanto assim com a liberdade de Lenu, com suas leituras e estudos, com a mente que vem sendo estimulada pelas aulas. Mas ela mantém aquele ar de desprezo pelo que Lenu faz, sendo às vezes até destrutiva só para mostrar que Lenu nunca vai superá-la. As duas vivem nessa comparação de quem é melhor, quem pode vencer, quem é mais capaz de dobrar as pessoas do bairro a seus desejos. E Lenu, claro, acaba sempre se dobrando a Lila, e aceita resignada o romance dela com Nino durante as férias que passam em Ischia e os meses seguintes.

Em História do novo sobrenome, há vários momentos em que Lenu tenta ao máximo se afastar da amiga para não ser tragada pelos seus problemas. No momento em que volta das férias para Nápoles e retorna à escola, esforça-se para não encontrar Lila ou Nino, não quer tomar conhecimento do que fazem da vida para não ser cúmplice da traição de Lila. Naquele tempo, saber desse segredo poderia trazer consequências graves para ela. Novamente dando-se como vencida, Lenu se afasta e tenta seguir com o resto de seus dias no colégio sem se preocupar com os dois. É interessante notar como a motivação de Lenu está sempre ligada à Lila: se a amiga lhe incentiva a continuar os estudos (como fez no final do primeiro livro e também no começo deste), ela se empenha mais; mas se a amiga lhe magoa, sua vontade de ser melhor do que ela também aumenta.

Com esse afastamento, parece que Lenu, como personagem, está muito mais presente nesse livro do que no primeiro. Ela tem mais espaço para narrar o que acontece com ela e a família, fala de seus tempos de universidade, de seus namorados, das preocupações com os estudos. Outras personagens que antes só a enxergavam por estar sempre com Lila parecem notar agora que ela é tão ou mais bonita que a outra, e acaba ganhando até um tratamento mais respeitoso por ter seguido um caminho tão diferente do resto do bairro. Lenu também confessa suas dúvidas quanto a própria identidade, sobre querer pertencer a um grupo que não é nada parecido com o lugar onde cresceu. Ela não quer ser uma mulher grosseira e ignorante como suas vizinhas, mas por várias vezes entra em crise por considerar que o meio intelectual também não é adequado, que ela parece um bobo da corte divertindo aqueles que já nasceram com todos os privilégios que ela só está tendo agora. Só que, mesmo nesses momentos de afastamento de Lila, sua presença na vida da narradora é palpável, a amiga não deixa em momento algum de habitar seus pensamentos.

Como em A amiga genial, os humores do bairro seguem exaltados. Amizades se desfazem por coisas pequenas, brigas explodem nas ruas e nas casas com a diferença de que, dessa vez, as crianças que antes assistiam a esses conflitos assustadas agora fazem parte deles. Elena Ferrante cria um cenário hostil para as mulheres da segunda metade dos anos 1960, constantemente ameaçadas pelos maridos, namorados, pais ou amantes. Em uma passagem mais para o final do livro, quando Lenu resolve finalmente reencontrar Lila para contar uma grande novidade, a narradora se encontra visivelmente incomodada com a maneira que é tratada na rua por ser mulher. Recebe insultos, cantadas, passadas de mão. Se recusa o galanteio, é uma frígida, se xinga abertamente, é uma vadia. As mulheres são, na verdade, constantemente xingadas e diminuídas por não conseguirem manter o desejo domado, por permitirem certas liberdades com os namorados e noivos, por responderem a seus maridos com audácia e não aquietarem. Mas Lila e Lenu não baixam a cabeça para isso.

Durante todo o livro você mergulha na vida das duas amigas, no cotidiano do bairro, de Nápoles, nos conflitos e segredos de toda aquela gente. Tudo parece ainda mais vívido e urgente do que no primeiro livro. Lila e Lenu agora têm idade para fazerem o que quiserem, não são só meras espectadoras da vida no bairro. Elas arriscam suas reputações por aquilo que acreditam. Se no primeiro livro a promessa de felicidade do casamento de Lila a deixava em um patamar superior ao de Lenu, agora o jogo se inverte, e Lila termina o romance quase que irreconhecível para a amiga, enfraquecida, e Lenu alcança justamente aquilo que sempre sonharam ter. Se a série Napolitana fosse realmente uma disputa, História do novo sobrenome deixaria esse jogo empatado: Lenu 1 x Lila 1. Mas a série não é um jogo, o que Elena Ferrante mostra de verdade é uma relação complexa de admiração, amor e amizade. Lenu sabe que sem a sombra de Lila lhe impulsionando ela não teria conquistado nada.

É difícil explicar como essa história entra na sua cabeça e permanece ali por dias, mesmo depois de terminada a leitura. Existe alguma coisa na maneira de Elena Ferrante escrever que não consigo explicar, mas que me deixa intimamente ligada às protagonistas – provavelmente por reconhecer na história delas coisas que já pensei ou vivi (mas com uma carga bem menor de drama, claro). Reconheço esse misto de competição/admiração entre as duas, porque também já agi assim com algumas amigas. Reconheço a vontade de Lila e de Lenu de quererem ler e conhecer tudo o que interessa a Nino, porque também já escolhi leituras e debates guiada pelo gosto dos caras da vez. Entendo o desejo das duas de escaparem do bairro, deixar para trás o lugar em que nasceram, pois também fiz isso. Reconheço até algumas características do bairro, as fofocas entre as mulheres e o silêncio dos homens que fazem burrada atrás de burrada porque são orgulhosos demais para admitirem um erro. A mistura de todo esse drama com o tom emotivo da escrita de Ferrante, o jeito que ela passa de uma frase culta e bem formulada a xingamentos e sentenças carregadas de raiva, me deixaram tão presa ao livro que não estranho mais quando me pego pensando em Lenu e Lila como se fossem duas pessoas que realmente existem.

“Não tem sentido, me disse sem esconder a angústia. Os homens nos metem as coisas deles lá no fundo, e você vira uma lata de carne com um boneco vivo por dentro. Eu tenho um, ele está aqui e me dá repugnância. Vomito sem parar, é minha própria barriga que não o suporta. Sei que devo pensar em coisas bonitas, sei que devo encontrar uma razão para isso, mas não consigo, não vejo razão nem beleza.”