os-luminaresNova Zelândia, 27 de janeiro de 1866. Walter Moody acaba de chegar a Hokitika debaixo de uma tempestade, para no primeiro hotel que encontra e vai para a sala de fumantes depois de deixar seu quarto procurando por uma boa bebida. Escolhe uma cadeira e percebe que há um clima estranho no lugar: há mais doze homens com ele, cada um fazendo alguma coisa, mas todos com uma cara de desconfiança. Um deles, Thomas Balfour, decide puxar conversa e saber do motivo dele estar ali: quem é o jovem bem apessoado, o que faz em Hokitika, de onde veio, qual é a sua história. Depois de contar como veio parar na cidade – um conflito com seu pai que o fez querer sumir, adotando outro nome para subir a bordo da Goodspeed e ir atrás de ouro sem que ninguém saiba de seu paradeiro -, ele pergunta também o motivo de Balfour e todos os outros estarem ali.

Os doze homens se reuniram para discutir os estranhos eventos recentes de Hokitika. Crosbie Wells, um eremita bêbado que morava numa cabana no vale Arahura, foi encontrado morto em sua casa no dia 14 de janeiro. O corpo foi descoberto pelo político Alistair Lauderback, em viagem de campanha. No mesmo dia, Anna Wetherell, uma prostituta, é encontrada desacordada na estrada do vale para a cidade, provavelmente uma tentativa de suicídio por overdose de ópio. Ainda no mesmo dia, Emery Staines, o prospector de ouro mais rico da cidade, desaparece – sendo que ele havia contratado Anna pela noite toda no dia anterior. E todos desconfiam da participação de um só homem nesses eventos confusos, o capitão da Goodspeed, Francis Carver. É esse o mistério de Os luminares, de Eleanor Catton (tradução de Fábio Bonillo), que por quase 900 páginas tenta ser desvendado pelos homens da cidade, cada um com algum tipo de participação, mesmo que involuntária, no que aconteceu.

Dividido em doze partes, cada uma representada por um desenho de um mapa astral, o livro conta em detalhes as dúvidas e descobertas feitas pelos envolvidos: um boticário, um jornalista, um ourives chinês, um moari caçador de jade, um bancário, um hoteleiro, um magnata do garimpo, um negociante, um agente portuário, um funcionário da justiça, um vendedor de ópio chinês, um capelão e o jovem Moody metido ali no meio. Pessoas diferentes com o mesmo objetivo: resolver esse mistério e saber como mais de 4 mil libras em ouro foram parar na casa de Crosbie Wells, um homem que nunca teve nada, o que Anna tem a ver com ele e se a viúva que apareceu dias depois reivindicando a fortuna, Lydia Wells, é realmente quem diz ser.

As primeiras partes do livro são mais longas e dão conta de apresentar os fatos, quem sabia do quê, quem estava fazendo o quê, e esclarecer aos poucos o que poderia ter levado Crosbie à morte. Descobre-se que Anna, em seus vestidos, escondia grandes quantidades de ouro, fato que ela mesma desconhecia – os vestidos foram adquiridos a preço módico, pois estavam em um navio que havia naufragado. Descobre-se que a mina de onde o ouro se “originava”, a Aurora, era de propriedade de Emery Staines. Descobre-se que Anna e Lydia já se conheciam antes. Descobre-se que Francis Carver havia comprado a Goodspeed de Lauderback, assinando o contrato com o nome Crosbie Fancis Wells. A cada novo capítulo, mais informações surgem e devem ser encaixadas, e todos da cidade ficam ainda mais envolvidos com o caso, pois cada um sabe de alguma coisa que pode adicionar uma peça a esse quebra-cabeça. E assim a leitura passa de maneira rápida. Cada nova parte é menor que a outra, e o romance ganha um ritmo frenético quando se aproxima do final – momento em que, já apresentados todas as informações que o leitor precisa, a autora resume ainda mais a história para chegar no que realmente aconteceu.

Uma coisa que gostei muito no livro foi a variedade de origens das personagens. Há ingleses, escoceses, chineses, maoris, australianos e neozelandeses. É uma variedade que confere aquele ar de terra nova cheia de promessas, que atrai as mais diferentes pessoas em busca de uma vida nova, de descobertas, de riquezas escondidas em lugares nunca antes explorados. Lugares como esses que, por serem novidade, dão vazão a histórias mirabolantes e interessantes. Eleanor Catton monta bem esse clima de lugar exótico, mas sem deixar os personagens caricatos.

Cada acontecimento é, também, regido por algum astro devido a sua posição no céu – assim como as personagens representam signos do zodíaco. Talvez por ter lido Os luminares em e-book (pois prático, pois não queria carregar mais um catatau pra lá e pra cá), onde as ilustrações são mais difíceis de ver – até as datas de cada parte quase não dava para enxergar –, acabei não dando tanta atenção a esses diagramas, ao Sol em Aquário, Mercúrio em Sagitário ou seja lá o quê. Assim, não fiquei relacionando tanto as personagens a seus signos, aos astros e às suas posições (embora dê para perceber características dos signos do zodíaco em alguns), então a parte astrológica do livro passou meio que batida para mim. Mas apesar dessa estrutura apresentada no livro ser um componente interessante, deixar isso um pouco de lado não influencia negativamente a leitura. Eleanor Catton prendeu bem a minha atenção na história a cada capítulo.

Os luminares é um daqueles grandes romanções que dá gosto de ler, de ficar semanas entretido com uma só história e que, quando acaba, você nem sabe dizer direito o que mais gostou e por que gostou. E Eleanor constrói muito bem cada personagem, a ponto de você se sentir íntimo deles, de conseguir prever como vão reagir a certas coisas – o que não quer dizer que eles sejam previsíveis, longe disso, mas mostra que você se afeiçoou a cada um e que eles lhe são familiares. Os luminares é um livro bem desenvolvido. Quando veio para a Flip em 2014, Eleanor chamou a minha atenção basicamente pelo tamanho do livro, mas a sua história vai muito além do número de páginas. É muito bom de ler.