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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Romance moderno, de Aziz Ansari

romance-modernoSem vergonha alguma: sempre usei bastante sites de relacionamento. Tinder, Ok Cupid, Happn, até aquele Tastebuds, que faz matchs com as pessoas de acordo com o gosto musical – cheguei a baixar uma vez um aplicativo que fazia a combinação pelos signos, mas não tinha quase ninguém do Brasil usando, então nem deu pra testar. Curiosidade? Sim. Desespero? Talvez. Mas acho que conhecer pessoas é o que sempre procurei fazer desde que comecei a usar a Internet (lá por 2004, 2005, meio atrasada). Os aplicativos e sites de relacionamento são, para mim, como um novo chat do Terra. Não sou a pessoa mais social do mundo, sempre bate aquela ansiedade/medo/vergonha de interagir com um possível crush pessoalmente, então a internet foi sempre a primeira opção pra mim. O que muita gente acha estranho e/ou errado, mas vou mostrar aqui que não.

Mas Taize, o que tem relacionamento a ver com um blog de resenhas? A-há! A resenha de hoje é, caso você tenha ignorado o título do post, de Romance moderno, livro do ator/comediante Aziz Ansari (esse mesmo, do Parks and Recreations, do Master of None, do stand-up comedy). Romance moderno (traduzido por Christian Schwartz) é, como o subtítulo diz, “uma investigação sobre relacionamentos na era digital”. Não é um livro sobre relacionamentos na Internet, veja bem, mas sim um livro que procura explicar como a tecnologia influencia nossas abordagens e também fala da mudança de valores quando o assunto é amor. Com a ajuda do sociólogo Eric Klinenberg, Aziz fala de uma forma bem-humorada sobre os prós e contras de tanta conectividade na hora de encontrar a alma gêmea.

Começando pelo começo: Aziz teve a ideia de pesquisar sobre o tema quando percebeu que uma simples mensagem no celular despertou mil pensamentos sobre o que a pessoa do outro lado estaria achando dele. O clássico mandei-uma-mensagem-e-ainda-não-recebi-resposta-ele(a)-me-odeia. A facilidade de comunicação proporcionada pelo celular pode deixar a gente nervoso quando demoramos a receber algum retorno, nos leva a inventar mil teorias e explicações sobre os motivos de não estarmos recebendo atenção naquele momento. Uma coisa bem diferente do que era, por exemplo, no tempo das cartas. Com isso em mente, Aziz e Eric começam sua investigação sobre os relacionamentos modernos e o que esperamos de um parceiro nos dias de hoje. Essa investigação é feita através de grupos de discussão presenciais e na internet, entrevistas com pesquisadores e especialistas e, claro, uma pitada de experiência própria do Aziz.

Para começar a explicar como a relação entre as pessoas mudou tão rapidamente com a tecnologia, Aziz começa sua pesquisa num lugar inusitado: uma casa de repouso. Antes de ir atrás de como as pessoas procuram por outras pessoas, como usam aplicativos para apimentarem a relação, ou como terminam relacionamentos por mensagem etc., ele e Eric vão perguntar aos mais velhos como as coisas funcionavam no tempo deles, há cerca de 50 anos. Chamar para um date não era possível. O namoro era tímido, sem liberdades, os pares eram formados pelas famílias ou o pretendente morava na mesma rua ou até no mesmo prédio. Os casamentos aconteciam muito mais cedo do que agora. As pessoas não se casavam (tanto) por amor. Como Aziz pergunta no livro: você se imagina, hoje, casando com um cara que morava na mesma rua que você? Eu não. Eu não queria pegar nem a galera do colégio.

O que dá para perceber nessa primeira parte é que a tecnologia não é a única responsável pelas mudanças na forma de nos relacionarmos. Antes dela, foi preciso passar por uma mudança cultural. Pegando como exemplo as velhinhas que conversaram com Aziz: quando questionadas sobre o casamento, muitas disseram ter aceitado a primeira proposta que apareceu para finalmente saírem da casa dos pais e ganharem mais “liberdade”. A vigilância dos pais era tanta que casar sem amor era uma das poucas saídas possíveis para as mulheres viverem as próprias vidas. E que, se tivessem a opção, gostariam de poder ter tido um tempo de solteira, em que viveriam sozinhas, estudariam, teriam uma carreira e, só então, pensariam em casamento e filhos. Mais ou menos como fazemos hoje, certo? Pois então, se a tecnologia permitiu às pessoas se conhecerem apesar da distância, a liberdade conquistada pelas mulheres e essa mudança de valores permitiram que nossa visão de casamento, família e relacionamentos também mudasse. Pelo menos foi isso o que me peguei pensando nos vários momentos em que Aziz fazia essa comparação de como as coisas eram antigamente e como elas são hoje.

“Amor verdadeiro? O cara tem um emprego e um bigode decente. Agarra ele, amiga.”

Bem, hoje ter um bom emprego e um bigode decente não é o essencial para você decidir juntar os trapinhos (embora eu adore um bigode decente, rs). Como escreve Aziz, hoje a maioria das pessoas decide casar quando encontra sua alma gêmea. E é aí que as coisas complicam: como encontrar a pessoa certa no meio de tanta gente?

Os sites de relacionamento surgiram prometendo isso, a mágica do algoritmo que vai te combinar com o cara certo. Logo esses sites cresceram e casais realmente foram formados através deles. Mas uma coisa que Aziz e Eric apontam, e que eu concordei na hora, é: isso não deixa de ser pura sorte. Os algoritmos desses sites, segundo os próprios programadores, não são certeiros. Na verdade podem te indicar alguém que nunca te atrairia. Para pesquisadores e especialistas entrevistados pela dupla, o melhor algoritmo para decidir quem é “aquele” dentre tantas opções ainda é o nosso cérebro.

Os sites de relacionamento são um desperdício de tempo, então? Não. Aziz define muito bem a serventia desses sites e aplicativos quando diz que eles não passam de uma versão virtual de uma balada ou um bar. Podemos ter acesso mais fácil a algumas informações sobre as pessoas na internet, claro, mas o que ainda nos chama a atenção na hora de escolher e abordar alguém é a aparência física. Superficial? Sim. Mas vai dizer que na balada, na rua ou na aula, você não olha primeiro para aquela pessoa que você considera mais bonita, e não para a que sabe mais sobre a teoria da relatividade? (Até porque seria difícil saber de antemão se determinada pessoa sabe mesmo a teoria da relatividade, esse é o tipo de descoberta que você acaba fazendo só depois.)

Meio que acelerei e pulei algumas coisas que tem em Romance moderno, mas a questão é a seguinte: hoje não queremos casar por conveniência ou com quem parece ser mais “decente”, procuramos por alguém que nos complete física e espiritualmente, queremos ter a certeza de que estamos com a pessoa certa, e para isso queremos ver o maior número de pessoas possível até ter o máximo de informações para afirmar “rá, é você mesmo”. Contudo, isso não é assim tão bonito quanto parece na teoria. Quando fala dos problemas do romance moderno, Aziz é enfático ao dizer que essa é uma busca árdua e ingrata, e que não temos certeza do que realmente procuramos. O grande número de opções deixa todo mundo ainda mais confuso sobre o que quer, sobre o que espera de alguém. Enquanto você pula de galho em galho tentando achar essa pessoa para te completar e dar sentido à sua vida, essa pessoa pode ter ficado no galho logo atrás, só porque você passou por ela rápido demais e não deu a atenção devida.

“Vinte anos atrás, se aparecesse um sujeito dizendo que naquele mês tinha conhecido setenta mulheres que demonstraram interesse por ele, a gente ia achar que estava diante de um tremendo garanhão. Hoje, é só um cara com um smartphone e um polegar.”

Romance moderno aborda o relacionamento no contexto do jovem adulto de classe média norte-americano, mas também traz resultados das entrevistas e pesquisas de Aziz e Eric realizadas em outros países, procurando mapear as mudanças de comportamento e o modo que elas usam a tecnologia em diferentes culturas. Um dos capítulos mais legais do livro é o sobre o Japão, em que eles apresentam a crise pela qual o país passa, onde as pessoas não estão mais casando e tendo filhos como antes. Os jovens rapazes, amedrontados com a ideia de rejeição, sequer tentam se aproximar das mulheres – e o contrário não é bem visto pela sociedade (são, desculpa, uns verdadeiros virjões). E a grande quantidade de artifícios disponíveis para o pessoal de lá ter prazer (sexual ou sentimental) também colabora para que nada aconteça. Os japoneses simplesmente perderam o interesse no sexo em sua forma “tradicional”. Já o capítulo sobre a Argentina faz você ter aqueles calafrios de horror só de pensar em ter que se virar com um cara de lá: a cultura machista é bem forte na terra dos hermanos, então nem preciso falar muito sobre isso, as brasileiras já sabem bem como é.

Aziz explica logo no começo que esse é um livro que trata majoritariamente de relacionamentos heterossexuais, então é marcante as diferenças das abordagens de possíveis pretendentes que homens e mulheres recebem. O autor constata, por exemplo, que ser mulher num site ou aplicativo de encontros pode ser uma experiência aterradora: você é bombardeada com centenas de mensagens de caras que não se esforçam o mínimo para chamar sua atenção, e é bem provável que, se você der um “oi” para eles, vai receber uma foto de pau como resposta. Eu gostei bastante da forma que ele mostra isso no livro. Apesar de ser homem e hétero, parece que a pesquisa abriu os olhos dele para o tipo de abordagem e assédio que as mulheres sofrem na internet. Até quando especialistas dizem para ele que o melhor a se fazer ao conhecer alguém legal online é não ficar preso no vai e vem de mensagens, mas ir logo marcando um encontro, ele levanta esse alerta de que nós, mulheres, não nos sentimos nem um pouco seguras em fazer isso: e se o cara for um estuprador maníaco psicopata? Pois é.

O legal desse livro é que Aziz apresenta diversas conclusões sobre os relacionamentos de hoje que não estão ligadas apenas ao fator tecnológico, e não se resumem em “hoje as coisas estão melhores/hoje as coisas estão piores”. A diferença entre hoje e ontem é que as ferramentas para conhecer e manter contato com alguém mudaram, facilitaram uma porrada de processos e ampliaram nossa área de busca. Mas não é muito diferente de como as pessoas se conheciam antigamente (tirando a parte dos casamentos arranjados), só atuamos numa escala (muito) maior. O que pode ser bom e ruim ao mesmo tempo. Você pode ter a tranquilidade de vagar pelo Tinder sem grandes expectativas e acabar conhecendo alguém legal sem ter muito esforço, ou pode se empenhar tanto na busca pela pessoa certa que isso vai sugar toda a sua energia e te deixar bem desesperançoso com uma vida a dois. A grande mudança que podemos perceber nas relações de hoje é que somos exigentes, e não é qualquer pessoa que vai preencher esse espaço.

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Ps.: Se você ainda acha que é NADAVER ter um textão falando sobre relacionamentos neste blog, lhe pergunto: Amigo, o que é a literatura senão um monte de histórias sobre relações humanas? ¯\_(ツ)_/¯