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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Tirza, de Arnon Grunberg

tirzaJörgen Hofmeester é um homem de bem. Pai zeloso, profissional respeitado, marido dedicado, e mesmo assim foi abandonado pela bela mulher. Se preocupa com o futuro da família, economiza para deixar às duas filhas o necessário para nunca passarem nenhuma necessidade. Um homem de bem naquela concepção clássica de alguém que age pensando no bem-estar da família, para mantê-la unida e abastecida com o que precisar. “De bem”. Hofmeester é o protagonista de Tirza, romance do holandês Arnon Grunberg traduzido no Brasil por Mariângela Guimarães. Um personagem que tem de tudo para despertar a simpatia de qualquer um com seu jeito certinho e regrado de tocar a vida, mas que por algum motivo desconhecido só é pisoteado por ela. Mas essa impressão não passa de um equívoco inicial.

Ambientado em Amsterdã, Tirza é um romance sobre a decadência de um homem prestes a entrar na terceira idade. Perto dos 60 anos, Hofmeester está em sua casa, localizada no endereço mais respeitável da capital holandesa, preparando sushis e sashimis para a festa de formatura de Tirza, sua filha mais nova. Enquanto corta o peixe conforme os ensinamentos do curso que fez com a esposa pouco antes dela o deixar, ele repassa mentalmente tudo o que de mais importante lhe aconteceu até agora. Tirza está com 18 anos e partirá com o namorado em uma viagem pelo continente africano antes de entrar numa faculdade. A atraente esposa, que havia abandonado a família há três anos para viver um amor da juventude, volta para casa seis dias antes da festa, despertando raiva e alívio do marido. Ibi, a filha mais velha, deixou a casa há poucos anos e largou a faculdade para tocar um hotel na França junto com o namorado. Até ali, a vida de Hofmeester se resumia em ir de bicicleta para seu cargo de editor de língua estrangeira numa renomada editora, recolher o aluguel de seus inquilinos, cuidar da casa, do jardim e cozinhar para Tirza.

Aquela impressão que dei no início, de que Hofmeester é um homem “bom”, é logo quebrada pelo narrador – que assim como o personagem, tenta a todo momento te enganar, mas tem mais liberdade para dar pistas de que algo de muito errado está acontecendo na vida do homem e da sua família. A obsessão de Hofmeester pelas aparências, o status, sugere que há algo de obscuro por trás de tanta cordialidade e dedicação. Aos poucos, enquanto reflete sobre o lugar em que vive, a iminente partida de Tirza e o abandono da mulher, ele vai começando a dar sinais de que aquelas coisas que sempre prezou já não têm tanta importância, que ele atingiu o seu auge e agora só resta a queda.

“Morar bem. Isso era essencial para Hofmeester. Em algum lugar as ambições têm de desembocar. Na maioria das vezes, era um endereço. Certo descomedimento tomava conta dele quando citava a rua onde morava. Como se sua identidade, tudo o que ele era e o que representava se reduzisse ao nome da rua, ao número da casa e ao código postal.

[…]

Ele já não precisava mais morar bem. Essa percepção, de que isso não é mais necessário, surgida enquanto envolve um pedaço de atum sobre arroz, é um alívio para ele.”

O retorno da esposa apenas aumenta essa percepção. Conforme os diálogos entre os dois se intensificam, percebe-se que eles nunca tiveram um casamento feliz. O amor que poderia ter existido no início da relação se transformou em repulsa e rancor. Quando volta ao lar, a esposa diz constantemente a Hofmeester o quão péssimo ele era. Péssimo por não satisfazê-la sexualmente, por ser um homem regrado demais, por jogar expectativas demais para cima das filhas, principalmente de Tirza. E ele não fica para trás: o tratamento que dá à mulher é violento, desrespeitoso, e fica aquela sugestão de que, escondido pelas aparências da união feliz, o casal sempre passou por momentos de violência que extrapolavam as “brincadeiras” sexuais.

Hofmeester também não é um exemplo de boa conduta quando o assunto é dinheiro. Ele aluga o andar de cima de sua casa para executivos, artistas, gente que passa apenas algumas semanas ou meses na cidade. O dinheiro do aluguel é enviado para uma conta na Suíça para sonegar os impostos, com a desculpa de que tudo é feito pensando nas filhas, num futuro confortável para elas. Anos de “economia” se transformaram em milhões, quantia conquistada pelas pequenas tramoias que ele metia em seus inquilinos: encontrar pequenos defeitos no apartamento para não lhes devolver a caução, cobrar juros, inventar motivos para tirar mais e mais deles. É com um inquilino, aliás, que a vida familiar perfeita de Hofmeester começa a degringolar: a violência despertada nele ao ver Ibi transando com um de seus inquilinos, a fúria e irracionalidade demonstradas pelo pai que denunciava que aquela família já não suportava sua presença.

Na vida profissional Hofmeester foi o que se pode de chamar de talento em ascensão. A carreira como editor de literatura estrangeira foi alardeada como uma grande promessa para a cultura do país, mas não demorou muito para que essa previsão se evanescesse. Perto da aposentadoria, sem ter trazido à editora um sucesso comercial sequer, Hofmeester é humilhantemente dispensado de suas funções, mais um baque forte para sua imagem de “homem bom”. Apesar de continuar recebendo um salário, a dispensa confirma ao protagonista que ele está lentamente perdendo a importância que tinha na vida das pessoas, ou ainda, que as pessoas ao seu redor não estão mais querendo fingir que algum dia ele foi importante. “Isso é uma vergonha. Ser irrelevante é uma vergonha. Talvez eu sempre tenha sido irrelevante.”

Mas a questão principal neste livro é Tirza, a relação do protagonista com sua filha mais nova. Hofmeester não é só um pai superprotetor. Ele é cego de admiração pela adolescente. Desde quando era criança, ele afirmava que a filha era “super superdotada”, exigia-lhe excelência nas lições e nas atividades extras em que a colocava – violoncelo, natação, literatura. O tratamento que ele confere à filha é, como a esposa acusa, o de uma amante. A fixação de Hofmeester por Tirza sugere que há um desejo forte por ela que a todo tempo é reprimido, mas escapa nas pequenas ações: ao mimá-la com presentes, ao elogiá-la em demasia, ao tratá-la como uma adulta em seus passeios e conversas. Quando fala de Tirza, é como se nenhuma outra mulher do mundo pudesse chegar aos pés da filha. Mas o narrador não aponta exatamente algum comportamento sexual indevido do pai, mas há uma tensão presente quando ele fala de seu corpo, de seu futuro, quando relembra alguns momentos que passou com ela.

Não é de se espantar, então, que a vida de Hofmeester só tende a piorar. A impressão de cuidado, limpeza, simpatia, amor e dedicação que aparece nas primeiras páginas do romance logo desaparece e Grunberg passa a construir um personagem absolutamente detestável: egocêntrico, arrogante e mentiroso. Até o final o protagonista se esforça para dar a impressão de que tudo o que ele faz tem um objetivo maior, impulsionado pelo amor à Tirza. E o que faz com que você não largue o livro com raiva dele é a narrativa de Grunberg, que se sai bem em montar esse universo fantasioso do protagonista e mostrar ao leitor tudo o que há de errado nele.

Tirza é um romance que se sustenta com as coisas que ele esconde no texto. Grunberg joga pistas, uma ação ou frase que acende o alerta de que algo ruim está prestes a acontecer ou já aconteceu. Ele mantém o suspense até revelar esses dramas de supetão, em um delírio do personagem ou momento de espontânea sinceridade causado pelo cansaço de manter as aparências. E é isso o que faz desse livro algo intrigante de ler: você sabe que algo vai acontecer, mas não consegue antecipar o que, quando e como, e quer chegar até o fim. Até as repetições constantes de atitudes ou palavras que ele coloca no texto, como a mensagem da caixa postal de Tirza até as dezenas de taças de vinho que Hofmeester consome, tem uma função importante para criar esse clima que vai aos poucos sufocando ainda mais o protagonista.

O livro todo se passa em dois momentos: a festa de formatura e a viagem de Tirza à África. Esses momentos são marcados pela antecipação, com Hofmeester preparando a festa perfeita, organizando a ida até o aeroporto, pensando nos preparativos todos que os planos da filha exigem. E aí vem o “durante”, tempos mais acelerados do livro em que tudo parece acontecer e Hofmeester não se resume apenas a seus pensamentos e lembranças. São nesses momentos que as coisas vão ganhando contornos mais definidos e podemos notar melhor a obsessão que ele tem pela filha mais nova: Tirza atrasada pela festa, as ligações constantes, querer estar com ela até o último momento do embarque, a implicância com namorado dela – que, para ele, é igual a um terrorista, a falta de notícias da filha durante a viagem, sua busca por ela. Seus preconceitos e o medo de ser abandonado pela filha aparecem com tudo.

Se Tirza tem um protagonista tão detestável, o livro é bom? Sim, é. E muito. Há quem não goste de gastar seu tempo de leitura com o pior do espécime humano, mas eu particularmente gosto de histórias com personagens que vão contra aquilo o que eu acredito ser “bom”. Hofmeester é um representante da decadência do homem de classe média alta, que trabalhou a vida inteira para morar bem, se alimentar com o melhor, e termina com tudo destruído pela sua própria obsessão. Não existe redenção para ele no final, apenas a tragédia que o romance todo anuncia – e é revelada nos últimos momentos do livro, claro.

“[…] teve a impressão de que ele é que era a doença da classe média branca: ele, Jörgen Hofmeester, em pessoa.”