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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Bonita Avenue, de Peter Buwalda

bonita-avenueSiem Sigerius é o respeitado reitor de uma universidade holandesa localizada em Enschede. Casado com Tineke, que faz móveis em sua casa de fazenda, ajudou a criar as duas enteadas, Joni e Janis. Joni, a mais velha, namora Aaron, fotógrafo que admira a figura de Sigerius e de quem acaba se aproximando muito por conta do jazz e de seus treinos de judô – esporte que Siem dominava na juventude e quase o fez participar das Olimpíadas, mas que abandonou após um acidente. Acamado, o tédio o levou à matemática, momento em que descobriu ser um gênio com os números. Mas no começo de Bonita Avenue, romance de Peter Buwalda (tradução de Cassio de Arantes Leite), essa composição familiar não existe mais. Através dos pontos de vista de Siem, Joni e Aaron, o autor vai revelando os acontecimentos que causaram o afastamento dessas pessoas – e a morte do reitor.

A vida de Sigerius começa a sair dos eixos quando, no ano 2000, percebe uma grande semelhança entre Joni e sua “atriz pornô” favorita: Linda, uma americana de cabelos escuros e olhos claros (o contrário de Joni), que posta suas fotos eróticas em um site. Lendo a sinopse você pode até pensar que Sigerius é um velho pervertido que nutre uma atração secreta pela jovem enteada, mas não. A relação dele com Joni é paternal e protetora, são poucos os momentos em que há algum tipo de tensão sexual entre os dois, e sua reação ao notar a semelhança é mais próxima do puritanismo: como assim minha filha está se expondo desse jeito na internet? A própria relação dele com a pornografia é recente, não é como se Siem fosse um incorrigível tarado.

No momento em que desconfia que Linda é Joni, sua mente volta-se também para o genro, que exerce o papel de “cafetão”. No início do livro, Aaron já não vive mais em Enschede. Após passar por um grave surto psicótico e se recuperar, ganha a vida como fotógrafo escolar, sem contato com Joni, Tineke ou qualquer membro da família Sigerius. Assim como Joni, que no presente mora na Califórnia, comandando uma empresa cujos serviços são, até metade do livro, obscuros. Peter Buwalda tenta, sem conseguir às vezes, transformar detalhes comuns da biografia de suas personagens em grandes surpresas. Não há, por exemplo, necessidade de esconder qual é a área de atuação do lugar em que Joni, agora com mais de 30 anos, trabalha (uma produtora de filmes pornôs). Isso não é uma informação lá muito chocante quando você já conhece o passado da mulher.

Existe outra personagem com participação fundamental na trama, e este é Wilbert, filho de Sigerius de seu primeiro casamento, garoto que praticamente negligenciou quando deixou sua esposa para viver com Tineke. Desde pequeno Wilbert é considerado um delinquente, e está preso desde o início dos anos 1990 por assassinato, mas em 2000 está prestes a ser libertado por bom comportamento, o que acaba trazendo preocupação para o reitor. É justamente essa relação conturbada entre pai e filho que dará a cartada final para a história de Siem, e que considerei ser mais importante para o livro – mais do que sua relação com Aaron e Joni.

A troca de pontos de vista e de tempo da narrativa (o livro se passa principalmente entre o final dos anos 1980 e o início dos 2000) mantém a leitura mais dinâmica. Existe uma estranheza nos primeiros capítulos causada pela falta de familiaridade com as personagens, uma certa confusão quanto ao momento em que aquilo que está sendo narrado aconteceu, mas logo o livro toma o seu rumo e a história flui bem. Contudo, penso que muitos trechos não são exatamente relevantes para a trama, ou então sua relevância é tão sutil que é quase imperceptível. O que está acontecendo no momento presente, por exemplo: a nova aquisição da empresa de Joni, o contato retomado por e-mail entre ela e Aaron, que não acaba indo para lugar algum, nem causando nada de especial na conclusão dessa história. São subtramas que ocupam um espaço considerável do livro, mas que não contribuem muito para o desenvolvimento dele.

Wilbert, por exemplo, poderia ser um narrador bem mais relevante. Não temos acesso ao que ele pensa. E como personagem ele me parece mais interessante que Aaron, que em todas as partes onde a narrativa o acompanhava mais de perto soam como pura babação de ovo para cima de Sigerius . Já Wilbert nós enxergamos de longe, são raros os contatos diretos dele com as outras personagens, e quando acontecem eles são intensos. Fiquei muito curiosa para saber como ele, abandonado, desprezado pelo pai, se desenvolve como personagem. Não que Aaron seja inútil para a história. Ele é importante, mas os ataques de ciúme com Joni e a vontade de agradar sempre Sigerius se tornam irritantes em certo ponto.

Bonita Avenue é um ótimo livro, apesar desses trechos que não fariam falta para a história. Se você se desanimar ali pela metade da leitura, saiba que as páginas finais fazem o romance ganhar força. A tragédia que separa de vez os Sigerius e que marca o fim da vida de Siem é o ponto alto do livro, narrada com detalhes que deixam o leitor angustiado com o que um homem desesperado é capaz de fazer.