cidade-em-chamasCidade em chamas é um livro gigante, mas você não precisa ter medo dele pelo tamanho. Essa é a primeira coisa que falo para quem diz que ainda está meio receoso de dedicar tempo (e força, pois pesado) no primeiro romance de Garth Risk Hallberg. Não, Cidade em chamas não é nenhum labirinto literário quase que incompreensível que vai te fazer arrancar os cabelos – tipo Ulysses e Graça infinita, já que estamos falando de catataus e traduções do Caetano Galindo, que também cuidou dessa aqui. Cidade em chamas é, na verdade, uma história bem tranquila de ler. E talvez por isso muitos tenham se decepcionado com o livro, por esperar algo mais desafiador dele. Bem, ele não me decepcionou, mas também não colocaria na mesma categoria desses outros livrões citados.

Os Hamilton-Sweeney são uma família rica e tradicional de Nova York. William Hamilton-Sweeney III é a ovelha negra dessa família. Já saindo da adolescência ele foge de casa, descontente com o novo casamento do pai, que lhe dará uma madrasta e um tio pouco confiáveis (o irmão de Felicia é denominado, até, de Irmão Demoníaco). A irmã, Regan, mais certinha, ficou para trás para “tocar os negócios da família”. Mas isso só saberemos depois. É em volta desses irmãos que todas as outras personagens orbitam em maior ou menor grau. Quando Cidade em chamas começa, estamos em pleno réveillon, quando a cidade está deixando o ano de 1976 para trás. William, já com trinta e poucos anos, é uma lenda na cena underground de NY. Ex-líder da banda punk Ex-Post Facto, vive como pintor e divide o apartamento com o namorado, Mercer Goldman, um jovem professor de inglês negro que dá aulas numa tradicional escola para meninas. Vindo do interior dos EUA, Mercer ainda é um deslumbrado com a cidade que descobriu praticamente ao lado do namorado e sonha em escrever lá o grande romance americano. Já Regan está passando por um divórcio, com dois filhos, e entrando de cabeça ainda mais nos negócios da família.

Também há Charlie, um garoto de 17 anos de Long Island, adotado, dividido entre o judaísmo e o cristianismo, mentindo para a mãe sobre onde e com quem irá passar o ano novo. Está esperando por Samantha, Sam, sua melhor amiga e por quem é secretamente apaixonado, para pegar o trem até Nova York e ver com ela a reunião do Ex-Post Facto – mas sem William e, por isso, sob um novo nome. Mas é a banda punk favorita dos dois, e eles não podem perder. Até porque Sam agora é amiga daquele pessoal, conhece Nick Caos, o novo líder, e introduz Charlie para a cena. Sam, filha de um produtor de fogos de artifício de Long Island, já está no primeiro ano da faculdade, sua inteligência a permitiu pular de ano, mas ela se dedica mais à fotografia e ao seu fanzine, o Terra de mil danças, do que aos estudos. E também ao cara mais velho por quem é apaixonada, Keith. Que vem a ser, aliás, o agora ex-marido de Regan.

A noite de ano novo não sai como o esperado. Entre encontros e desencontros das personagens, a virada do ano termina com Sam baleada no Central Park, Charlie amedrontado voltando para casa usando uma calça de pijama e Mercer socorrendo a garota e amanhecendo na delegacia para prestar depoimento. É aí que surgem mais pessoas nessa constelação de personagens: Richard, o jornalista que quer ser o novo Gay Talese, que vem trabalhando num livro sobre os fogueteiros de Nova York (justamente, o pai de Sam); Pulaski, o detetive que investiga o caso da menina; Jenny, filha de coreanos que trabalha numa galeria de arte e é vizinha de Richard, e por isso acaba caindo de paraquedas nessa história toda. E aí começa o “mistério” do livro.

Cidade em chamas é divido em um prólogo, sete partes e um pós-escrito, compostos em capítulos curtos, cada um sob o ponto de vista de uma personagem diferente. E cada parte tem um interlúdio onde o autor reproduz aquilo que suas personagens produzem: o fanzine de Sam, um capítulo do livro de Richard, uma carta do Hamilton-Sweeney pai para o filho etc. É fácil identificar quem está liderando a narrativa, que sempre é feita em terceira pessoa. Mas para entender melhor essa teia de acasos é preciso voltar no tempo para conhecer melhor as personagens, justamente o que Hallberg faz logo na segunda parte do livro. Ele cria um bom background deles, principalmente de William e Regan, que tem toda uma trama obscura envolvendo Felicia e o Irmão Demoníaco, coisas que vão refletir no momento em que a história começa. E Sam, que na maior parte da narrativa está em coma, também está presente nesses flashbacks. Por ser uma das personagens mais enigmáticas (por que se envolveu com aquelas pessoas? Como conheceu Keith? Por que alguém atiraria nela?), seu passado necessita de um pouco mais de atenção.

Conforme a narrativa vai entrando em 1977, novos temas vão tomando conta da história. O livro dá mais espaço ao grupo dos Pós-humanistas, formado por membros da ex-banda de William, conforme Charlie se aproxima deles e se envolve com seus planos, que no começo parecem inofensivos – depredações de prédios abandonados e um pouquinho de incêndio aqui e ali, perseguir e vigiar pessoas estratégicas, como o próprio William. Hallberg passa a impressão de que o grupo não é mais que um bando de desajustados desocupados, mas Charlie sente que há alguma coisa maior por trás desse aspecto de decadência, um contato que vem lá de cima e dá ordens a Nick, Saco de Gosma, Sol e toda a gangue. E após mais umas voltas no passado, mais reflexões sobre o presente e incertezas sobre o futuro, chegamos ao ápice do romance: o apagão de julho de 1977.

É nessa parte que o livro começou a escorregar para mim. Dedicando poucos parágrafos a cada personagem, o autor tenta deixar a narrativa mais frenética, com cada um tendo que se encontrar na escuridão da cidade mergulhada no caos. Enquanto uns procuram filhos perdidos, outros tentam retardar uma ameaça que pode destruir um bairro inteiro de Nova York. Mas essas personagens estão tão confusas e perdidas que elas mesmas esquecem quais são seus objetivos na trama. Não que o livro saia totalmente dos trilhos, mas alguns personagens ficam enfadonhos de acompanhar (como Keith, o que menos gostei de longe), e o que te leva adiante é a curiosidade de saber o que essas pessoas tão diferentes têm a ver umas com as outras. O que ficará mais claro apenas no pós-escrito.

E o que o livro tinha perdido de ritmo nessa parte do apagão ele recuperou com esse pós-escrito, um relato feito pelo filho de Regan, Will, que na época do apagão era um pré-adolescente, reunindo o que o tio lhe deixou e o que descobriu desse fatídico dia em Nova York. É aí que a conexão, forte ou tênue, dessas personagens faz sentido, e o livro todo passa a impressão de ser uma obra de Will para mostrar os acasos que juntaram e afastaram as pessoas nesse dia, como estranhos foram se cruzando e se transformando em uma pecinha dessa história. “Vocês são infinitos. Eu estou vendo vocês. Vocês não estão sozinhos”, escreve ele.

Cidade em chamas é um livro sobre punk rock, contracultura, especulação imobiliária, liberdade e as mudanças de uma geração. Todos esses temas estão presentes em algum momento do livro, mas o que mais senti foi a questão do pertencimento, o modo como cada personagem transforma Nova York em algo seu, como cada um tem a certeza de estar no lugar certo, onde todo mundo parece meio perdido, onde tudo é muito grande, tão grande que pode esmagá-los. É essa a sensação que eles procuram. Uma coisa que só poderiam encontrar em um lugar tão grande e diverso quanto Nova York. Pessoas que não se sentiam acolhidas em seus lugares de origem e que encontraram conforto em uma cidade que acolhe qualquer um porque todo mundo tem suas estranhezas. Nova York conferia, segundo Mercer, “não aquilo de que você precisava para poder viver, mas o que fazia a vida valer a pena para começo de conversa”.

Há quem questione se vale a pena separar tempo para as mais de mil páginas de Cidade em chamas com o receio de que um livro tão grande desaponte demais. Mas literatura – dizendo aqui uma coisa bem pessoal – não é só uma questão de tamanho e de quanto tempo você dedica a ela. É o que o livro tem a dizer no final – mesmo com umas páginas além do necessário.

“O verão em Nova York, com as nuvens lá no alto ficando cor de cobre e um negro com um trompete tocando por moedas na entrada do metrô, o arrastar dos ônibus ecoando nas fachadas dos prédios altos, como se Deus estivesse dizendo: Este é o seu lugar. Ele sempre acreditou que foi essa sensação que o trouxe até aqui.”