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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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A história dos meus dentes, de Valeria Luiselli

0c07f0b1-e096-431e-b570-dce06c9ea491Uma fábrica de sucos do México convidou a autora Valeria Luiselli para escrever sobre a organização do catálogo de uma galeria. Essa fábrica patrocina e mantém uma das maiores coleções de arte do país, e o convite fazia parte de mais uma obra artística. Valeria aceitou a encomenda, porém não queria escrever sobre esse tema específico. Ela se interessou mais pelos operários da fábrica. E assim começou a escrever capítulos curtos que, semanalmente, eram enviados de Nova York, onde vive, para o México. O texto era impresso em pequenos caderninhos e distribuídos entre os operários que liam e, uma vez por semana, se reuniam para discutir o texto. Os encontros eram gravados e os comentários eram, então, enviados de volta para Valeria nos EUA. Ela fazia alterações conforme as sugestões ou críticas dos funcionários da fábrica de sucos. Assim nasceu A história dos meus dentes (tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman).

Gustavo Sánchez Sánchez, mais conhecido como Estrada, é o melhor leiloeiro do mundo (mas só ele sabe disso), e quer escrever a sua “autobiografia dental”. Antes de ser leiloeiro, foi segurança de uma fábrica de sucos na Cidade do México, fábrica que patrocinava e mantinha uma grande galeria de arte. Galeria que ele nunca conheceu por dentro, pois não saía dos portões da fábrica. Depois de passar por outros cargos lá dentro, fazer cursos e mais cursos, deixar o emprego, se casar e ter um filho, Estrada vira leiloeiro.

Com isso ele passa a viajar e acumular conhecimento, a ter sucesso com a venda de carros, joias, quadros ou qualquer coisa que caísse em suas mãos. A vida de leiloeiro o afasta da família, ele nunca mais vê seu pequeno filho. Um dia ele se depara, num leilão, com uma dentadura peculiar: estavam vendendo os dentes de Marilyn Monroe. Ele os arrebatou por um preço alto, e com mais dinheiro ainda trocou todos os seus dentes pelos da musa. Agora, com dentes novos, pode voltar para o México e acumular objetos para criar a maior casa de leilões do mundo.

Toda essa história que Valeria conta nesses primeiros capítulos é só uma introdução para o que virá a seguir. Estrada é convidado por um padre a realizar um leilão de quinquilharias para um grupo de velhinhos de um asilo – velhinhos ricos e entediados. Ele decide, então, leiloar seus antigos dentes. E para cada um deles cria uma história utilizando a técnica hiperbólica, uma das quatro técnicas ensinadas por Mestre Oklahoma, seu professor de leilões: hiperbólicas, circulares, parabólicas e elípticas. E conforme a técnica, Estrada vai criando histórias mirabolantes para cada um de seus antigos dentes. Um dente, segundo ele, foi de Platão, e contava aos ouvintes a sua história. Outro dente, de Montaigne. Outro, de Rousseau. Um de Virginia Woolf, um de Vila-Matas, um de Borges. E assim vai vendendo todos os seus antigos dentes até que, no final, leiloa a si mesmo. E é comprado pelo seu filho abandonado, já adulto, que reconhece entre o público do leilão.

A história de Valeria não parece fazer sentido algum contando desse jeito mal resumido. Mas é na estranheza dessa trama que mora toda a graça de A história dos meus dentes. Com suas referências a autores da literatura latino-americana e clássicos de todo o mundo, ela vai inventando mais casos improváveis para Estrada de um jeito que você não consegue adiantar o que vai acontecer. A própria impossibilidade de existir um personagem como Estrada na vida real permite que isso seja feito e, como tudo pode ser inventado, as coisas vão ganhando um sentido maior.

“Mario Levrero tivera um mês miserável. Setembro já estava acabando e não tinha conseguido vender um único seguro de vida; aparentemente mais ninguém temia a morte. Na sexta-feira, quando saiu do trabalho, a empresa de seguros o Tempo Todo, foi até o viveiro do senhor Alejandro Zambra e comprou um bonsai de ocobá. Estava se sentindo tão diminuído que tentou o suicídio, pendurando-se num galho daquela árvore pequeníssima. Falhou por pouco.”

Conforme Valeria vai revelando quem é Estrada, como – e por quem, realmente – sua história é contada, A história dos meus dentes vai ganhando outro tipo de contorno. Não é só mais um livro engraçadinho que brinca com referências e histórias pouco prováveis. Ele é um livro sobre o próprio poder das palavras, ou melhor, sobre como as palavras dão valor aos objetos. As narrativas, em suas diversas formas, mudam nossa percepção do valor das coisas, e Estrada faz justamente isso. Cada historinha que inventa, por exemplo, é uma prova de que qualquer objeto, de qualquer proveniência, pode se transformar em algo maravilhoso se for apresentado do jeito certo.

Muitos dos objetos colecionados e leiloados por Estrada não têm valor algum. São quinquilharias. Mas as histórias que inventa para eles mudam completamente essa visão, dão novo sentido a sua existência. Como explica ao falar de seu método alegórico de leilão, que não aprendeu com Mestre Oklahoma, mas criou ele mesmo, Estrada não vende objetos, mas sim histórias. Assim como Valeria está vendendo uma história ao leitor, e você compra cada página.

“Quando Estrada começou a me contar suas histórias, cheguei a pensar que ele fosse um mentiroso compulsivo. Mas depois de viver com ele, percebi que tinha menos a ver com mentir que com superar a verdade.”

A história dos meus dentes foi um dos livros mais deliciosos que li nesse ano.