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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch

a-guerra-nao-tem-rosto-de-mulherPense nos relatos de guerra, de que forma eles são feitos. Há a história de quem ganha, cheia de atos heroicos e grandiosidade. Há a de quem perde, essa talvez menos contada, provavelmente porque desperta vergonha, vulnerabilidade. Mas uma coisa que essas histórias têm em comum é a sua fonte: geralmente narradas por homens, construídas por eles. Em filmes, livros, séries, quando a guerra é o tema são os homens os personagens principais. As mulheres têm o papel de cuidar dos homens, ser suas enfermeiras, suas amantes, aquelas que seguram as pontas em casa e esperam pela sua volta. Mas há um papel que as mulheres tiveram na Segunda Guerra Mundial que, perto do tanto de histórias que temos de homens lutando, é praticamente esquecida. A história das mulheres que realmente combateram, pegaram em armas e estiveram no campo de batalha. Essa é a história que Svetlana Aleksiévitch quer contar.

Em A guerra não tem rosto de mulher (tradução de Cecília Rosas), a jornalista bielorrussa entrevista centenas de mulheres que combateram pelo exército soviético ou em grupos civis. São franco-atiradoras, tanquistas, médicas, enfermeiras, lavadeiras, pilotos, enfim, mulheres que lutaram em todas as frentes, que assumiram o posto dos homens e fizeram o trabalho tão bem (ou até melhor) do que eles. A motivação de Aleksiévitch, como ela diz na introdução, é mostrar como o relato das mulheres difere do dos homens. Ela quer mostrar uma guerra que não foi feita de heroísmo, que não teve, no final, vencedores ou perdedores. Ela quer uma guerra com sentimentos, com as dores e as (poucas) alegrias que o conflito guarda. É dar às mulheres a chance de contar o que elas nunca contaram.

No começo, Svetlana Aleksiévitch fala que a narrativa da guerra sempre pertenceu aos homens. Os heróis eram eles, logo a história era contada apenas por eles, desprezando, vamos assim dizer, o que as mulheres tinham a dizer, escondendo suas memórias. Porque as mulheres choram, gritam, sofrem, e não é esse o relato que um vencedor quer ouvir, não é isso o que as pessoas querem ler ou ver sobre a guerra – eles querem grandiosidade, feitos incríveis, vitória. Querem uma história que não contenha os sentimentos de dor, não querem mostrar como vidas foram transformadas pela batalha, não querem demonstrar fraqueza. Mas são esses os detalhes que as mulheres guardam na memória – aquilo que os homens deixam de fora elas lembram. Para as mulheres, sofrer é a história. Segundo Svetlana, na guerra mesmo não há heroísmo. Há morte e sobrevivência. O heroísmo seria uma invenção dos homens que querem dar sentido às mortes que causaram.

E assim Aleksiévitch começa os relatos. O livro todo é dividido por temas, como o sofrimento, as cenas marcantes, o amor na guerra, o cotidiano do front, ser mulher no campo de batalha, a relação com os homens, a família que ficou em casa e espera pelo retorno da filha, as mulheres esperando pelos maridos, as mortes, a vitória, a vida do pós-guerra. Cada capítulo traz centenas de curtos relatos de mulheres que atuaram em diversas frentes, cada um contendo um pequeno horror que torna a leitura pesada, pois essas mulheres mostram como o absurdo estava constantemente presente em seus dias.

Por estarem tão vulneráveis o tempo todo é que muitas sentem dificuldade de falar sobre o que aconteceu. Em certo ponto, Aleksiévitch até conta sobre os problemas que teve em conseguir dessas soldados um relato honesto, pois elas ainda tinham medo ou vergonha do que tiveram que fazer. Se estavam na presença de seus companheiros, filhos ou amigos, a probabilidade de que elas amenizassem sua história era maior. Às vezes os próprios maridos desencorajavam as entrevistas, dizendo que elas deveriam falar de glória e vitória, porque eles derrotaram o inimigo e só isso importa. Mas era só elas ficarem sozinhas que o que realmente queriam contar emergia.

“[…] se no apartamento, além da narradora, estivesse presente também algum outro parente ou conhecido, vizinho (especialmente homem), ela seria menos sincera e confidente do que se estivéssemos só as duas. Já se tornava uma conversa pública. Para o espectador. E extrair suas impressões pessoais se tornava uma tarefa impossível, e eu imediatamente verificava uma rigorosa defesa interna. Um autocontrole. A comoção se tornava habitual. E até pude identificar um padrão: quanto mais ouvintes presentes, mais desapaixonado e estéril era o relato. Mais cauteloso em relação ao que manda o figurino. O que era terrível já se tornava grandioso, e o incompreensível e obscuro no ser humano era instantaneamente explicável.”

A diferença da participação das mulheres na Segunda Guerra para as outras é que aqui elas não ficaram restringidas às tarefas até então femininas (enfermeiras, cozinheiras, lavadeiras etc.). Elas estavam no front, com metralhadoras e baionetas, pilotavam aviões e tanques, lutavam e matavam. A força e a violência que era atribuída apenas aos homens estava presente também nas mulheres. Elas eram capazes de tudo, e carregaram também os traumas da guerra.

Uma das coisas que mais me surpreendeu nesses relatos é que essas mulheres não foram obrigadas a lutar. Elas se voluntariavam, elas queriam proteger sua pátria, porque elas eram a pátria e sentiam necessidade de lutar. Mesmo se não tivessem idade ou condições, mesmo se suas famílias fossem contra, elas se esgueiravam pelos vagões dos trens que levavam até os campos de batalha, imploravam aos comandantes, mostravam que eram capazes de fazer algo que fosse beneficiar a pátria e levá-la até a vitória. E elas conseguiam.

Não há só horror nas histórias dessas mulheres. A beleza faz parte dos relatos. Como Svetlana Aleksiévitch escreve, as moças jovens que lutaram na guerra não se esqueciam da beleza em meio a luta. Elas eram jovens e bonitas e não queriam abrir mão disso. Elas se enfeitavam como podiam, indo contra as regras rígidas do exército. Colhiam flores no campo antes da batalha, para preservarem o que a terra tinha de belo. Se não havia uniformes para mulheres – no início, muitas tiveram que usar roupas íntimas de homens – elas se sentiam tristes, menos mulheres. Elas queriam se ver como belas por imaginar que, depois da guerra, os traumas a envelheceriam rapidamente.

“Pena que só fui bonita na guerra… Queimei nela meus melhores anos. Passaram. Depois eu envelheci muito rápido…”

O pós-guerra também é um dos temas levantados pela jornalista. Como elas viveram depois da vitória, como eram vistas pelos compatriotas e colegas do exército. É marcante a diferença de tratamento dado a homens e mulheres. Eles eram os heróis, elas eram as putas que se deitaram com eles no front, ou que deixaram de ser mulheres por terem lutado como homens. “Eu iria com uma mulher dessas numa missão de batedor, mas não me casaria com ela. Pois é… Estamos acostumados a pensar nas mulheres como mãe e noiva”, diz um dos soldados que Aleksiévitch também entrevistou. Os homens, no final, eram os heróis, porque o front não era lugar para mulher, e só podia haver algo de errado nela para querer estar lá. Elas se voluntariaram, queriam lutar pelo país, mas quando a luta acabou só eles foram reconhecidos, e elas se esconderam atrás de uma vida normal porque ter participado da guerra era, para sociedade, algo vergonhoso para uma mulher. E nem todas conseguiram voltar a ter uma vida normal. Muitas terminaram sozinhas, sem trabalho ou família.

“Já tínhamos passado por tanto, salvado os filhos para aquelas mães, os maridos para aquelas mulheres. E de repente… Conheci o que são ofensas, escutava injúrias. Até então era só: ‘irmãzinha do coração’, ‘irmãzinha querida’, não escutava nada além disso. Eu não era qualquer uma, era bonitinha. Tinha ganhado uma farda nova.”

Outro ponto do livro que difere de outas histórias de guerra que li ou vi é que Svetlana Aleksiévitch expõe o fato de que ter vencido a guerra não faz diferença nesses relatos. A vitória é seguida por comemoração e choro. Quem sobreviveu não sabia para onde ir, para onde voltar. Estavam acostumadas demais aos dias difíceis da guerra, desaprenderam a viver um cotidiano normal – algumas dizem até terem desaprendido a ler. Não sabiam como voltar para a vida de antes depois de tudo o que fizeram e viram. Essas mulheres não falam com a superioridade dos vencedores, como um homem provavelmente faria (não quero dizer aqui que todos os homens ignoram o sofrimento da guerra, mas a jornalista mostra como é comum para eles mascarar a dor com a glória da vitória). Mas as mulheres não. No fundo, para elas, a vitória não embelezou as coisas.

Acho que ainda teria muita coisa a dizer sobre A guerra não tem rosto de mulher. São muitos relatos difíceis, muito horror vivenciado que é difícil de relacionar com qualquer coisa que nós, que nunca vivemos uma guerra, passamos. Foram milhões de vidas alteradas por essa experiência que durou quatro anos, que parece pouco se colocado ao lado de todos os anos de uma vida, mas foram tão intensos a ponto de mudá-las completamente, de deixarem traumas que nunca serão curados, apenas tolerados.

Svetlana Aleksivétich consegue todas essas histórias porque ela é capaz de entendê-las. A empatia da jornalista é enorme, e muitas vezes ela chora junto com suas entrevistadas. E por ter essa empatia é que ela consegue passar tudo isso para um livro, usando as palavras delas, narrando só o necessário para entendermos o contexto. Não é de admirar que o livro levou anos para ser feito, não só pelas entrevistas, pela busca por pessoas que queriam e podiam falar sobre suas experiências, mas também por causa da grande carga emocional que todas essas histórias carregam. Da dificuldade de ouvir tudo várias e várias vezes, organizar os relatos e colocá-los no papel. E pensar que essas histórias são só uma fração do que aconteceu, e só um lado da batalha – o soviético –, só aumenta a dificuldade de assimilar o que é, realmente, uma guerra.

“Ela contou como eles tinham sido fuzilados, como conduziram para o fuzilamento ela e os cinco filhos. Enquanto eram levados para um galpão, mataram as crianças. Atiravam e achavam divertido… Sobrou o último, um bebê de peito. O fascista sinalizava: jogue para cima, vou atirar. A mãe jogou a criança de forma que ela mesma a matasse… Seu filho… Para que o alemão não tivesse tempo de atirar… Ela dizia que não queria viver, não podia viver nesse mundo depois disso, só no outro mundo… Não queria…”