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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Dias de abandono, de Elena Ferrante

dias-de-abandonoOlga é abandonada por Mario após quinze anos de casamento. Eles vivem num apartamento em Turim, na Itália. Ela, escritora, deixou o trabalho de lado para cuidar da casa e dos filhos, Gianni e Ilaria. Depois de um almoço em que tudo aparentava estar tranquilo, Mario lhe comunica calmamente que está indo embora. Olga fica sozinha com as crianças, tentando entender o que aconteceu, tentando não ser consumida pelo rancor do abandono.

Este é o enredo do curto romance de Elena Ferrante, Dias de abandono (tradução de Francesca Cricelli). A autora da série Napolitana mantém neste livro a mesma intensidade narrativa que encontramos em A amiga genial e História do novo sobrenome. Quem nos conta todo o drama da separação é a própria Olga, que aproxima o leitor de seus sentimentos e medos.

Assim que Mario deixa a casa, ela lembra do caso de uma vizinha de infância que, ao ser abandonada pelo marido, passou a perambular pela cidade feito um zumbi, desleixada e resmungando sozinha. Ela sempre considerou a reação dessa vizinha como uma fraqueza, coisa de mulher dependente de homem, reação que julgava ser sentimental demais e que também reprovava nas personagens femininas dos livros que lia na juventude. Frente ao primeiro abandono de sua vida, ela não quer ser como essas mulheres, ela não quer deixar que a dor do abandono consuma todas as suas forças, como se a vida dela dependesse apenas do amor de Mario. Mas o que Ferrante mostra é justamente a aproximação dos sentimentos de Olga com os dessa pobre vizinha, e como aos poucos é vencida pela tristeza.

Olga sempre foi uma mulher calma, e seu casamento com Mario nunca passou por muitas provações. Tirando a relação dele com uma amiga e sua filha, que se mostrou íntima demais, não houve grandes sobressaltos no casamento. Olga, de certa forma, sempre se orgulhou de seu comportamento sereno ao lidar com problemas. Nunca brigava ou gritava. Todas as discussões que teve com o marido sempre foram marcadas pelo diálogo e entendimento. Mas quando é abandonada por ele, esse comportamento é deixado no passado. Olga se esforça para manter-se calma para conseguir conversar com Mario e receber respostas concretas sobre o motivo da separação. Mas sua raiva não permite que ela se conforme com a situação, e suas palavras para o marido são cheias de ataques e agressões, com o uso de palavras tão baixas que ele nunca imaginaria ser possível sair da boca da mulher.

Ferrante gradualmente mostra a mudança que ocorre em Olga. No início, sua preocupação não é manter a casa ou cuidar dos filhos, mas sim arranjar maneiras de trazer Mario de volta. Sentir que ainda é atraente e interessante para ele, que não está envelhecendo e que não passará o resto dos seus dias sozinha. Quando percebe que seus pequenos esforços não trarão resultados, ataca-o para saber quem é a sua substitua, o que ela poderia ter de melhor a oferecer que ela não tem. Tudo isso se reflete no seu comportamento: não mantém mais a casa limpa, não tem forças para preparar o jantar para as crianças, esquece de buscá-las na escola e não tem paciência com elas. O filho mais velho, Gianni, fica do lado da mãe até certo ponto. Já a mais nova, Ilaria, age como uma pequena megera, usando de toda a sinceridade infantil para atacar a mãe como se confirmasse que a culpa do abandono fosse dela. E no meio disso tudo, Olga tenta arranjar forças para fazer o mínimo que precisa para os dias passarem.

“[…] quando lhe entreguei de volta o livro me veio uma frase soberba: essas mulheres são idiotas. Senhoras cultas, de boa condição social, quebrando-se feito bibelôs nas mãos de seus homens distraídos. Pareciam-me emocionalmente burras, eu queria ser diferente, queria escrever histórias de mulheres com muitos recursos, mulheres com palavras indestrutíveis, não um manual da esposa abandonada com o amor perdido como o primeiro pensamento da lista. […] Eu disse tudo isso sem ar, de uma só vez, como nunca tinha feito, e minha professora deu um sorrisinho irônico, um pouco vingativo. Ela também devia ter perdido alguém, ou alguma coisa. E agora, mais de vinte anos depois, a mesma coisa estava acontecendo comigo.”

O ódio que Olga começa a alimentar por Mario depois de descobrir por quem ele a deixara torna as coisas piores. Ela sente-se tão diminuída como mulher que até investe sobre seu vizinho, um músico chamado Carrano, com quem nunca teve uma relação muito próxima, só para provar que ainda exerce alguma atração sobre os homens. Como uma maneira de provar a Mario e a ela mesma que é possível viver bem sem ele.

A partir desse momento, as coisas ficam ainda mais obscuras na vida de Olga, e é quando Ferrante coloca o leitor na situação mais sufocante e forte do livro. Numa manhã quente de sábado, ao acordar desorientada depois da noite humilhante que passou com Carrano, Olga é acordada pela filha dizendo que Gianni está doente. Ele, vomitando e com febre alta, desperta algo de materno em Olga, que tenta se manter focada para conseguir cuidar da doença. Logo descobre que o cachorro da família, Otto, também está passando mal. Mas quando tenta sair de casa para buscar ajuda, não consegue abrir a porta, e se vê trancada com um cão e filho doentes, uma filha impaciente e toda a desorientação consequente de uma noite estranha.

Neste trecho, Ferrante deixa o leitor apreensivo com a confusão de Olga, com suas tentativas falhas de sair de casa e de se manter firme e consciente dos problemas que está enfrentando. A todo momento ela se esquece do que está prestes a fazer, se perde novamente em digressões do passado e visões da vizinha abandona. Mas assim que chega ao ápice de sua dor, as coisas acalmam, e depois disso Olga finalmente consegue se livrar de uma boa carga do sofrimento que vinha consumindo seus dias, e lentamente voltar ao estado natural das coisas.

Dias de abandono é um romance intenso sobre a queda e recuperação de uma mulher amedrontada com o abandono, com a maturidade e com o futuro. Não esperava tanto de um livro que não tem as personagens da série que consagraram Ferrante como uma das melhores autoras da atualidade, mas fui surpreendida com sua capacidade de te prender a qualquer história.

“Apaixonei-me por Mario quando jovem, mas poderia ter me apaixonado por qualquer um, um corpo qualquer ao qual atribuímos sabe-se lá quais significados. Um longo pedaço de vida juntos, e você já acredita que ele é o único homem com quem pode se sentir bem, atribuir-lhe sabe-se lá quais virtudes decisivas, e em vez disso ele é só uma flauta que emite sons de falsidade, você não sabe realmente quem é, nem ele mesmo. Somos ocasiões. Consumimos e perdemos a vida porque um qualquer, em tempos longínquos, por vontade de descarregar o pau dentro de nós, foi gentil nos escolheu entre as mulheres. Trocamos não sei por qual cortesia dedicada exclusivamente a nós o desejo banal de foder. Amamos sua vontade de trepar, sentimo-nos tão cegas a ponto de pensar que seja a vontade de trepar conosco, só conosco. Oh, sim, ele que é tão especial e que nos reconheceu como especial. Damos um nome àquela vontade de pinto, a personalizamos, e a chamamos de meu amor.”