meu-nome-e-lucy-bartonLucy Barton tem complicações durante uma cirurgia e tem que passar alguns dias em observação, internada num hospital em Nova York. Da janela ela observa o edifício Chrysler, imagem constante em suas noites insones e solitárias, em que pensa nas duas filhas pequenas – se sentem sua falta, se seu marido está dando conta de cuidar das duas – e no trabalho deixado de lado momentaneamente por conta da saúde. Lucy Barton é escritora. No momento da cirurgia e da internação, está publicando seus primeiros textos em revistas renomadas. Mas a Lucy Barton que conta esta história já tem uma obra consolidada, e o que ela pretende aqui é relembrar cinco dias específicos de sua internação que acabou durando bem mais do que ela previa: os cinco dias em que recebeu a visita de sua mãe. Este é Meu nome é Lucy Barton, livro de Elizabeth Strout que esteve entre os indicados do Man Booker Prize deste ano (tradução de Sara Grünhagen), mas não chegou a ser finalista do prêmio.

Há anos Lucy não via sua mãe. Sua presença no quarto do hospital foi uma feliz surpresa, mas que também amedrontadora. Ela não fazia ideia do motivo da mãe estar ali (depois soube que seu marido ligou para a sogra e pediu que fosse visitá-la, pois ele tinha pavor de hospitais), e nem o que a mãe pensava do lugar onde estava, da vida que a filha vinha levando tão longe dela. Lucy e sua mãe são bem diferentes, e apesar dela notar algo familiar, uma sensação aconchegante vinda do passado, ela também sente que não está conectada com a mãe, assim como nunca se conectou muito à família após deixar a cidadezinha do interior onde cresceu. E assim a Lucy dos dias atuais explica essa relação não conflituosa, mas complicada, entre mãe e filha, em que constrói um relato sobre identidade, seu lugar no mundo e a importância das pessoas.

Com relatos fragmentados, que misturam a narrativa da visita da mãe, a da infância e adolescência de Lucy e a de sua vida de escritora, Strout vai contando como ela foi várias pessoas ao mesmo tempo, e como se sentiu deslocada em todos esses momentos. Lucy nasceu em uma família pobre, que morava afastada da cidade, no interior de Illinois. O pai trabalhava no campo e a mãe era costureira, e é marcante para ela o lugar miserável em que vivia: se vestia com trapos, as crianças na escola diziam que ela tinha um cheiro diferente, mesmo cheiro que sentiam na sua casa quando suas mães iam até a mãe de Lucy para que consertasse suas roupas. Strout também insinua no texto alguns momentos traumatizantes da infância de Lucy (algo envolvendo a criança trancada numa camionete com uma cobra), e outras coisas referentes ao seu pai que não são explicadas com detalhes, ficando apenas na suposição do leitor. Mas ela detalha bem os sentimentos de Lucy quanto à sua identidade e origem.

Lucy, claro, se refugiava nos livros que conseguia pegar na escola. A leitura é, até certo ponto, uma das coisas que tem em comum com a mãe, que costumava pegar livros na biblioteca quando ainda havia uma para frequentar. Lucy tentava ao máximo ficar na escola – tanto para ler mais quanto para adiar o momento de voltar para a casa gelada. Esse hábito lhe rendeu boas notas que a fizeram se destacar para uma professora, que a incentivou a se inscrever para a universidade. Carta de aceitação recebida e bolsa concedida, finalmente Lucy sai de casa e parte para o mundo, para o lugar onde julgava pertencer.

“Minha professora viu que eu adorava ler e me deu livros, inclusive livros para adultos, e eu lia todos. Depois, no ensino médio, continuei lendo quando terminava a lição de casa na escola quentinha. Mas os livros me traziam coisas. Essa é a minha questão. Eles faziam eu me sentir menos sozinha. Essa é a minha questão. E eu pensava: vou escrever livros e as pessoas não vão se sentir tão sozinhas!”

Só que a origem de Lucy é bem diferente da dos seus colegas. Strout não se alonga nos tempos de faculdade – Meu nome é Lucy Barton é, aliás, um livro bem curto –, mas deixa claro o quanto ela não se encaixava entre aquelas pessoas: não entendia suas referências, não se vestia como suas colegas, considerava fútil aquilo que as pessoas davam tanto valor – como as roupas caras de um de seus professores, com quem manteve um relacionamento. Lucy sente o choque cultural de ter crescido com poucos recursos e ir parar num lugar onde as pessoas sempre tiveram privilégios que ela nunca teve, e se achavam superiores por isso. A própria Lucy, às vezes, procurava motivos para se sentir superior a eles, para não ser rebaixada por causa da infância pobre. Lucy fingia bem pertencer a tudo aquilo, mas no fundo sabia que aquele também não era seu lugar, que não era plenamente aceita.

Por isso, ao se reencontrar com a mãe anos depois, Lucy vivencia uma espécie de constrangimento. Ela chega, em alguns momentos, a subestimar a inteligência da mãe, que aproveita as visitas para contar as suas histórias: o que aconteceu com as pessoas da cidadezinha, as fofocas do lugar, comentar alguma coisa que estivesse passando na TV do hospital ou que tivesse lido numa revista, e que não compreende direito porque aquilo faz parte da realidade da cidade grande e dos endinheirados. Lucy, enquanto ouve, observa a mãe e tenta decifrar o que ela está sentindo ao estar ali, tenta identificar aquilo que une as duas para entender como ela, vindo daquela mulher e tendo a mesma criação que seus irmãos tiveram, enveredou por um caminho tão diferente. Criou para si uma vida tão distinta da de sua família.

“Há este constante julgamento no mundo: como ter certeza de que não nos sentimos inferiores aos outros?”

E foi nisso que o livro me pegou. Eu não venho de uma família tão pobre quanto a de Lucy, mas eu cresci num ambiente diferente desse em que vivo agora, um lugar onde ninguém mais da minha família habita. O fato de eu estar nesse lugar tão distante deles não significa que eu sou melhor do que eles, e o fato das pessoas com quem convivo hoje terem crescido num lugar com muito mais recursos e oportunidades não fazem delas melhores do que eu. É basicamente essa a questão de Meu nome é Lucy Barton: você segue um caminho diferente daquele que todos os que você conhece tomaram, você passa a vida inteira tentando se encaixar num grupo e sente que não consegue porque não veio do mesmo lugar que eles e é menos aceita por isso. Mas você não é inferior a eles, e sua família, por mais diferente que seja a vida que escolheram seguir (ou “aceitar”) também não são.

Tudo isso Lucy Barton pensa, e tenta entender, nestes dias que passa com a mãe. Suas conversas saem com dificuldade, mas há vários momentos em que o ambiente fica leve enquanto a mãe fala e ela apenas ouve, agradecida pela sua presença, sentindo que, apesar da distância e da falta de comunicação, há amor entre as duas. Lucy é escritora, é mãe, é esposa, mas também é a filha e a irmã que compartilhou o início de sua vida com aquelas pessoas que definiram o seu caráter. Meu nome é Lucy Barton consegue, com uma história breve e simples, explorar muito bem os sentimentos e a ligação profunda entre mãe e filha, que não se quebra apesar das realidades diferentes.

“Como, por exemplo, você aprende que é falta de educação perguntar a um casal por que eles não têm filhos? Como você aprende a pôr a mesa? Como você sabe que está mastigando de boca aberta se ninguém nunca te disse isso? Como você sabe até mesmo qual é a sua aparência, se o único espelho da sua casa é minúsculo e fica no alto, acima da pia da cozinha, ou se você nunca ouviu uma só alma te dizer que você é bonita, e, em vez disso, conforme seus seios se desenvolvem, ouve de sua mãe que você está começando a parecer uma das vacas do celeiro dos Pederson?”