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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara

uma-vida-pequena-de-hanya-yanagiharaNão vai ser fácil falar de Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara (tradução de Roberto Muggiati). Não é aquela velha dificuldade de falar de algo que você gostou muito sem saber direito o motivo de ter gostado. Eu sei bem porque gostei de Uma vida pequena. Mas é que esse romance foi difícil de terminar por conta do quanto Hanya te faz se apegar aos personagens e por todo o sofrimento que o livro contém.

Uma vida pequena conta a história de vida de quatro amigos que se conheceram na faculdade. Mas o romance começa depois disso: quando estão com vinte e cinco, vinte seis anos, todos voltam para a cidade de Nova York em busca de emprego ou fama. JB é um pintor e artista plástico, mantém um emprego de recepcionista numa agência porque espera fazer contatos para ser exposto numa galeria. Malcolm é arquiteto, está engatinhando em seus primeiros projetos. Tanto Malcolm quanto JB possuem famílias que os mantém bem financeiramente, e suas preocupações não são tanto com dinheiro, mas querem se destacar no que fazem.

Ainda temos Willem. Ele, no começo do livro, trabalha como garçom num restaurante de renome, mas seu desejo é atuar no teatro. Consegue poucos trabalhos, nada muito relevante, e com isso tem que manter seu emprego para conseguir pagar seu aluguel (ele não se comunicava muito com os pais na faculdade, e em pouco tempo eles morreram, não que a família tivesse dinheiro para ajudá-lo também). Willem dividia um apartamentozinho horrível com Jude, o último dos quatro amigos, que se formou em direito. Jude nunca teve família, cresceu órfão em um monastério, e isso é o pouco que seus amigos sabem sobre ele. É o mais fechado de todos, nunca conta seus segredos e sofre de fortes dores nas costas e nas pernas, causadas por um “acidente de carro”. Jude odeia ter que pedir ajuda, não gosta que os amigos vejam seus momentos de dor — e nem seu corpo, que vive escondendo de todas as formas –, não quer ser tratado como um coitado. Mas, dos quatro, é o que mais se dedica às amizades. Sempre ajudando, sempre por perto.

Uma vida pequena não é um romance sobre como esses quatro rapazes vão se virar em Nova York, até porque a autora não se concentra na sua juventude. Também não é um livro sobre o sucesso que eles terão futuramente. Hanya Yanagihara centra a trama na história de Jude, mantendo até a metade do livro todo o suspense que envolve o seu passado. Já nos primeiros capítulos podemos pressentir que algo de muito horrível aconteceu na infância e na adolescência de Jude. A autora vai dando pequenas pistas sobre o que pode ter acontecido, cita figuras importantes que marcaram Jude naqueles tempos, como o Irmão Luke, os conselheiros do orfanato para onde foi após ter abandonado o monastério, a assistente social Anna, que conheceu  após o orfanato, de quem tanto gostou e para quem nunca conseguiu contar exatamente o que aconteceu com ele.

Quando fala de Anna é que percebemos que, para Jude, as coisas não são assim tão simples. Não é falar para alguém o que aconteceu com ele que vai trazer uma nova perspectiva para a sua vida. Jude é incapaz de revelar seus segredos até para Harold, um antigo professor por quem acabou se afeiçoando e virou seu pai, e nem para Andrew, seu médico desde a faculdade e a única pessoa até então que tem uma noção mais ampla do que se passa com ele. Por todo o livro, Hanya mostra como Jude sente dificuldade em confiar nas pessoas, não porque acha que elas vão lhe fazer algum mal, mas porque teme ser abandonado novamente, como se elas confirmassem mais uma vez que ele não é uma pessoa que alguém queira ter por perto. Tudo o que foi obrigado a fazer na infância volta em sua memória com horror renovado, e ele se sente tão diminuído, tão não-humano, que tem certeza absoluta de que, se contar a Harold e a seus amigos o que realmente lhe aconteceu, todos vão considerá-lo um monstro. Alguém impuro. Porque é assim que ele se sente. E só a automutilação é capaz de anuviar as coisas, acalmar as memórias e fazer com que se sinta mais “limpo”.

Willem, Malcolm e JB são parte importante nessa história. Mesmo quando narra o que eles vão, aos poucos, conquistando, Hanya Yanagihara aproveita suas tramas para revelar mais coisas sobre Jude através deles. Por exemplo: JB é o mais problemático para se relacionar. Sente ciúmes da grande amizade entre Willem e Jude, tem inveja do sucesso que os amigos vão ganhando com o passar dos anos (Jude como advogado de uma respeitada firma, Willem como um dos principais atores de Hollywood de sua geração, Malcom como um arquiteto de sucesso com escritório fora dos EUA), apesar dele mesmo conquistar sucesso com sua arte, a maior parte de suas exposições usando os próprios amigos como inspiração e material de pintura. Mesmo com todo o seu exibicionismo, sua certeza de que é o centro do mundo, é JB quem leva os amigos a viver as experiências mais hilárias, até tira um pouco Jude de sua zona de conforto. Já Malcolm é muito mais sereno, é quem conseguiu uma companheira com quem ficou por anos e anos, é quem ajuda nos momentos de aperto com a grana, é quem tenta segurar a onda de JB quando seus ataques de ciúme e inveja ameaçavam a paz entre os amigos.

Já com Willem e Jude, as coisas são ainda mais intensas. Jude sempre viu em Willem alguém para se confiar de verdade, a pessoa para quem ele provavelmente contaria tudo pelo que passou. Isso, de fato, acontece, mas toda a jornada que os dois enfrentam até chegar nesse momento é longa e árdua. Quando Willem está longe, filmando, Jude passa pelos seus momentos mais aterrorizantes, e qualquer tipo de avanço que ele conquista em aplacar seus medos é deixado para trás – volta a automutilação, voltam os pensamentos e lembranças ruins. A amizade e o amor desses dois é a coisa mais bonita de todo o livro, junto com os trechos narrados por Harold (os únicos em primeira pessoa), carregados de emoção e dor.

Hanya Yanagihara preenche mesmo o livro com sofrimento. É quase sádico como ela conta essa história: ela nos apresenta personagens cativantes, dá sinais de que um deles, o mais cativante de todos, passou por algo muito horrível, e nada parece dar certo em sua vida. Torcemos muito por ele e queremos vê-lo feliz, mas quando tudo parece estar bem, quando todas as dores parecem ter sido superadas, ela joga outra bomba que derruba as personagens e nós, que estamos lendo. Mas isso não é um defeito do livro, muito pelo contrário. É assim que a autora mostra como uma vida, por mais que dure, pode ser pequena demais para se enfrentar tudo aquilo que precisa ser enfrentado. Não é sentimentalismo barato, é não ter dó nem piedade de narrar como a dor e a desesperança podem estar tão presentes na vida de uma pessoa, por mais sucesso que conquiste, por mais pessoas que a amem.

Talvez uma das poucas coisas que me incomodaram na leitura de Uma vida pequena tenha sido a repetição de cenas e pensamentos. Quando já conhecemos tudo o que atormenta Jude, sabendo que qualquer tentativa de o ajudar dará errado, Hanya continua criando casos em que os acontecimentos se repetirão de novo e de novo. Isso pode soar cansativo, mas também é uma forma de reforçar os medos de Jude e a impotência que seus amigos sentem.

Uma vida pequena foi uma leitura difícil não pelo texto ou trama complicada, longe disso. Mas foi tanta afeição que tive pelas personagens, e tantas coisas tristes que entravam em cena logo após os momentos alegres, que me pegava adiando a leitura para não ter que enfrentar mais uma leva de choro. Sim, lágrimas vão aparecer a qualquer momento, até nos mais felizes – apesar da imagem da capa e de tudo o que escrevi até agora, eles existem. E são esses pequenos momentos que fazem a vida de todos valer a pena.

“Houve períodos, quando estava na casa dos vinte anos, em que olhava para os amigos e sentia um contentamento tão puro e profundo que tinha vontade que o mundo ao redor deles parasse de girar, que nenhum deles precisasse jamais sair daquele momento, quando tudo estava em equilíbrio e seu afeto por eles era perfeito. Mas obviamente aquilo seria impossível: no instante seguinte tudo mudava e o momento desaparecia lentamente.”