r.izze.nhas

Resenhas e aleatoriedades literárias.

Menu Close

A história secreta, de Donna Tartt

a-historia-secretaSe tem uma coisa que eu gostaria de fazer mais é reler os livros que eu gosto. Tem histórias que merecem receber nova atenção, entrar novamente nelas com um pouco mais de experiência e com uma visão diferente. Fora que, com as boas histórias que você já conhece, a chance de se divertir e se encantar com a leitura são grandes. É aquela coisa de reencontrar um amigo antigo que você gostava muito mas que, por algum motivo, não tinha mais muito contato. Nesse ano consegui, finalmente, reler A história secreta, de Donna Tartt. O engraçado é que só percebi que já tinha lido esse livro quando foi lançado no Brasil O pintassilgo, seu romance mais recente. Eu lembrava que, quando eu tinha 15 ou 16 anos, eu li uma história sobre um grupo de estudantes de grego e havia gostado muito dela. Acho que foi um dos primeiros livros mais “densos” que eu tinha lido na vida depois de Harry Potter. O problema é que eu não lembrava do título do livro e nem quem era a autora. E aí reencontrei Donna Tartt.

A história secreta (tradução de Celso Nogueira) é narrado por Richard, um jovem que nasceu e cresceu na Califórnia e, para escapar da mediocridade da sua cidade e de sua família, consegue uma bolsa na universidade de Hampden, em Vermont. Hampden não é das universidades mais exigentes dos EUA, mas cultiva certa fama entre o povo de “humanas” – artistas, beletristas etc. Abandonando o curso de medicina que fazia na Califórnia para entrar no mundo das letras, Richard tenta ao máximo se encaixar no estilo de vida de seus colegas, escondendo sua origem pobre para se integrar aos modos das pessoas que nasceram em famílias abastadas. Nas primeiras semanas de aula, ele topa com um grupo peculiar de estudantes: Henry, Bunny, Francis e os irmãos gêmeos Charles e Camila, que compõem a seleta turma de grego do professor Julian.

Richard já contava com experiência no idioma clássico e, seduzido pelo que via à distância, bateu insistentemente à porta do escritório de Julian para ser admitido na turma, o que acaba conseguindo. E daí parte para uma amizade cheia de jantares regados a vinho, boa comida e grandes discussões filosóficas. Mas o livro não começa aí. O narrador de Donna Tartt conta essa história muitos anos depois, e o mote é uma confissão: Bunny está morto, e Richard e seus outros colegas foram os responsáveis por essa morte. O que A história secreta nos conta, então, é o que levou cinco jovens promissores a cometerem tal crime, algo que envolve um surto de violência, uma orgia e a aparição do deus Dionísio.

As pistas sobre o que desencadeou a rede de acontecimentos que levou à morte de Bunny estão logo no começo do romance. Em uma de suas primeiras aulas de grego, Julian discute com seus alunos a loucura e a violência, sobre como os antigos gregos procuravam atingir um estado sem consciência para liberarem seus instintos mais selvagens. O leitor, certamente, ainda não sabe que é esse estado de “libertação” que chama a atenção do aluno mais misterioso e dedicado da turma, Henry. Mas as palavras de Julian e as páginas que o narrador dedicam à essa aula já indicam que a discussão é um ponto importante para a trama.

“E como levamos as pessoas à loucura? Aumentavam o volume do monólogo interno, ampliavam características já existentes ao exagero, faziam que as pessoas fossem elas mesmas até um nível insuportável. […] O mais trivial entre nós sabe que o amor é um mestre cruel e terrível. A pessoa perde o ego por causa do outro, mas ao fazê-lo submete-se ao deus mais deprimente e caprichoso de todos.”

Esse trecho pode servir para explicar a fascinação de Richard pelos seus colegas e a sua participação no caso. Desde a primeira vez que vê os cinco alunos de grego andando pelos jardins de Hampden, Richard já sente uma atração incontrolável por eles, como se estivessem envolvidos em um permanente véu de mistério que ele desejava revelar. Fazer parte desse grupo, para Richard, era um privilégio, elevava seu status social e o fazia se sentir pela primeira vez a pessoa que estava destinado a ser. Richard chega, até, a esquecer da própria origem quando se envolve em acaloradas conversas filosóficas com os amigos. Ele se sente atraído pela beleza quase masculina de Camila, que reflete os modos do irmão, Charles. Francis lhe confere confiança, alegre e hospitaleiro. Bunny leva todos à loucura com sua boca grande e debochada, filho de uma família falida que insiste em manter um alto padrão de vida e inferniza seus amigos com isso, mas ainda assim os diverte com seu jeito charlatão. E Henry, o fechado, aquele que não revela seus segredos, é o que Richard mais procura conquistar, ter sua confiança seria um atestado de superioridade dado ao narrador. E por se sentir tão atraído a esse grupo e desejar tanto fazer parte dele, Richard se deixa enredar em seus estranhos atos.

“Quanto mais instruída, inteligente e reprimida é a pessoa, mais necessita de métodos para canalizar os impulsos primitivos que subjugou com tanto esforço. Caso contrário, essas forças ancestrais poderosas acumularão força e energia até se tornarem violentas o bastante para romper as amarras, e tanta violência acumulada costuma, com frequência, suplantar totalmente a vontade.”

Esse parágrafo explica até onde o anseio de Henry de se libertar da própria consciência leva o grupo. Demora para Richard tomar conhecimento do que Henry, Francis, Camila e Charles fizeram em uma madrugada de drogas e bebedeira, acontecimento que mudaria a vida de todos, inclusive as de Bunny e do narrador, que não estavam presentes. Donna Tartt não dá detalhes do que aconteceu, os fatos são obscuros para os próprios participantes e ainda mais para o leitor. Mas é esse acontecimento que desencadeia todo o drama que surge a seguir, permeando a narrativa de Richard com paranoia, desconhecimento e ansiedade.

Quando narra, Richard está ciente de que o que fez, o crime do qual foi cúmplice, é um fato horrível e o torna uma pessoa desprezível, assim como todos os seus colegas. Mas Donna Tartt faz com que o leitor se apegue a cada personagem de um jeito real, e até torça para eles terem sucesso, apesar das más intenções. A inteligência, elegância e riqueza que conquistam Richard também conquistam o leitor, e não desistimos das personagens mesmo quando elas mostram o seu pior lado. A história secreta guarda muitos segredos, e cada revelação é um baque a mais na imagem elegante que Tartt constrói para essas pessoas. Mas o apego por elas não se altera, nem para nós nem para Richard, relembrando tudo anos depois.

“Em certo sentido, era por isso que eu me sentia tão próximo dos outros no curso de grego. Eles também conheciam a paisagem deslumbrante e aflitiva, morta havia séculos; eles compartilhavam a experiência de erguer a vista dos livros, com olhos do século V, e encontrar um mundo desconcertante em sua indolência e isolamento, como se não fosse aqui seu lar. Por isso admirava Julian, e Henry em particular.”

Na Califórnia, Richard se via como um outsider. A ignorância das pessoas o incomodava, assim como sua falta de gosto, sua indolência e vulgaridade. Ele queria viver num lugar belo, onde a arte e a beleza eram valorizadas como ele imaginava que deveriam ser. Por isso ele se agarra à sofisticação, algo que ele encontra apenas nas aulas de Julian e na amizade com os outros cinco. Essas pessoas eram a personificação de tudo o que ele achava de belo no mundo. Por isso não é forçada toda a dedicação que ele dá aos amigos. Em vários momentos, Richard larga tudo o que está fazendo para acudir os dramas de Henry, até de Bunny, porque quer ser incluído nesse mundo particular. Seu maior desejo é fazer parte daquele lugar como se tivesse sempre pertencido a ele. A aprovação dos amigos, principalmente de Henry, tira sua sensação de ser uma farsa.

Sem revelar muito da história, posso dizer que A história secreta vai caminhando para um desfecho melancólico, causado pela paranoia de Henry que vai definindo os passos de cada personagem. Sua busca pela verdade, pelo conhecimento e pela beleza aos poucos vai destruindo tudo em sua volta, e apesar disso Richard é incapaz de abandoná-lo, de lhe dizer que suas escolhas só tornam o cenário ainda mais sombrio. O desfecho, claro, não poderia ser nada mais do que uma grande tragédia. E anos depois de tudo ter acontecido, para Richard é como se seus amigos ainda estivessem presentes, guiando sua vida, e ele ainda mantém a admiração por todos apesar da inquietação moral que persegue o narrador até o fim da história. Se eu gostei de A história secreta quando ainda não conseguia entender o que Julian falava sobre a violência e os desejos humanos, reler este livro quase dez anos depois só deixou a história ainda melhor.