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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Enclausurado, de Ian McEwan

enclausuradoDe dentro do útero da mãe, um feto de quase nove meses escuta os planos horríveis de sua genitora para assassinar seu pai. Ela arquiteta o plano com seu amante, que vem a ser também o tio do feto. O motivo do crime é a casa onde eles se encontram, um imóvel que, apesar de decrépito, vale cerca de seis ou sete milhões de libras. Se a mãe, Trudy, simplesmente se separasse do editor e poeta John, ela não conseguiria um bom acordo que enriquecesse sua conta bancária e a de Claude, o amante/cunhado. A única saída para arrancar dinheiro do decadente poeta é o assassinato. E o feto escuta tudo.

“Então aqui estou, de cabeça para baixo, dentro de uma mulher. Braços cruzados pacientemente esperando, esperando, esperando e me perguntando dentro de quem estou, o que me aguarda”, diz o feto na primeira linha de Enclausurado, novo romance de Ian McEwan (tradução de Jorio Dauster). Através da barriga da mãe ele escuta tudo, todas as maquinações e depravações dela e do amante, e isso aterroriza a mente do ser que ainda nem chegou ao mundo. O feto que narra este livro se preocupa com o que será do seu futuro caso o plano seja colocado em prática, mas pouco pode fazer para evitá-lo estando ainda preso ao cordão umbilical. Resta a ele apenas a contemplação e as previsões de como será o seu futuro, sendo criado por dois assassinos ou então abandonado, dado para a adoção. Nenhum dos cenários lhe parece bom.

McEwan dá ao seu personagem ainda não nascido muito material para o que pensar. O que ele sabe sobre o mundo que ainda não viu vem dos noticiários e podcasts que a mãe escuta – isso “explica” todo o conhecimento já adquirido por alguém que ainda nem viu o mundo. Seu conhecimento sobre vinhos também vem dela, que, despreocupada com a gravidez, não liga para os cuidados que uma mulher grávida deveria ter. Apesar do comportamento que bota em risco a sua própria futura vida, o feto não consegue deixar de amá-la: tudo o que ele já conhece vem dela. É ela quem o abriga e o mantém vivo até a hora de nascer. O amor pela mãe e o pai é incondicional, pois é do material deles que o feto é feito. Por isso o narrador defende tanto a mãe e o pai, e despreza ao máximo o tio-amante. “Nem todo mundo sabe o que é ter o pênis do rival do seu pai a centímetros do seu nariz”, ele reclama.

Não é estranho um livro ser narrado por um feto? Não falta verossimilhança? É sim, mas não falta não. McEwan é capaz de transformar essa informação na coisa mais natural do mundo. O fato de Enclausurado ser narrado por um feto é que confere toda a graça ao romance. Ele não é um ser infantil que ignora tudo o que há de ruim na vida, e por ter um vocabulário tão adulto e preocupações tão maduras é que o livro conquista pela estranheza. Nas pausas das ações da mãe e do tio, quando eles estavam em silêncio ou longe um do outro, o feto discorre sobre o que acontece no mundo, alimentado pelas notícias que chegam até ele através da mãe: a violência, a crise dos imigrantes na Europa, a política inglesa e mundial. Ele já tem material o bastante para formar uma opinião sobre todos esses temas, para criar um gosto musical e um paladar sofisticado, e é o absurdo disso que te faz gostar do narrador.

“Em conclusão, ela disse, esses desastres são obras das nossas naturezas duplas. Inteligentes e infantis. Construímos um mundo complicado e perigoso demais para poder ser administrado com o temperamento aguerrido que temos.”

O narrador escuta impassível o crime sendo planejado e cometido pela mãe e o tio, e tenta interferir do jeito que pode: causando enjoos, dando chutes na barriga, se mexendo para que eles lembrem de que há um ser vivo dentro de Trudy que também terá seu futuro definido pelas ações de seus parentes. E o romance vai ganhando um ritmo mais intenso e de suspense conforme Trudy e Claude vão perdendo o controle das coisas. O feto percebe o desespero tomando conta do casal, ele mesmo sente que tudo pode ser perdido e que não há uma solução conveniente para esse problema. Ele gostaria de ver sua mãe livre das consequências que se aproximam, mas também quer a justiça sendo feita pelo seu pai. Conforme os dias e, nos momentos finais, as horas passam, o narrador vai tomando consciência de que ele mesmo precisa fazer algo para que essa justiça aconteça.

Diferente do romance anterior de Ian McEwan, A balada de Adam Henry  — que também pretendia trazer um tema polêmico para discussão (até onde a justiça deveria interferir nas escolhas pessoais baseadas em crenças religiosas) –, Enclausurado é um livro muito mais bem amarrado, interessante e divertido. Por que né, como não rir de um feto avaliando a qualidade das uvas de um vinho?