a-musica-do-universoJanna Levin não sabia que os cientistas do grupo Ligo (sigla em inglês para Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferometria Laser) haviam detectado ondas gravitacionais quando enviou para alguns deles uma versão quase pronta de seu livro, A música do universo. Durante anos, a física e jornalista entrevistou dezenas de pessoas envolvidas no projeto que tem como objetivo comprovar a teoria das ondas gravitacionais de Albert Einstein. Quando estava finalizando seu manuscrito, o que tinha de material eram as histórias por trás dessa iniciativa: a burocracia para conseguir fundos, as intrigas entre os cientistas, os seus temperamentos difíceis e o trabalho para tirar tudo do papel. Mas meses antes do centenário da teoria de Einstein e do livro de Levin ser lançado, o Ligo detectou ondas causadas pela colisão de dois buracos negros a milhões de anos-luz da Terra. A teoria estava comprovada. As ondas gravitacionais existiam. Einstein estava certo: dois corpos celestes de grandes massas eram capazes de provocar ondas que se propagavam na malha do espaço-tempo do universo como o som que sai de um tambor e chega ao seu ouvido – impossível de ser visto, mas podendo ser sentido.

A música do universo (traduzido por Paulo Geiger) é uma biografia deste projeto que começou a ser concebido há 50 anos. Quando, no começo do ano, foram divulgadas as descobertas destes cientistas, muita gente certamente nem fazia ideia de que existia um trabalho tão enorme para detectar tal fenômeno do universo. Ainda mais imaginar que ele durou tanto tempo para entrar em funcionamento – o grande ápice do livro, não fosse a comprovação da teoria, seria fazer as máquinas do Ligo pelo menos funcionarem, o que não é pouca coisa. O que Janna Levin mostra nesse livro, além das explicações simples sobre a teoria das ondas gravitacionais, o que são os buracos negros, quais seriam as prováveis origens das ondas e como poderíamos (e, de fato, podemos) captá-las, é toda a luta que existe para simplesmente conseguir colocar o plano em prática.

A narrativa de Levin tem três personagens centrais: Rai Weiss, do MIT, e Kip Thorne e Ron Drever, da Caltech, três homens que fundaram e lideraram o projeto desde os seus estágios iniciais: qual seria a melhor forma de comprovar a existência das ondas gravitacionais? Que instituições apoiariam o projeto? Como convencer o Congresso de que a detecção das ondas gravitacionais era uma pesquisa séria que traria grandes avanços para a comunidade científica? Porque o Ligo, e qualquer outra experiência científica de grande porte, não custa barato. São bilhões de dólares para comprar equipamentos, adquirir terrenos, construir laboratórios, aprimorar esses equipamentos e, claro, pagar os cientistas do mundo todo envolvidos durante décadas em sua montagem e manutenção. E Janna Levin transforma tudo isso numa trama interessante de acompanhar.

O Ligo possui, por enquanto, dois laboratórios: um no estado de Washington e outro na Louisiana, nos EUA. São dois laboratórios gigantescos financiados pela National Science Foundation, que consistem em prédios onde se concentram toda a operação e de onde saem dois “braços” em formato de L, túneis de 4 km de extensão percorridos por raios laser que refletem em espelhos e voltam para o ponto inicial. Ao serem atingidos por uma onda gravitacional, o raio laser de um braço será distendido enquanto o de outro será comprimido, fazendo com que os reflexos sejam diferentes. Parece simples falando desse jeito, e você até pode se perguntar como demoraram tanto tempo para construir isso.

Bem, as ondas gravitacionais que provavelmente chegariam à Terra, explica a autora, não causariam um impacto como o que você sente quando um ônibus passa na frente da sua casa. Elas são imperceptíveis, e só um aparelho muito sensível poderia senti-las. É isso o que esses laboratórios conseguiram construir: máquinas enormes livres de interferência terrestre (ou de corpos celestes próximos demais do nosso planeta), capazes de detectar um fenômeno astronômico impossível de ser visto até por um telescópio super-potente, e que dura frações de segundo. Mas até chegar a este momento, quando as duas super-máquinas do Ligo percebem uma interferência e constatam que são, de fato, ondas gravitacionais, há muito caminho a ser percorrido, e é isso o que Janna Levin quer mostrar.

Uma das coisas mais bacanas de A música do universo é o lado humano de uma pesquisa científica. Cientistas não são robôs que trabalham e trabalham e se dedicam apenas a isso. Os conflitos que ela apresenta no livro são causados por pessoas normais, que se sentem inseguras e perdidas em seu trabalho, que possuem um grande senso de colaboração, mas, ao mesmo tempo, pressionam os outros a fazerem tudo do seu jeito, causando divisões no grupo e mudanças no projeto. Além das três figuras principais do Ligo, ela também resgata outras pessoas que, em paralelo a eles, também dedicaram anos de sua vida atrás do mesmo objetivo.

“Cientistas são como alavancas ou botões, ou como pedregulhos milagrosamente encravados na parede que escalamos. Assim como ela, há algum material cimentado feito da mescla de conhecimento – que é um constructo puramente humano – com realidade, que só podemos acessar com o filtro da mente. Há uma importante busca de objetividade na ciência, na natureza e na matemática, mas ainda assim a única maneira de escalar o muro é por meio de indivíduos, que são sempre específicos – o francês, o alemão, a americana. Assim, a escalada é pessoal, um empreendimento verdadeiramente humano, e a expedição real se traduz em pixels que são indivíduos, não figuras platônicas. No fim, ela é pessoal, por mais que queiramos acreditar que é objetiva.”

Claro que quem se interessar por um livro que fala sobre buracos negros e ondas gravitacionais quer saber da parte científica da coisa, e não tanto das picuinhas dos envolvidos. A música do universo não é uma aula detalhada de como o universo funciona ou algo do gênero. O que Janna Levin faz é mostrar de um jeito sucinto o que são as ondas gravitacionais, como elas funcionam, como funcionam os equipamentos que as detectaram e qual é o grande ganho que esse projeto todo apresenta. E ela informa muito bem quando se propõe a simplificar aquilo que é muito complicado de entender.

Como falei logo antes, Janna Levin estava quase terminando o livro quando as primeiras ondas gravitacionais foram detectadas (pouco depois do lançamento, os interferômetros registraram outra onda gravitacional), logo boa parte do que está no livro foi escrito antes que os resultados fossem divulgados. O momento mais aguardado de todo esse projeto só está no epílogo, encerrando com chave de ouro esse resumo de cinquenta anos de história. E como foi legal, da maneira que a autora apresentou esse acontecimento, imaginar passo a passo o que se deu: dois buracos negros girando em alta velocidade um em volta do outro, se atraindo e, num piscar de olhos, se fundindo causando ondas gravitacionais que começariam a percorrer o universo, isso tudo quando a vida na Terra estava apenas começando. E as ondas seguem passando por estrelas distantes, galáxias, e o homem começa a evoluir, criando as primeiras ferramentas. As ondas seguem, entram na Via Láctea, se aproximam do nosso sistema solar enquanto nós nos aproximamos dos dias atuais. Elas passam por Júpiter, Marte, chegam na Terra. Em menos, bem menos, que um segundo, atingem Washignton e Louisiana. E passam pela gente continuando sua viagem pelo universo. E esse sinal tão antigo e tão enfraquecido foi sentido. E não consegui ficar nada além do que maravilhada por estar viva nesse momento.

Ok, isso parece bem brega, mas é isso o que mais gosto na ciência. Sou totalmente leiga nesse assunto, tenho zero talento para a física, mas fico fascinada com tudo o que o homem foi capaz de descobrir sobre como o lugar em que vivemos funciona. E mais fascinada ainda em saber que há muito mais a ser descoberto. É por isso que livros como A música do universo são tão legais: ele é só o relato de uma pesquisa dentre as milhares que existem que se propõem a explicar e entender o universo, que mobiliza pessoas do mundo todo pra isso e que duram anos e anos para serem concretizadas. E mesmo sendo uma parte pequena do nosso conhecimento já minúsculo, ela abre portas para descobrirmos muito mais. Se para conseguir isso foi preciso muita gente, muito dinheiro e muito tempo, imagina até onde ainda iremos para descobrir mais. Isso se vivermos o bastante para isso. É uma leitura para explodir a cabeça.

“Este livro, tanto quanto uma crônica das ondas gravitacionais – um registro sônico da história do universo, uma trilha sonora para um filme mudo –, é um tributo a um empreendimento quixotesco, épico, pungente. Um tributo à ambição de um louco.”

Ps.: Janna Levin também é autora de Um louco sonha a máquina universal, um romance que mistura as vidas de dois matemáticos: Alan Turing, considerado o pai da computação, e Kurt Gödel, que formulou o teorema da incompletude. Sei que gostei bastante desse livro, mas faz anos que eu li e lembro pouca coisa. Mas fica a dica.

Ps2.: O que escrevi ali no primeiro parágrafo da resenha foi contado pela Janna Levin em uma entrevista pro caderno Aliás, do Estadão. Dá para ler aqui.

Ps3.: Tem uma apresentação bacana da Janna Levin em um TED falando justamente sobre o que são ondas gravitacionais e como o choque de dois buracos negros causam essas ondas que poderiam ser “ouvidas” aqui da Terra. Detalhe: a apresentação é de 2011, mas é exatamente o que foi detectado depois no final de 2015. Veja aqui.