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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Os 10 melhores livros de 2016

Chegou a hora, pessoal. Nunca vamos parar de fazer listas. Precisamos de listas. Precisamos categorizar o que acontece com a gente. Acho que até já perdemos a birra com as listas que reinou no ano passado. Não temos como fugir delas.

Na lista “vida em 2016”, eu colocaria algo como: “começou bom, aí ficou ruim, aí piorou, aí pareceu melhorar um pouco, agora não sei o que tá acontecendo”. Mas uma coisa é certa: 2016 foi um bom ano de leituras. Já começou com um destaque grande para obras escritas por mulheres – e o melhor foi notar que fiz isso inconscientemente, não baseei minhas escolhas em “esse foi escrito por uma mulher e por isso tenho que ler”. E também consegui bater minha meta de leitura no Goodreads (ok, 30 livros, até fácil comparado com aquele ano em que li 92…), pois sabemos como a vida adulta e proletária é difícil, e não é nem uma questão de ter tempo para ler, mas força de vontade mesmo. Considero isso uma vitória.

Depois dessa introdução nada animada, aqui vai a minha listinha de MELHORES LEITURAS DE 2016 (não é melhores lançamentos, é o que li de mais legal nesse ano mesmo).

1. Elena Ferrante

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Foi pouco.

Difícil escolher um livro da Elena Ferrante. Tendo a dizer que gostei mais do segundo volume da tetralogia Napolitana, História do novo sobrenome – pois drama, amor não correspondido, traição, choro, inveja, adoro tudo isso. Mas Dias de abandonoA filha perdidaHistória de quem foge e de quem fica foram igualmente bons. Sim, li todos esses da Ferrante neste ano, e gostei muito de cada leitura. Foi bom reencontrar Lila e Nina – melhor ainda que isso aconteceu em um curto espaço de tempo -, e por mais que as duas possam ser irritantes em alguns momentos dos livros, elas ainda moram no meu coração. E foi igualmente bom ler tramas da escritora italiana diferentes das da série, embora os temas centrais ainda sejam os mesmos: a independência feminina, o cansaço da mulher atribulada com trabalho, filhos, marido etc. A filha perdida, inclusive, tem muitas coisas em comum com História de quem foge e de quem fica, li quase como se fosse um spin-off da série. Enfim, Elena Ferrante, meu grande amor literário de 2016. <3

2. Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara

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Ostentando minha “The New Yorker” porque sim (valeu, Leandro <3).

Dor e sofrimento: isso resume Uma vida pequena. Para quem gosta de uma história triste da porra como eu, esse livro foi um dos melhores do ano. Grande, com personagens maravilhosas e muita tragédia. Eu perdi a conta de quantas vezes tive que dar uma pausa na leitura por causa das lágrimas. E como tinha que me preparar psicologicamente para pegar o livro porque sabia que ia sofrer com os personagens de alguma forma. Até as horas felizes do livro eram tristes – com aquele sentimento de que se algo está bem agora, alguma coisa muito ruim deve acontecer. Que livro, dona Yanagihara, que livro.

3. A história dos meus dentes, de Valeria Luiselli

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Leitura de busão? Sim.

Ok, chega de sofrimento. Não é só porque eu gosto de tristeza e melancolia na literatura que não tem alegria nos melhores do ano. A história dos meus dentes está aqui pra isso. O segundo livro de Valeria Luiselli lançado no Brasil é de um bom-humor finíssimo. Não é que você vai dar uma baita gaitada enquanto lê, mas suas referências e histórias absurdas me deram um calorzinho no coração. O livro fala sobre o poder das histórias, sobre como as palavras conferem valor a algo que aparentemente não tem importância alguma.  É aí que o livro funciona, é aí que está toda a graça: você compra cada quinquilharia de Estrada porque as narrativas que ele inventa para seus objetos são puro amor.

4. Enclausurado, de Ian McEwan

Pequeno, porém forte.

Ainda falando de bom humor: Enclausurado. Sim, um feto narrando pode parecer uma ideia estranha, mas como foi bem executada pelo McEwan, hein. Eu estava com muita vontade de ler, mas com receio de ser novamente decepcionada depois do A balada de Adam Henry, que não é ruim, mas não vi muita coisa no livro. Enclausurado já foi além das expectativas. Engraçado, absurdo, bem narrado, você compra totalmente a ideia de que um feto poderia contar essa história de traição e complô – com pitadas de reflexões sobre a situação econômica europeia, os refugiados da Síria, degustação de bons vinhos etc. Gostei tanto desse livro que fui capaz de começar uma interação na livraria com um leitor promissor só pra dizer: “ow, leva esse, é bom demais”. Ele levou.

5. Tirza, de Arnon Grunberg

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Aprecio demais o jeito que a capa parece olhar pro Horácio.

Arnon Grunberg deve ter sido o segundo autor que mais li esse ano, pois dois livros. O homem sem doença, livro mais recente lançado aqui no Brasil, é tragicamente cômico, e gostei bastante. Mas Tirza é perturbador. A história do pai obcecado pela filha, que a trata mais como amante do que como filha (apesar de, pelo menos não explicitamente, algo nesse sentido acontecer entre eles) é de causar desconforto. Tendo a curtir demais histórias com pessoas que são certinhas, exemplos de “pessoa do bem”, mas que escondem algum problema cabuloso, e Tirza é bem isso. O que o protagonista aparenta ser é bem diferente daquilo que ele realmente é. Bom livro.

6. A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch

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Perceba o ângulo da capa.

Voltamos para a dor e o sofrimento! Esse foi o único da Svetlana que li até agora, e que tiro no cuore. Eu não sou lá uma pessoa louca por histórias da Segunda Guerra, talvez porque histórias sobre guerras sempre envolvam aquela coisa de exaltar o heroísmo, o vencedor, pintar o outro lado como o demônio como se os limites entre o bem e o mal fossem bem definidos. E são geralmente sobre homens (não, não sou a feminista rad que despreza histórias sobre homens – vide gostar de Tirza –, mas essa exaltação absurda da masculinidade na guerra me cansa demais). Pois bem, foi bom demais conhecer esse outro lado da Segunda Guerra, a visão das mulheres que lutaram e participaram desse conflito, a parte sentimental e horrorosa de tudo isso, onde ninguém ganha e todo mundo perde. É um livro bem forte.

7. O mundo em chamas, de Siri Hustvedt

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Era verão.

Arnon Grunberg foi o segundo mais lido? Mentira, ele está empatado com Siri Hustvedt. Li O encantamento de Lily Dahl, que achei, infelizmente, bem fraco, isso porque antes eu tinha lido O mundo em chamas, que é muito bom. Certamente não gostei tanto de um e amei o outro por causa das protagonistas: enquanto Lily Dahl, apesar de ter controle sobre sua vida, parece ingênua demais, Harriet Burden é super badass. Fora que é um livro que conversa demais com todas as discussões feministas da vez: como o trabalho da mulher é ignorado simplesmente porque ela é uma… mulher. O mundo em chamas é sobre isso, e a maneira que Hustvedt foi montando a identidade dessa personagem, reunindo relatos várias pessoas que conviveram com ela e seus diários, foi maravilhoso. Foi o meu “livro cabeça” favorito do ano.

8. Uma temporada no escuro, de Karl Ove Knausgård 

No top gatos, Horácio foi o melhor.

Esse nem é novidade. Há anos Knausgård tem lugar garantido nessa listinha. Eu fiquei bem em dúvida de qual livro da série Minha Luta eu gosto mais agora: o segundo, Um outro amor, ou Uma temporada no escuro. Esse quarto livro é muito mais “divertidão” do que os outros da série: como não esboçar umas sorrisas com o jovem Knausgård de 18 anos tentando transar e não conseguindo pois ejaculação precoce? Tão vergonhoso, porém tão bom de ler. Gostei demais.

9. O tribunal da quinta-feira, de Michel Laub

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Li quase inteiro no salão. Fica a dica para quem descolore o cabelo.

Ok, temos brasileiros sim! O tribunal da quinta-feira foi um dos últimos lidos neste ano, e que leitura, amigos. Uma coisa que me irritou demais em 2016 foi a problematização exacerbada de QUALQUER COISA, os paladinos do bom-mocismo na internet exaltando sua própria desconstrução. E esse romance é bem sobre isso: o linchamento que o povo do bem esclarecido lutando pelo respeito e igualdade faz com quem pisou na bola, sem nenhum respeito. Ok, o narrador é sim um babacão mas ow, imagina se suas conversas íntimas no WhatsApp vazassem sem contexto algum, assim como no livro. Você também não seria um inocente perante o tribunal. E o narrador do Laub não é inocente de forma alguma, mas ele mostra como as pessoas que estão julgando também não são. Sério, leiam.

10. Homo Deus, de Yuval Noah Harari

ÔMODEUS <3

Você achou que eu não falaria desse? Claro que não esqueci! Homo Deus foi definitivamente o livro que mais me desgraçou a cabeça esse ano. Muita gente achou que as probabilidades do futuro da humanidade levantadas pelo Yuval Noah Harari são exageradas, mas acho que esse ano mostrou muito bem que as coisas sempre podem piorar. O futuro pode ser maravilhoso com todo o avanço científico que conquistamos – descobrimos mais coisas, entendemos melhor o mundo -, mas se a aplicação dessas descobertas no cotidiano não forem analisadas e pensadas por todos os lados (principalmente as consequências sociais e éticas do aprimoramento genético e tudo mais), algo bem feio pode acontecer. Se hoje temos desigualdade e os ricos é quem mandam, bem, num futuro de seres humanos mais resistentes e fortes esse abismo pode ser ainda maior. Fora a perspectiva de empresas de tecnologia serem donas de todas as suas informações – o que, né, já meio que acontece. Chocante. E é legal também por causa de todo o background histórico que o Harari dá para ir introduzindo os temas que aborda no livro. Curioso, espertão, é o livro pra puxar papo com a gatinha na festa e acabar com qualquer chance de vocês ficarem – mas vai render uma ótima conversa.

É isso, pessoal. 2016 foi um ano de bosta? Foi. Mas teve coisa boa, e entre elas esses livros. E que venha 2017.

Obrigada por acompanhar mais esse ano de r.izze.nhas! 😀

Bônus Track – Quem matou Roland Barthes?, de Laurent Binet

Foto que figurou no Instagram da firma com Witmarsum como cenário.

Pensei que não daria tempo de terminar outro livro em 2016, mas o livro era tão bom que acabei rapidinho, ali no dia 29. E tão bom que mereceu entrar nesta lista. Quem matou Roland Barthes? deu todo um novo sentido para as minhas aulas de semiótica – porque finalmente pude dar um uso divertido para elas. Livro engraçadíssimo, com ótimas tiradas com os intelectuais – com muita classe, claro. Bayard e Herzog entraram pra minha listinha de detetives favoritos – depois de Holmes e Watson, claro.

Ps.: Os livros sem link ainda não tiveram resenha postada aqui no blog, mas tentarei dar um jeito nisso em breve.