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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Homo Deus, de Yuval Noah Harari

homo-deusFome, pestes e guerra: durante toda a sua existência, o homem teve que superar essas tragédias para se manter vivo. A fome dizimava populações inteiras, metade das pessoas na Terra podiam perecer a uma nova peste que matava rapidamente, durante séculos nações viveram em pé de guerra e os momentos de paz mundial eram apenas pequenos intervalos entre um conflito e outro. No século XXI, esses “problemas” foram minimizados: as pessoas morrem mais de diabetes e obesidade que de fome; novas doenças são rapidamente isoladas e combatidas; conflitos entre nações ainda existem, mas a morte por homicídio e até suicídio superam as mortes em guerras. Vivendo nesse tempo de paz constante, qual será a próximo passo do homo sapiens?

O parágrafo anterior resume a introdução de Homo Deus (tradução de Paulo Geiger), novo livro de Yuval Noah Harari, que em seu livro anterior, Homo sapiens, registrou toda a história do homem em milhares de anos de existência. Sua ideia neste novo livro é mostrar as possibilidades do futuro do homem, qual será a próxima “evolução” do homo sapiens. Uma história que, por conta de todos os avanços científicos que tivemos, é otimista e pessimista ao mesmo tempo, um aviso sobre as questões éticas e morais de nossos avanços tecnológicos.

Homo Deus é aquele tipo de livro que joga muitas informações e te espanta com suas conclusões. Na introdução, Harari se concentra em resumir como o homem superou as guerras, a peste e a fome – superou no sentido de hoje não serem os grandes problemas do mundo, por não dizimarem metade de sua população, ele não diz de forma alguma que doenças, desigualdade e conflitos foram erradicados. Ele apresenta as estatísticas que confirmam que a preocupação do homem no século XXI são outras: temos novas doenças a serem superadas, entre elas as mentais, temos o aquecimento global (apesar de esse não ser um tema amplamente discutido por ele no livro), tudo para apresentar sua ideia de que o próximo passo da humanidade é perseguir a divindade, conquistando a felicidade eterna, a imortalidade e a capacidade de criar, como um deus.

Sustentando essas ideias, Harari cita estudos que já estão em curso para conquistar pelo menos uma vitória na corrida que é o avanço tecnológico. O Google, por exemplo, não se contenta apenas em ser uma ferramenta de busca: ele já possui um programa que avisa, dias antes da OMS, por exemplo, quando um surto de gripe atingirá a região onde você mora. Também financia pesquisas para a longevidade, buscando formas de aumentar nossa expectativa de vida que podem levar, até, ao ponto em que podemos escolher não morrer. Substâncias para controlar doenças mentais já seriam um passo para conquistar a felicidade eterna, como se tivéssemos que viver sempre drogados para nos sentirmos felizes. E os avanços genéticos já permitem escolher características dos nossos bebês, é só ter dinheiro para pagar por isso. Mas, e as consequências que tudo isso pode trazer para a humanidade?

É aí que Homo Deus entra em seu estado “pessimista”. Imagina os impactos na política, por exemplo, se pudéssemos viver por 150 anos. Que políticos já mortos ainda estariam entre a gente, que tipo de renovação social isso iria causar. Como ficam as nossas reais sensações se nos medicarmos o tempo todo para sentir euforia. E como seria a sociedade com homens aprimorados geneticamente, que tipo de abismo social isso iria criar. Como o homo deus iria tratar o homo sapiens, que seria, aí sim, inferior a ele geneticamente. Para pensar nessas consequências, Harari dedica um capítulo inteiro a mostrar como o homem se relaciona com os animais, considerados inferiores por conta de suas capacidades mentais, tentando alertar que uma versão aprimorada do homem, mais forte, mais inteligente e mais resistente a doenças, iria “escravizar” o homo sapiens, ou pelo menos criar uma elite pequena que controlaria a economia e a política porque são geneticamente mais capazes.

Algumas passagens de Homo Deus podem ser mais difíceis de assimilar. Quando ele passa a falar da consciência, por exemplo, sobre a nossa falta de conhecimento sobre como a nossa própria mente funciona. Segundo Harari, o corpo humano e todas as suas funções não passam de um algoritmo, como o de um programa de computador, uma série de substâncias que devem desempenhar determinada tarefa para manter o funcionamento do corpo, substâncias que não são controladas pela nossa vontade – não existe, assim, o tal livre arbítrio. A tristeza e a doença seriam apenas problemas técnicos do nosso corpo que poderiam ser resolvidas com um aprimoramento no nosso algoritmo, uma atualização.

Os algoritmos são, aliás, parte importante desse livro. Quando se concentra nos avanços tecnológicos, Harari afirma que o futuro do homem pode significar uma perda de controle sobre ele mesmo: algoritmos artificiais tomariam decisões melhores que nós mesmos, ou seja, é o Google ou o Facebook quem dariam a melhor resposta sobre se devemos casar ou comprar uma bicicleta, porque o algoritmo das máquinas teria uma capacidade de armazenamento e leitura de informações muito superiores aos nossos algoritmos orgânicos. Se hoje os celulares e seus aplicativos já são uma extensão do homem, que nos ajudam a nos comunicarmos melhor e nos orientarmos pela cidade, que já monitoram nossos passos, nosso sono e nossos batimentos cardíacos e oferecem informações detalhadas sobre o nosso corpo, em algumas dezenas de anos ele poderia muito bem controlar nossa vida inteira.

E por ter esse controle total sobre nossa vida, Harari diz também que a religião do futuro poderia muito bem ser o dataísmo: enquanto hoje, por mais que crenças milenares persistem, a “crença” mais adotada é o humanismo, onde o homem é o centro de tudo, e não um deus, e é ele quem toma todas as suas decisões. O homem é que é capaz de acabar com a doença, a fome, as guerras, e não um deus mágico que do céu nos observa e controla. Com o humanismo não precisamos rezar, apenas acreditar na nossa própria capacidade de fazer as coisas acontecerem. O dataísmo tiraria esse controle do homem: seríamos um amontoado de dados em um mar de informações, nossos dados definiriam quem somos no mundo e para onde vamos, quem não os fornecer estaria fora de uma nova organização social. Toda a nossa vida estaria armazenada em servidores. Pode parecer prático em alguns sentidos, mas também é uma ideia amedrontadora que uma empresa (novamente, Google e Facebook) teria total controle sobre nossas informações. Não existiria individualismo ou privacidade nesse cenário.

Claro, isso são só palpites, e não previsões. Harari ressalta isso várias vezes durante o livro, dizendo que hoje, com a rapidez que as coisas avançam, é praticamente impossível conseguir prever como o mundo será daqui a 100, 200 anos. Veja só como em sete anos tudo mudou tão rapidamente: com o Facebook, com o iPhone, coisas que antes fazíamos analogicamente (como olhar mapas impressos e anotar itinerários de ônibus) e que agora fazemos com a ajuda de um aparelho que nos orienta sem problema. Mas por mais que as coisas possam não acontecer da forma que Harari conta, não quer dizer que o livro seja inútil. Na verdade, Harari acredita que, se não acontecerem, será uma vitória. Porque sua ideia com Homo Deus é justamente colocar essas preocupações em pauta, levantar a discussão sobre que tipo de mundo podemos ter caso não pensarmos em todas as implicações éticas que nossos desejos e nossas pesquisar podem trazer. O homo sapiens não viverá para sempre, vamos ser extintos antes que o Sol morra, que nossa galáxia entre em colapso, se condense e vire mais um buraco negro no universo. Mas até lá, com a velocidade que as coisas acontecem, em que mundo queremos viver? O que vamos nos tornar?

“Quando chega o momento de optar entre crescimento econômico e estabilidade ecológica, políticos, executivos e eleitores sempre preferem o crescimento. No século XXI, teremos de fazer melhor do que isso se quisermos evitar a catástrofe.”

 

“Durante 4 bilhões de anos, a seleção natural vem fazendo ajustes e correções nesses corpos, de modo que passamos de amebas a répteis, a mamíferos e a sapiens. Contudo, não há motivo para pensar que sapiens seja o último estágio.”

 

“De acordo com o humanismo, as experiências ocorrem dentro de nós e devemos encontrar em nosso interior o significado de tudo o que acontece, impregnando desse modo o Universo de significado. Os dataístas acreditam que experiências não têm valor se não forem compartilhadas e que não precisamos – na verdade não podemos – encontrar significado em nosso interior.”

 

“Estamos nos empenhando para conceber, criar e fazer funcionar a internet de todas as coisas na esperança de que elas nos façam saudáveis, felizes e poderosos. Mas, depois de implementada e em funcionamento, poderemos ser reduzidos de engenheiros a chips, então a dados, e eventualmente nos dissolver na torrente de dados como um torrão de terra num rio caudaloso.”

Ps.: Ok, tentei fazer um resumão do livro aqui, mas como é muita informação e muita coisa a se pensar é óbvio que posso ter deixado algumas ideias pelo caminho. Então recomendo fortemente a leitura, é realmente um dos livros que mais me deixaram matutando esse ano.