r.izze.nhas

Resenhas e aleatoriedades literárias.

Menu Close

Paraíso e inferno, de Jón Kalman Stefánsson

paraiso-e-inferno“Pouco de nós se assemelha à luz. Estamos muito mais próximos da escuridão, somos quase escuridão, tudo o que temos são recordações, e a esperança que, seja como for, se desvaneceu, continua a se desvanecer e em breve se assemelha a uma estrela extinta, um rochedo escuro. No entanto, sabemos um pouco sobre a vida e um pouco sobre a morte, e conseguimos falar disso: fazemos todo este percurso para te tocar, e para concretizar o destino.”

A Islândia sempre esteve na minha lista de lugares a visitar. Por causa da neve, das montanhas, dos vulcões, do jeito de lugar inabitado, sem grandes prédios, onde a natureza é o que chama a atenção. O país tem cara de uma cidade de mentira, toda inventada, onde tudo parece de brinquedo ou antigo. Acho isso tudo bonito demais. Parece mágico. Mas a Islândia não é só beleza, ou melhor, justamente aquilo que é bonito pode ser traiçoeiro. E só parei para pensar nisso depois de ler Paraíso e inferno, de Jón Kalman Stefánsson, lançado neste ano no Brasil e traduzido direto do islandês por João Reis.

Paraíso e inferno acompanha a história de um jovem rapaz que acaba de perder seu melhor amigo. Pescadores de um pequeno vilarejo, Bárður e o menino, como o narrador se refere ao rapaz, são ávidos leitores. Enquanto seus colegas pescadores bebem, comem e conversam, os dois se retiram para um canto para ler e recitar poemas, comentar as obras antes de sair para mais uma pescaria no mar. Numa madrugada, quando os seis pescadores entram em seu pequeno barco no mar, Bárður, que estava concentrado tentando memorizar uma passagem de Paraíso perdido, percebe que esqueceu seu impermeável na cabana, e começa a sentir os efeitos do frio extremo. O menino se compadece do amigo, oferece o seu casaco, mas Bárður recusa. Os outros pescadores não parecem se importar tanto com isso. Com a chegada de uma inesperada tempestade, o frio fica mais intenso e Bárður morre.

Ao retornar para o vilarejo com o corpo do amigo, o menino cai em profunda tristeza. Ele tem raiva dos outros pescadores que não parecem sofrer como ele com a morte de Bárður. A insensibilidade que observa torna o lugar impossível de permanecer, e apesar do frio e das poucas provisões, decide sair do vilarejo e devolver o exemplar de Paraíso perdido ao seu dono, morador de outra vila. Seu plano é, depois de devolver o que Bárður pegou emprestado, tirar a própria vida. A cólera que sente é tão grande que o menino deixa de ver sentido nas leituras, na sua ocupação como pescador, no lugar em que vive.

“Há força nos doze braços experientes, mas o barco mal parece ter se mexido, as ondas reviram por toda a sua volta, não há nelas violência, mas são, ainda assim, grandes e impedem qualquer tipo de visão, há um oceano nessas ondas e o barco é apenas um pedaço de maneira, e os homens sentam na madeira e confiam em Deus. Bárdur e o menino, no entanto, não confiam tanto quanto os demais. São jovens e já leram o suficiente sem necessidade, seus corações bombeiam mais incertezas do que o dos outros, e não apenas sobre Deus, porque o menino também não tem certeza sobe a vida, mas em especial sobre ele mesmo na vida, sobre seu propósito.”

Stefánsson narra a consequente perda da fé do menino. Diferente dos outros pescadores, ele e Bárður não viam a vida com tanta simplicidade. Não engoliam as explicações fáceis sobre o mundo, como uma origem divina ou um remédio milagroso. Os personagens buscavam nos livros que liam um entendimento sobre a vida que não era facilmente alcançável, e isso os tornava bem diferentes daqueles com quem conviviam.

As leituras de Bárdur e o menino não são vistas com bons olhos pelas outras pessoas do vilarejo. Apreciar grandes mestres da literatura não faz parte do cotidiano dos homens com quem dividem o barco. Ler não ensina a pescar melhor, ou ajuda a escapar do frio, logo não tem serventia. Esses homens procuram praticidade, jogam suas angústias e crenças em um ser divino que lhes explica a vida, enquanto Bárdur e o menino buscam ir além, não engolem com facilidade as coisas que têm explicação fácil. E por isso se enfurnam nos livros, decoram poemas, buscam atingir algum tipo de iluminação através da literatura que lhes indique o que é o homem, o que é estar vivo. Por isso, o próprio menino tem conhecimento do quanto eles não se encaixam naquele lugar e naquelas pessoas. E depois que seu amigo morre, não tem por que ele permanecer lá.

“Dificilmente há algo tão bonito quanto o mar em dias bons, ou em noites límpidas, quando sonha e o brilho da lua é o seu sonho. Mas o mar não é nada bonito, e nós o odiamos mais que qualquer outra coisa quando as ondas se erguem dezenas de metros acima do barco, quando o mar rebenta sobre ele e, independentemente do quanto acenamos, invoquemos Deus e Jesus, nos afoga como cachorrinhos desgraçados. Então, todos são iguais. Sacanas desgraçados e homens bons, gigantes vagarosos, os felizes e os tristes. Há gritos, alguns gestos frenéticos, e depois é como se nunca tivéssemos estado aqui, o cadáver afunda, o sangue no seu interior esfria, as recordações desaparecem, os peixes se aproximam e mordiscam os lábios que foram beijados ontem e disseram as palavras que significavam tudo, mordiscam os ombros que transportaram o filho mais novo, e os olhos já não veem, estão no fundo do oceano.”

A natureza é parte importante da história, e Stefánsson escreve sobre a relação do homem com a natureza com muito respeito. Ela é bonita e inigualável, o que garante o sustento da vida daquelas pessoas. Mas também é traiçoeira, tira vidas e qualquer descuido pode causar o seu fim. É o paraíso e, ao mesmo tempo, o inferno. A neve que cai, as montanhas, o vento, o mar gelado, as ondas, aquilo que confere beleza ao mundo e sustento da vida não pode ser subestimada. O menino, ao refletir sobre a paisagem da Islândia e seu aspecto sombrio, descreve tudo com um olhar maravilhado e horrorizado.

Não é só a natureza quem desempenha papel importante no livro. Setefánsson faz de Paraíso e inferno um relato sobre o luto, sobre a vida que existe após a perda de alguém querido. O menino parte em sua jornada tão triste e cansado que aos poucos vai perdendo a própria vontade de viver. Ele pensa, na verdade, que o melhor jeito de demonstrar sua dor pela perda de Bárður é desistir da própria existência. Porém, conforme ele chega a seu destino e se relaciona com as outras pessoas, vai, aos poucos, readquirindo sua vontade de viver.

E aí o menino passa a sentir culpa. Toda vez que se pega pensando em algo alegre, algo que não seja a morte de Bárður, ele se martiriza. É como se não estivesse sendo um bom amigo, como se não estivesse sofrendo o bastante por ele. A alegria não deveria existir num mundo sem Bárður, logo ele não poderia passar a ter esperanças sobre uma existência feliz. Mas ele encontra um lar confortável, ele começa a se interessar por uma garota que, no lugar do amigo morto, ocupa a sua mente, e aos poucos recupera a vontade de estar vivo, mesmo que internamente ainda se sinta incompleto sem a presença de Bárður.

“As lágrimas aliviam a dor e são boas, mas, ainda assim, não são o suficiente. Não é possível unir as lágrimas e depois deixá-las afundarem como uma corda brilhante na profundeza escura e puxar para fora aqueles que morreram mas que deveriam viver.”

Amor, luto, amizade, natureza, neste que é o primeiro livro de uma trilogia, Jón Kalman Stefánsson narra com simplicidade a vida e as dores de pessoas que vivem num lugar remoto. É bonita a maneira como, lentamente, o menino vai deixando a tristeza de lado e percebendo como são e vivem as pessoas ao seu redor, reacendendo sua vontade de estar com elas. Paraíso e inferno pode parecer, em alguns momentos, sentimental e poético demais, muito romântico, mas é um lembrete de que essas coisas fazem parte da vida, que é possível enxergar beleza num mundo cheio de desafios e perdas.

“Não, não é possível compreender o amor. Nunca chegamos ao cerne dele. Vivemos com alguém e somos felizes, há crianças, serões sossegados e muitos acontecimentos bastante vulgares, mas bons, por vezes pequenas aventuras, e nós pensamos: é assim que a vida deveria ser. Então, conhecemos outra pessoa, a única coisa que aconteceu talvez seja ela piscar o olho e dizer algo perfeitamente normal, no entanto, estamos acabados, completamente indefesos, o coração bate, incha, tudo cai exceto essa pessoa, e alguns meses ou anos depois, começaram a viver juntos, o antigo mundo desapareceu mas um novo surge, por vezes, um mundo precisa morrer para que outro possa existir.”