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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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A filha perdida, de Elena Ferrante

a-filha-perdidaUma mulher de meia-idade, professora, deixa a cidade para passar as férias no litoral do sul da Itália. Leda está livre das obrigações de mãe. Suas duas filhas, já crescidas, vivem perto do pai em Toronto, no Canadá. As preocupações atuais de Leda são o trabalho e, agora, encontrar um lugar confortável nas areias de uma praia tranquila para ler e revisar seus estudos. Momentos que são interrompidos pelas lembranças da própria maternidade desencadeadas pela presença de uma jovem mulher e sua filha acompanhadas da barulhenta família, pessoas que também transportam a narradora para a sua juventude em Nápoles.

A filha perdida, de Elena Ferrante (tradução de Marcello Lino), apresenta vários elementos que encontramos na tetralogia napolitana – o livro foi lançado anteriormente aos da série. Temos neste livro uma narradora que saiu de um lugar onde reina a violência e a ignorância e conseguiu se estabelecer em um ambiente intelectual, assim como faz Lenu a partir do segundo livro da série, História do novo sobrenome. Conforme Leda desenvolve seu relato sobre os dias naquela praia, suas experiências se encontram com aquelas que Lenu começa a vivenciar no terceiro livro, História de quem foge e de quem fica, principalmente quando fala da maternidade, do cansaço de manter um trabalho e uma casa, dos anseios de uma mulher que quer ser reconhecida pela inteligência e pelo trabalho, e não se resumir ao papel de mãe. É como se o curto romance fosse um pequeno ensaio do que seriam seus livros de maior sucesso.

“- Às vezes, precisamos fugir para não morrer.”

As personagens de Ferrante estão angustiadas com a maternidade. É assim com Lenu na tetralogia, com Olga em Dias de abandono e com Leda. Na praia, ao observar Nina com a pequena Elena enquanto brincam com uma boneca suja, Leda sente uma conexão com as duas pela maneira que elas parecem destoar da família. Enquanto os parentes gritam, falam em dialeto, exageram nos gestos e causam asco na narradora por conta de sua vulgaridade, Nina esbanja elegância, como se, assim como ela, ela não pertencesse a eles e ao lugar de onde veio. Mas há também uma incompreensão por parte de Leda sobre as duas: como mãe e filha são capazes de demonstrar cuidados e carinhos uma a outra – Nina em Elena, Elena na boneca –, evocando um comportamento de mãe que a professora pensa nunca ter tido.

Sem parar para pensar com profundidade em seus motivos, Leda se aproxima de Nina e Elena ao roubar a boneca, causando choro convulsivo na menina e comoção em toda a praia. Fato que, claro, ela esconde ao se mostrar prestativa em encontrar o brinquedo perdido. Se agora ela está livre da criação de suas duas filhas, Leda não consegue desviar daquilo que a atrai nessa nova gente. Cada vez mais ela vai se embrenhando na história de Nina, descobre seus segredos, oferece a ela e sua filha uma dedicação de amiga de longa data. Leda não diz isso, mas a impressão que passa é de querer “salvar” Nina de uma amargura que ela provavelmente notaria apenas com o passar do tempo, quando já seria tarde demais – todas as suas energias sugadas pela criação de Elena, em um casamento com um homem mais velho que parece favorecer aos desejos financeiros de sua família e não ao que ela realmente quer, ou ao que realmente pode ser na vida.

Além do segredo do roubo da boneca, Leda guarda outra informação do leitor, algo que jogará como uma bomba em uma conversa casual com seus “parceiros” de praia: o abandono de suas próprias filhas quando ainda eram pequenas. Presa aos afazeres da casa, cansada das necessidades de suas filhas e todas as exigências que uma mãe tem que aguentar, Leda deixou o marido e as meninas e foi embora durante anos, sem se despedir. O retorno, depois desse tempo, afetou o relacionamento dela com as filhas, partes importantes de suas vidas ficaram obscuras para ela, momentos em que o marido não aguentou sozinho – como era de se esperar – a criação das meninas e deixou-as com a avó materna, de quem Leda queria que ficassem afastadas para não pegar os trejeitos do lugar onde cresceu. Mas ao tentar falar e explicar o motivo do abandono, todos agiam como se nada tivesse acontecido, como se uma mulher não pudesse demonstrar que a maternidade não é o paraíso que sempre prometem, a única razão de viver de uma mulher.

Ferrante apresenta tudo isso como divagações da narradora sobre o papel da mulher. Cuidar dos filhos, ser discreta, ser prestativa, manter a casa limpa, dedicar seus dias ao marido e às crianças, aguardar a chegada do homem, estar sempre agradecida. Aparências que ela nunca conseguiu manter e que agora observa ser a mesma condição em que Nina vive. Em A filha perdida, assim como nos outros livros de Ferrante, a narradora enfrenta esse papel de maneira lúcida. Não são mulheres surtando por nada, não são exageros de uma mente feminina ociosa, mas são pessoas que não querem perder a identidade que construíram só porque agora são mães.

Elena Ferrante consegue expressar de forma clara e mordaz aquilo que ainda hoje evita-se falar abertamente para evitar julgamentos: o cansaço, o desespero, a falta de amor incondicional pelos filhos. Leda não é uma mulher insensível, apenas realista. Ela enxerga os defeitos das filhas como se fossem reflexos de seus próprios defeitos, reconhece seus erros e sabe que ser mãe não a transforma jamais em uma santa. Antes de ser mãe ela é Leda, a mulher que cresceu em Nápoles, que tem uma carreira acadêmica e que fez a sua própria história.

“Que bobagem é pensar que é possível falar de si mesmo aos filhos antes que eles tenham pelo menos cinquenta anos. Querer ser vista por eles como uma pessoa e não como uma função. Dizer: sou sua história, vocês começam comigo, escutem, pode ser útil.”

“O corpo de uma mulher faz mil coisas diferentes, dá duro, corre, estuda, fantasia, inventa, se esgota, enquanto isso, os seios crescem, os lábios do sexo incham, a carne pulsa com uma vida redonda que é sua, a sua vida, mas que empurra você para longe, não lhe dá atenção, embora habite sua barriga, alegre e pesada, desfrutada como um impulso voraz e, todavia, repulsiva como o enxerto de um inseto venenoso em uma veia.”