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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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O homem sem doença, de Arnon Grunberg

o-homem-sem-doencaSamarendra Ambani é suíço. Seu nome e aparência podem sugerir que não. Mas ele é suíço, logo ele é neutro e não desperta ameaças. Sam, como é conhecido, é arquiteto, filho de pai indiano e mãe suíça. Nasceu em Zurique. Tem uma namorada que pretende pedir em casamento e mora com a mãe e a irmã mais nova, debilitada por uma rara síndrome. Os pais não quiseram gastar com um tratamento arriscado que poderia dar a ela uma vida quase normal. Não tinham muito dinheiro, não queriam deixar a Suíça. Mas Sam quer algum dia poder pagar para que ela possa se recuperar, para que a irmã possa parar de desejar sua própria morte. Ao contrário da irmã, Sam é saudável. Nunca fica doente, nunca cai de cama.

É pensando na irmã que Sam se inscreve para um concurso: construir um teatro de ópera em Bagdá, no Iraque. Seu sócio não quis entrar na empreitada, então Sam resolve fazer o projeto sozinho. Finalista do concurso, ele é convidado a viajar até Bagdá para conhecer o local onde o teatro será construído. Sam aceita fazer a viagem, apesar das preocupações da namorada e da mãe: Bagdá não é mais perigosa, os ataques foram contidos, ele terá seguranças à disposição e estará em boas mãos. Não é bem isso o que acontece.

O homem sem doença é o segundo livro do holandês Arnon Grunberg lançado pela Rádio Londres (tradução de Mariângela Guimarães). Se em Tirza ele narrou o drama familiar protagonizado por um homem de meia idade e sua relação com a filha mais nova, aqui ele apresenta um jovem talento da arquitetura beirando os 30 anos e sua relação com a própria identidade. Mas duas coisas os romances do autor têm em comum: a fachada de “bom-moço” de seus protagonistas e o otimismo doentio que eles carregam, como se a civilidade exacerbada que exalam fosse dar um jeito em todos os problemas.

“Mais que sua aparência indiana, que, de vez em quando, provoque equívocos – certa vez um homem falava num café sobre o perigo amarelo e, ao fazê-lo, olhou explicitamente para Sam –, é a ausência de doença que constitui o fundamento de sua identidade. Ele não precisa de uma cadeira de rodas ou de cuidados permanentes, ele é senhor e mestre de seu próprio corpo. Assim, ele foi primeiro a criança, depois o garoto e agora o homem sem doença. Não importa o que mais é ou será, ele é antes de tudo saudável, psíquica e fisicamente.”

O problema de Samarendra é um mal-entendido. Confundindo com algum tipo de terrorista ou informante, ele é mantido refém em Bagdá, sofre torturas, humilhações, não consegue convencer seus captores de que 1- não é terrorista e 2- apesar de seu nome e aparência, ele é suíço, arquiteto, está em Bagdá apenas para projetar um teatro de ópera. Ele repete isso exaustivamente, acreditando de forma ingênua que sua identidade será levada em conta, que a qualquer hora os sequestradores irão se convencer de que estão tratando com um homem que veio da “civilização”, um sujeito direito, que paga suas contas em dia, que projeta coisas bonitas para as pessoas visitarem ou viverem, e aí será solto e receberá uma chuva de desculpas. Claro que isso não acontece. Depois de semanas preso, finalmente é libertado com a ajuda da embaixada suíça no Iraque, volta para casa e tem um pequeno momento de fama ao ser entrevistado por pequenas emissoras sobre sua experiência como cativo. A fama seria maior não fosse sua aparência e nome indiano, que não desperta lá muita simpatia no civilizado povo suíço.

A graça de O homem sem doença é a forma que Grunberg faz seu personagem reagir às adversidades. Sam é respeitoso, é limpo, tem dinheiro, não deseja o mal dos outros, quer contribuir com o mundo através da arquitetura, quer trabalhar de forma inclusiva, enxerga na profissão uma função social e quer honrá-la. Quando se vê em uma situação adversa, Sam não sobe o tom: quer discutir com educação, sem ofender seus captores, repetindo a si mesmo que tudo dará certo, pessoas vão procurar por ele e ajudá-lo. Porque ele nunca fez nada errado. Mas claro que há algo de errado em Sam, assim como havia no protagonista de Tirza.

Isso começa a aparecer com mais clareza quando viaja, meses depois, a Dubai. Seu novo projeto é uma biblioteca no deserto que – ninguém explica os motivos – abriga em seu subsolo um bunker. E o previsível acontece novamente: Sam é preso pelas autoridades de Dubai por transportar bebida alcóolica, proibida no país. E desse pequeno delito novamente é confrontado com as acusações de ser terrorista. Sam não poderia ser tão azarado, tão descuidado. Claro que ele não é. No final, não era Sam quem estava sendo injustiçado, mas sim o próprio leitor. Ao centrar toda a narração no ponto de vista de Sam, Arnon Grunberg te faz acreditar no protagonista, tomar as dores dele para, nas últimas páginas, revelar que não era bem assim. Que “o homem sem doença”, toda a sua civilidade, era apenas uma fachada. Uma fachada tão bem construída que convencia ao próprio protagonista.

Grunberg não chega a deixar isso tão claro. Ao fim de O homem sem doença, permanece certa dúvida sobre o que é real e o que não é. Se Sam é o que dizem ser ou se ele apenas internalizou as acusações contra ele. De uma forma ou de outra, o romance de Grunberg é uma leitura que arranca risos nervosos.

“Ela tinha dito ‘Eu quero morrer’, mas Sam responde: ‘Ela quer comer’. Depois disso, ele foi rapidamente para dentro e ligou o som. Carmen, não muito alto, por causa dos vizinhos, mas com volume suficiente para encobrir a voz da irmã doente – ninguém devia ouvir que ela queria morrer.”