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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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História da sua vida e outros contos, de Ted Chiang

HistoriaDaSuaVidaGEsse é um daqueles raros casos em que fiquei com muita vontade de ler o livro depois de ver o filme. Quando saí da sessão de A chegada, queria conhecer tanto a história original quanto os outros contos de Ted Chiang – a ideia toda apresentada no filme me pareceu legal demais para me contentar só com o audiovisual. Claro que as indicações de pessoas cujo gosto literário eu confio também ajudaram na decisão de ler Chiang, assim como algumas entrevistas do próprio autor – ele parece ser um daqueles caras de boas que não quer muita atenção, só fazer seu trabalho e escrever uns textos fictícios vez ou outra, gosto desse pessoal.

Por conta disso, comecei a leitura de História da sua vida e outros contos com as expectativas mais altas (a tradução lançada pela Intrínseca é de Edmundo Barreiros). Quem me conhece sabe que sou contra esse negócio de cultivar expectativas positivas sobre qualquer coisa, porque a decepção é quase certa. Mas não foi assim com Ted Chiang. Os contos são bons. Assim, bem bons.

Por isso resolvi dividir essa resenha pela ordem dos contos no livro, acho que cada história merece ser lida e gostaria de falar o máximo que conseguir sobre elas. Lá vai.

“A torre da Babilônia”

“Os sacerdotes fizeram uma oração a Javé; deram graças por terem recebido a permissão de ver tanto, e imploraram perdão por seu desejo de ver mais.”

Essa frase resume bem o espírito do conto – e os avanços da humanidade, de certa forma. O povo da Babilônia está há séculos construindo uma torre gigantesca para chegar à abóbada do céu. O objetivo é conhecer a morada de Javé, o criador do mundo. Hillallum, um mineiro que faz parte da equipe que vai escavar a abóbada, se pergunta, enquanto sobe pela torre, se isso é certo. Javé realmente quer que suas criações atinjam o sagrado? Adentrar nesse lugar alto e divino não seria perigoso, podendo desencadear eventos desastrosos para os humanos por despertar a fúria de Javé? Mesmo se Hillallum tivesse as respostas para essas perguntas, nem Javé seria capaz de segurar a curiosidade do homem. E é por ser curioso que Hillallum, os construtores da torre e as pessoas que vivem nela embarcam nessa aventura em busca do desconhecido.

“A torre da Babilônia” pode parecer mais fantasia que ficção científica, e achei interessante que uma coletânea de contos como essa comece justamente assim, trazendo um viés religioso. Porque crenças religiosas, hoje, são tomadas muitas vezes por histórias fantasiosas, fábulas criadas para explicar coisas que antes não tinham explicação. Como o autor afirmou numa entrevista, não quer dizer que quem acreditou nessas histórias era louco ou ingênuo, apenas que a humanidade viveu por tanto tempo na “escuridão” que ela se virava para explicar o mundo com aquilo que tinha. Contos como esse – que vão se repetir ao longo do livro – são a visão de Chiang de um mundo onde a ciência comprova a existência de Deus.

É por isso que o conto pode causar certo estranhamento. Você espera que a qualquer frase Hillallum descubra que não há fim, que a torre nunca atinja o céu, há apenas escuridão, falta de oxigênio e estrelas longe demais para serem alcançadas. Mas não é o que acontece. Conforme sobe, Hillallum vai passando pelo Sol, pela Lua, por estrelas, o vento se intensifica e o mundo parece estar de cabeça para baixo. O bacana neste conto é a forma que Chiang explora uma crença sem deixar de lado o aspecto científico – pois o desfecho desse conto é puramente matemático –, mostrando como seria o mundo se os mitos e lendas fossem a nossa realidade.

“Entenda”

“E aqui estou eu, com pessoas, pessoas por toda parte, e ainda assim não tenho com quem interagir. Sou apenas uma fração do que um indivíduo completo com minha inteligência poderia ser.”

O segundo conto, “Entenda”, tem um plot até que bem familiar – eu, pelo menos, conheço dois filmes com temática parecida. Após um acidente, um homem é tratado com um hormônio que regenera neurônios danificados. Além de recuperar todos os seus movimentos, o hormônio dá sinais de ter um impressionante efeito colateral: dotar as pessoas de inteligência acima da média. Agora, Leon é capaz de acessar lugares do cérebro antes adormecidos, desenvolvendo rapidamente seu raciocínio. É como se o homem adquirisse consciência plena de sua mente e capacidades, conseguindo antecipar todo o tipo de movimento e pensamento.

Conforme é testado pelos médicos, Leon nota de que sua capacidade mental oferece riscos para sua sobrevivência – organizações militares e federais podem querer usá-lo para estudar as implicações das drogas e aplicá-las em seus agentes e soldados, por exemplo. Mas Leon não quer compactuar com isso, então foge para escapar dos interesses balísticos e comerciais da droga que o curou.

É aí que Chiang apresenta o aspecto mais humano dessa história: conforme se isola, Leon experimenta uma solidão extrema. Pois por pensar mais rápido e além que qualquer outra pessoa, ele perde a conexão que antes tinha com gente “comum”, sente que ninguém é capaz de entender seu raciocínio e, logo, de entendê-lo. “Entenda” vai ficando mais intrincado conforme a mente de Leon se desenvolve, a ponto de o leitor ter um pouco de dificuldade de compreender exatamente o que ele está planejando. Principalmente quando outra pessoa tratada com o tal hormônio surge, alguém com intenções bem diferentes que as de Leon.

 “Divisão por zero”

“Ele, como muitos, sempre pensara que o significado da matemática não era derivada do universo, mas, em vez disso, impunha algum sentido ao universo.

Entidades físicas não eram maiores nem menores umas que as outras, nem parecidas ou diferentes, elas simplesmente eram, existiam. A matemática era totalmente independente, mas virtualmente fornecia um significado semântico para essas entidades, estabelecendo categorias e relações. Ela não descrevia nenhuma qualidade intrínseca, apenas uma interpretação possível.”

“Divisão por zero” deve ser um dos contos mais difíceis de História da sua vida e outros contos. Isso porque as teorias matemáticas descritas no texto parecem incompreensíveis para quem não entende a matéria – o que é o meu caso. Narrado em três pontos de vista diferentes, o conto começa com a saída de Renee, renomada matemática, de uma clínica psiquiátrica após uma tentativa de suicídio. Ela é assistida pelo marido, Carl, que também já havia tentado se matar. Enquanto apresenta brevemente as teorias matemáticas e como elas se desenvolveram, Chiang mostra como Renee se sente em relação ao trabalho e ao relacionamento e como Carl tenta lidar com a instabilidade da mulher, tentando entender o que causou sua crise.

A estrutura do conto é fácil de pegar: matemática, Renee, Carl, matemática, Renee, Carl… Mas o que todo esse papo sobre números, teorias, fórmulas e afins tem a ver com o casamento de Renee e Carl? Bem, os números estão aí justamente para explicar o fim do amor e a separação do casal.

“História da sua vida”

“E era necessário saber os estados inicial e final para alcançar esse objetivo; era conhecer os efeitos antes do início das causas.

Eu estava começando a entender isso também.”

“História da sua vida” é o conto que inspirou A chegada, então a trama já era familiar. A diferença aqui é que me concentrei muito mais nas descobertas de Louise, professora contratada para desvendar a linguagem dos visitantes alienígenas, provavelmente porque não há aquele estímulo visual dos filmes que às vezes te tira a atenção para o que está sendo dito.

O conto todo é narrado por Louise, como no filme, alternando o encontro com os heptápodes e suas descobertas linguísticas com um relato dirigido à sua filha sobre como será a sua vida. Se já não conhecesse a história, provavelmente estranharia o tempo utilizado pela narradora, com ela falando do passado e do futuro como se fossem a mesma coisa. Mas é justamente essa a sua maior descoberta sobre os alienígenas: eles não pensam de forma linear, com começo, meio e fim, ligando ação com consequência. Eles enxergam o todo, aquilo que aconteceu e aquilo que ainda vai acontecer. Característica que define a própria linguagem que Louise deve traduzir para descobrir o que eles querem ao visitar a Terra.

Mas não importa aqui os motivos dos heptápodes: diferente do filme, eles vão embora sem dizer para o que vieram. O que interessa é justamente o que acontece com Louise. Não é que ela magicamente começa a ver o futuro; ela vai desenvolvendo uma linha de raciocínio igual a dos heptápodes, e por isso se torna capaz de enxergar sua vida toda – ou pelo menos as partes mais importantes dela. E ao adquirir essa habilidade de reprogramar a maneira com que sua mente percebe o tempo ela é capaz de entender como a linguagem dos alienígenas funciona. Não há aqui um conflito real, uma tentativa de guerra ou ataque, aqueles momentos de tensão colocados no filme, é apenas uma mulher contando sua vida e aquilo que descobriu.

“A existência do livre-arbítrio vai resultar em nossa incapacidade de ver o futuro. E sabíamos da existência do livre-arbítrio porque tínhamos experiência direta com ele. A vontade era parte intrínseca da consciência.

Era mesmo? E se a experiência de conhecer o futuro mudasse uma pessoa? E se evocasse um sentido de urgência, um sentido de obrigação de agir de modo que sabia que agiria?”

Outro ponto interessante do conto é essa reflexão que a narradora faz sobre o livre-arbítrio. Chiang não fala de “destino”, algo que já estava escrito em algum lugar dizendo o que Louise deveria fazer. Ela ainda tem escolhas, ela não é uma marionete do destino. Também não é uma história sobre mudar aquilo que está predestinado – pois Louise não tenta mudar nada, ela sabe a tragédia pessoal que lhe aguarda, mas sequer pensa em evitá-la. Aceitá-la, da mesma maneira, também não é um sacrifício. É apenas a vida, com suas coisas boas e ruins. A sensação que eu tive é que ela age como quando temos um pequeno déjà vu, e seguimos fazendo aquilo que temos a impressão de já ter feito antes.

A coisa mais legal de “História da sua vida” é imaginar como vidas diferentes podem enxergar o espaço-tempo de forma diferente. Como Louise explica nesse trecho:

“Quando os ancestrais de humanos e heptápodes adquiriram a centelha de consciência, os dois perceberam o mesmo mundo físico, mas analisaram suas percepções de maneira diferente: as visões de mundo que depois surgiram foram o resultado final daquela divergência. Humanos haviam desenvolvido um modo sequencial de consciência, enquanto os heptápodes tinham desenvolvido um modo simultâneo de consciência. Nós vivenciamos os acontecimentos em uma ordem e percebemos sua relação como causa e efeito. Os heptápodes vivenciavam todos os acontecimentos ao mesmo tempo, e percebiam um propósito essencial a todos eles. Um propósito minimizador, maximizador.”

Leal, né? Não preciso nem dizer que amei demais esse conto.

“Setenta e duas letras”

“Setenta e duas letras” é mais uma história de “ciência alternativa”, e chega a ser perturbador. Nele os avanços tecnológicos são todos alcançados através da nomenclatura: humanos criam autômatos para trabalharem em serviços simples e braçais, e o movimento lhes é atribuído a partir do momento em que recebem um nome. Assim há autômatos para lavar, passar, fazer compras, cortar a grama etc., trabalhos simples facilitados por um homem de barro ou de ferro. Mas Straton, um nomenclador que desde pequeno brincava de “criar vida”, conseguiu dar habilidades motoras mais desenvolvidas para seus autômatos, o que levanta a discussão sobre a possibilidade dos autômatos “roubarem” os empregos dos homens. Mas a invenção de Straton também chama a atenção de outras pessoas, e ele é recrutado por um homem rico para ajudar em um projeto secreto.

Cientistas descobrem que em cinco gerações a espécie humana deixará de existir. Isso porque, analisando os espermatozoides desses próximos homens, os últimos não serão mais férteis – aqui Chiang trabalha com ideias científicas primitivas, onde espermatozoides poderiam ser desenvolvidos até crescerem e tomarem forma humanoide, veja bem. A ciência em voga neste conto é a que diz que todo o futuro do homem já está definido em seu âmago, você poderia saber, analisando os órgãos reprodutivos, como seus descendentes seriam.

Para evitar a extinção da humanidade, esse rico investidor que contrata Straton quer gerar fetos a partir de óvulos usando a nomenclatura, tornando possível a reprodução humana sem a participação do homem. Conforme Straton avança em sua pesquisa, ele descobre as verdadeiras intenções de seu financiador: segregar as classes sociais controlando a reprodução dos mais pobres e favorecendo os ricos. Straton quer dar uma vida melhor a todos através de sua invenção, e não separar ainda mais a sociedade. Ele não compactua com a ideia de que os menos afortunados sejam menos humanos, menos inteligentes, menos saudáveis.

O conto tem um clima steampunk, com sua ciência desenvolvida a partir de máquinas estranhas e de crenças que, hoje, seriam infundadas. Mas é aí mesmo que está a grande graça de Ted Chiang: ele estuda as possibilidades, mostra ao leitor que até onde poderíamos chegar se as coisas fossem desse jeito.

“A evolução da ciência humana”

“Faz vinte e cinco anos desde a última vez que uma reportagem sobre uma pesquisa original foi submetida aos nossos editores para publicação, fazendo deste um momento apropriado para revisitar a questão que foi tão amplamente debatida na época: qual é o papel dos cientistas humanos em uma era em que as fronteiras da investigação científica se deslocaram para além da compreensão humana?”

É assim que começa “A evolução da ciência humana”, um conto bem curto e muito interessante. Num futuro próximo, o homem criou pessoas com capacidade mental aprimorada. As descobertas feitas por esses “meta-humanos” – que, aliás, se comunicam via transmissão de dados – superam e muito os estudos dos humanos. Assim, cientistas largam seus trabalhos por não serem capazes de compreender as pesquisas feitas pelos meta-humanos, seus estudos se tornam obsoletos depois que as criaturas superam os criadores. Essa história me remeteu muito a Homo Deus, do Yuval Noah Harari, pelas consequências que as descobertas e avanços do próprio homem podem trazer para a sua sobrevivência – ou pelo menos para a sobrevivência de suas profissões.

“Devemos sempre nos lembrar de que as tecnologias que tornaram os meta-humanos viáveis foram originalmente inventadas por humanos, e eles não eram mais inteligentes que nós.”

“O Inferno é a ausência de Deus”

Este é um dos textos mais interessantes de toda a coletânea. Como no primeiro, a existência de Deus aqui é um fato. Mas ao contrário de “A torre da Babilônia”, onde existe constante dúvida sobre o que Deus (no caso, Javé) reserva para o homem, aqui a população tem constantes vislumbres do Paraíso e do Inferno e são visitados regularmente por anjos – visitas que se assemelham a grandes catástrofes naturais.

Neil perde sua esposa para um desses eventos. Atingida por estilhaços de vidro após a aparição de um anjo, ela sangra até a morte e é admitida no Céu. Mas Neil nunca foi devoto. Ele sempre se contentou em ir para o Inferno, porque o Inferno aqui não significa dor e sofrimento: pelo que pôde ver, a morada do capeta não passa de uma outra versão da Terra. Não tem gritos, pessoas queimando ou sendo empaladas com um tridente. Porém, com a ida da esposa para o Céu, Neil passa a repensar sua falta de devoção. Ele quer reencontrá-la após a morte, e a única forma disso acontecer é se ele for para o Céu também. Mas Neil sente raiva demais de Deus para passar a amá-lo de uma hora para outra e ser admitido em sua morada. É um dilema que ele enfrenta, e por isso busca ajuda em grupos de apoio de pessoas que também receberam a visita de anjos ou que foram atingidos de alguma forma por suas aparições.

“Ele achava a perspectiva de prosseguir com sua vida, tentando amar a Deus, cada vez mais enlouquecedora. Podia tentar por décadas e não conseguir. Talvez nem tivesse esse tempo; como lhe tinha sido lembrado com tanta frequência ultimamente, aparições serviam como um alerta para preparar sua alma, porque a morte podia chegar a qualquer instante. Ele podia morrer amanhã, e não havia chance de se tornar devoto em um futuro próximo pelos meios convencionais.”

O caminho de Neil cruza com outras duas pessoas que procuram respostas para as aparições que viram: uma mulher com deformações nas duas pernas que ganha a vida como uma espécie de palestrante motivacional recupera os movimentos após uma aparição, e agora se sente confusa sobre seu papel na Terra. Já um homem que sempre teve tudo na vida fica em dúvida sobre o motivo de ter visto um anjo, sendo que não sente mudança alguma após a visita. De uma forma ou de outra, os três têm grandes questões a resolver com Deus para entenderem a sua fé.

É um conto muito bem construído sobre a relação das pessoas com o amor e suas crenças. Apesar de existir realmente, Deus não revela aos homens o que espera deles. Eles podem ser devotos por toda a vida e irem para o Inferno, podem ser assassinos sanguinários e receberem o perdão no último minuto e irem para o Céu – gerando indignação daqueles que estão na Terra. Neil, nesse meio, é mais uma pessoa se debatendo com o desejo de reencontrar seu grande amor, mas incapaz de compreender como as pessoas conseguem amar um ser poderoso que é cruel sem motivos.

“Gostando do que vê: um documentário”

“A evolução nos deu um circuito que responde à boa aparência – podem chamá-lo de receptor de prazer de nosso córtex visual – e, em nosso ambiente natural, isso era útil. Mas peguem uma pessoa com pele bonita e estrutura óssea rara, acrescentem uma maquiagem e retoques profissionais, e você não está mais olhando para a beleza em sua forma natural. Você tem beleza de nível farmacêutico, a cocaína da boa aparência.”

“Gostando do que vê: um documentário” é um conto que também aborda questões éticas muito interessantes. Um grupo de estudantes da universidade de Pembleton está fazendo campanha para aprovar o uso obrigatório da caliagnosia no campus. A cali, como é chamada, consiste num processo de “desligar” os receptores neurais que reconhecem a beleza em rostos humanos, criada com o objetivo de igualar interações sociais entre as pessoas para que elas não sejam julgadas por sua beleza – ou falta de. Estruturado justamente como um documentário, acompanhamos opiniões contra e a favor da cali, relatos de estudiosos, professores e, principalmente, pessoas comuns que já tiveram cali ou não.

Ted Chiang propõe uma grande discussão ética aqui. É verdade que nos deixamos levar muito pelas aparências, tendemos a ser mais simpáticos com quem nos agrada esteticamente. A cali surge justamente para igualar as pessoas, ou pelo menos esse é o seu principal discurso. Ninguém terá tratamento diferente por ser bonito ou feio. Outra questão é que neste mundo somos constantemente bombardeados com publicidade que abusa de estímulos para conquistar o consumidor, criando padrões de beleza impossíveis de alcançar no mundo real e expectativas que jamais serão atingidas. A cali seria uma forma de bloquear esses estímulos, de não se deixar seduzir pela beleza artificial das propagandas. Mas mesmo assim, ligar a cali seria o correto? Não é melhor saber por conta própria que certos padrões de beleza são irreais? Aprender com a maturidade que, apesar de bonita, uma pessoa não é necessariamente mais capaz que a outra?

“Este é apenas o último exemplo de como o politicamente correto saiu dos trilhos. As pessoas que defendem a cali são bem-intencionadas, mas o que estão fazendo é nos infantilizar.”

Eu, Taize, seria contra a cali, mas o próprio autor fala no final do livro, quando comenta suas ideias, que se a cali fosse possível ele provavelmente aderiria. Mas ele não deixa de ser crítico à própria ideia: quando outros tipos de agnosia surgem, seus personagens entendem que elas podem gerar mais conflitos entre as pessoas que entendimento. “Gostando do que vê: um documentário” é uma história que coloca lenha na fogueira em muitas discussões atuais sobre a estética e a sociedade.

História da sua vida e outros contos é um grande livro de ficção científica por dar importância para as relações pessoais. Não é um livro sobre invenções mirabolantes, carros voadores ou viagens espaciais. Seus contos são, na verdade, uma reflexão do autor sobre o homem na sociedade e sua relação com a ciência. Aquilo que consideramos frio, sem emoções ou difícil de entender – a matemática e a física, por exemplo – pode ser usado para nos explicar. Mas mais legal do que isso é a maneira como ele aborda o que consideramos pseudo-ciência como algo concreto, em que tipo de mundo poderíamos viver caso essas fantasias fossem verdade. Já é um dos meus livros favoritos do gênero, junto com A mão esquerda da escuridão, da Ursula K. Le Guin, que também oferece visões muito interessantes sobre as relações humanas através da ficção científica.

Sabemos que é invenção, exercícios de imaginação, mas mesmo a fantasia mais maluca sobre o futuro ou o passado tem como principal ingrediente a forma com que nos relacionamos, e de alguma maneira essas histórias se refletem no que vivemos agora.