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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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“Quem matou Roland Barthes?”, de Laurent Binet

quem-matou-roland-barthesQuem matou Roland Barthes?, de Laurent Binet (tradução de Rosa Freire D’Aguiar), foi o último livro lido em 2016, e um dos meus preferidos do ano. É daqueles livros que você não sabe exatamente os motivos de ter gostado, ou apenas não consegue descrevê-los bem. Ele é divertido, ele é bem escrito, ele pode até ser considerado inventivo, apesar de ser uma clássica história de investigação policial, um quem matou quem – ou quem mandou alguém matar quem, neste caso –, um romance que usa elementos reais para criar uma absurda história de conspiração que envolve a linguagem. Talvez eu tenha gostado do livro porque finalmente usei o que tive que aprender de semiótica na faculdade. Talvez.

Roland Barthes estava atravessando a rua quando foi atropelado por uma camionete de lavanderia no dia 25 de fevereiro de 1980. Estava voltando para casa após um almoço onde estavam presentes vários políticos e estudiosos, incluindo o candidato socialista à presidência da França, François Mitterrand. Até aí, tudo aconteceu de verdade. O almoço e o atropelamento são o ponto de partida para a trama policial de Laurent Binet. Considerando o atropelamento um acontecimento suspeito, a polícia francesa coloca o delegado Jacques Bayard para investigar as causas do acidente. Suas perguntas para Barthes no hospital não surtem muito efeito: ele apenas descobre que seus documentos foram perdidos, mais um fato suspeito. Um mês depois do atropelamento, Barthes morreria no hospital.

Para conseguir mais informações sobre a vítima, Bayard vai atrás de seus colegas e alunos. É aqui que Binet começa a inserir na trama uma grande lista de pensadores do século XX: Julia Kristeva, Sollers, Derrida e, principalmente, Michel Foucault, encontrado sempre bêbado ou chapado acompanhado por jovens michês. Para um policial de direita que considera as ciências humanas coisa de “vagabundo”, entender o que esses intelectuais falam é impossível. Para conseguir avançar na investigação, Bayard recruta um jovem professor, Simon Herzog, que lhe traduz todos os termos e pensamentos confusos com que o delegado se depara. A partir daí a investigação decola de verdade, e ela envolverá russos, japoneses, búlgaros, americanos, franceses e um clube secreto de debates.

Descobre-se que a causa do atropelamento de Barthes é um documento que ele portava durante o almoço com Mitterrand. Acredita-se que esse documento continha a sétima função da linguagem, apenas esboçada por Roman Jakobson em sua teoria semiótica. A sétima função seria a persuasiva, um discurso elaborado de forma a convencer qualquer pessoa a fazer qualquer coisa, como palavras mágicas. O presidente da França, Giscard, está atrás deste documento, assim como seu adversário, Mitterrand, e intelectuais como Kristeva e Sollers. Todos querem pôr a mão naquilo que Barthes descobriu.

Pode parecer muito complicado entender toda a trama detetivesca de Binet, mas Quem matou Roland Barthes? é, na verdade, um livro muito bem-humorado. E não é preciso saber muito do tema para entendê-lo – eu, na verdade, sei pouco sobre semiótica, mal lembro das leituras que fiz na faculdade, mas o narrador de Binet é didático, não de um jeito chato, e te faz pegar o espírito da coisa. O meio intelectual da França nos anos 1980 é cheio de porras-loucas, um pensador parece mais doido que o outro, e um romance que tinha tudo para ser maçante se torna divertidíssimo. Isso por causa do próprio Bayard, que julga negativamente todos que encontra, até começar a estabelecer uma amizade com Herzog e entender o que aquilo tudo significa – a ponto dele mesmo soltar frases que antes lhe fariam virar a cara.

Com cenas por vezes absurdas, outras com uma graça sutil, Quem matou Roland Barthes? é bom por ser simples: sua estrutura é de um romance policial clássico, daqueles que você lê e quer saber logo qual será o desfecho. E, claro, o bom-humor de Binet é o que o livro tem de melhor.