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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Swing Time, de Zadie Smith

swing-timeDuas meninas se conhecem nas aulinhas de dança do bairro. Duas meninas pardas, filhas de pais brancos e negros. Uma delas, Tracey, demonstra um talento singular logo de início. A mãe, branca e espalhafatosa, mima a garota com o que ela quer, e Tracey tem uma liberdade que nenhuma outra criança do bairro tem. O pai, negro, está preso – mas para a pequena Tracey ele está em turnê com Michael Jackson. A outra menina, que vem a ser a narradora de Swing Time, romance mais recente de Zadie Smith, não tem o mesmo talento, mas é apaixonada por musicais – com todas as suas canções e danças. Sua mãe, descendente de jamaicanos, é uma dona de casa mergulhada em leituras que tenta passar à filha um senso de identidade. O pai, branco, trabalha nos correios e, apesar de apaixonado pela esposa, sente que é deixado de lado pelo seu autodidatismo. Tracey e a narradora são duas crianças com muito em comum, mas também guardam diferenças gigantescas.

Swing Time começa com a narradora já em seus trinta e poucos anos, voltando para Londres após ser demitida de seu emprego como assistente pessoal de uma cantora pop australiana mundialmente famosa – algo tipo uma Madonna. Não sabemos o motivo da demissão e nem por que a narradora está recebendo tantas mensagens raivosas em seu celular, trancada num quarto de hotel sem contato com a família ou amigos. Mas ao passear pela cidade ela começa a revelar sua história, e essa amiga de infância, Tracey, tem papel fundamental nela.

A amizade das duas garotas se assemelha bastante, no início, com a que Elena Ferrante apresenta em sua tetralogia napolitana. Uma garota de “gênio forte”, inteligente e persuasiva, arrasta a amiga mais quietinha para todas as suas brincadeiras – amiga essa que conta a história anos depois. As duas têm a mesma relação de competição e admiração uma pela outra, como se algo as afastasse e atraísse ao mesmo tempo. Apesar dessa parte de Swing Time se passar nos anos 1980 e 1990, e não nos anos 1950 e 1960, alguma coisa na relação destas meninas se mantém inalterada: as descobertas juvenis, a lealdade, os primeiros contatos com garotos e as pequenas transgressões. Mas diferente de Ferrante, que a cada livro adota um estilo mais linear, Smith vai e volta no tempo em sua narrativa: a mulher que nos conta a história – cujo nome não conhecemos – intercala a vida de Tracey com a de sua mãe e sua chefe, Aimee.

Zadie Smith discute a identidade e o lugar da mulher negra na sociedade com este romance. Os constantes estudos da mãe da narradora sobre a cultura negra e a política levam-na a se tornar uma representante da comunidade, um bairro pobre e com muitas demandas. Ela procura dar à narradora uma educação que não a trate como uma criança ingênua, que não a proteja dos males do mundo. A protagonista é ensinada que, para ela vencer, ela tem que ser dez vezes melhor que os outros. Desde cedo, ela tem contato com as ideias do feminismo, de que ela não é incapaz de fazer algo por ser mulher. Mas ao mesmo tempo em que reconhece a mãe por suas conquistas, a narradora também se ressente pelo que ela considera um abandono: a mãe não abria mão de seus ideais e lutas pela filha, não era tão “dedicada” a ela como era a mãe de Tracey.

A narradora cresce, então, com grandes exemplos de mulheres poderosas ao qual se espelhar, mas conforme os anos passam ela desvia desse futuro brilhante imaginado pela mãe. Ela está sempre no segundo plano, se auto sabotando, com receio de aparecer demais, de ser notada como Tracey, sua mãe e Aimee são. Talvez por isso tenha sido convidada para trabalhar como assistente de uma estrela do pop, colocando-se sempre à sombra, pronta para realizar todas as suas demandas. Aimee é aquele tipo de artista mimada que pensa poder resolver tudo com boa vontade e dinheiro. Filantropa, seu maior projeto é construir uma escola para garotas num vilarejo de um país africano (provavelmente na Gâmbia). A narradora é sua principal ponte de contato com o projeto enquanto segue com sua carreira de cantora, e por isso boa parte do romance também se passa na África.

Nesse ponto do romance, Zadie Smith novamente aborda a questão da cor, só que na Gâmbia a narradora é “clara” demais para ser tratada como igual. Vindo do “primeiro mundo”, cheio de privilégios, seus novos amigos a tratam com solenidade, mas com aquele quê de deboche por ela não ter ideia do que é pobreza e sofrimento, por ter crescido com um conforto que eles nunca tiveram. A narradora também observa as grandes diferenças que a separam daquelas mulheres, responsáveis por todos os afazeres domésticos, com a vida voltada apenas para atender às demandas da família – sendo que ela, pela natureza de seu emprego e pela própria personalidade, nem se imagina tendo uma família. São ambientes completamente opostos esses em que ela transita, por um momento vivendo no luxuoso apartamento de Aimee, na semana seguinte abrigada em uma cabana sem luz elétrica no meio da África.

“I, meanwhile, was caught completely unawares by adolescence, still humming Gershwin songs at the back of the classroom as the friendship rings began to form and harden around me, defined by colour, class, money, postcode, nation, music, drugs, politics, sports, aspirations, languages, sexualities… In that huge game of musical chairs I turned round one day and found I had no place to sit. At a loss, I became a Goth – it was where people who had nowhere else to go ended up.”

E assim, com esse background formado, a narradora expõe esse sentimento de não pertencimento no mundo: ela se distancia de Tracey no final da adolescência, pela divergência de interesses e pela própria “selvageria” da amiga; apesar das lições da mãe, não se enxerga como uma mulher forte, independente e talentosa, do tipo que poderia conquistar o mundo; já Aimee vive num lugar cheio de gente egocêntrica que pensa poder acabar com todos os problemas da civilização com alguns milhões de dólares, sem medir as consequências das suas ações. A protagonista se identifica mais nos passos de Fred Astaire do que nas figuras femininas que têm maior papel em sua vida.

Swing Time é um livro que faz você mergulhar de cabeça na vida e nos pensamentos dessa narradora, com vários temas pertinentes à atualidade sendo pincelados aos poucos: a filantropia, a tecnologia, o slut-shaming, o julgamento, a raça, a apropriação cultural e a identidade. As pessoas não são preto-no-branco, personalidades não podem ser definidas entre boas ou ruins, são muito mais complexas do que isso. E a narradora claramente não sabe para onde se voltar em meio a toda essa gente. Ela não se espelha como acha que deveria no exemplo da mãe – forte, independente, inteligente, que luta por um ideal concreto –, ou em Aimee – também independente, rica, bem-intencionada, espiritualizada. A maior influência em sua vida é Tracey, que apesar de conseguir trabalhos como dançarina profissional ainda vive no mesmo apartamento pobre de seu bairro de infância. É em Tracey que a narradora enxerga alguém “como ela”, uma mulher que também sente esse deslocamento, a falta de um lugar para pertencer. Mesmo viajando todo o mundo, vivendo confortavelmente e podendo, de alguma forma, ajudar quem precisa, a protagonista encontra-se sozinha em todos os momentos, duvidando do seu trabalho, enxergando coisas erradas onde tudo deveria estar certo. Falta a ela a ousadia de Tracey, a determinação da mãe e a iniciativa de Aimee.

“He isn’t doing that right – that was a very important one. I was what Astaire claimed he was thinking whenever he watched himself on screen, and I noted that third-person pronouns. This is what I understood by it: that for Astaire the person in the film was not especially connected with him. And I took this to heart, or rather, it echoed a feeling I already had, mainly that it was important to treat oneself as a kind of stranger, to remain unattached and unprejudiced in your own case.”

Temos acesso apenas ao que a narradora enxerga e pensa, e ela te leva a entender sua linha de raciocínio e e seus julgamentos errôneos. Compreende-se a raiva crescente que ela nutre por Aimee, por conseguir enxergar além de seu sucesso e boa vontade. Entendemos a falta de laços maiores com a mãe, tão concentrada nos estudos e na política que deixou de notar as necessidades da própria filha. Com Tracey é que a relação é um pouco mais difícil de definir. Mesmo separadas, ficando anos sem saber sobre a vida uma da outra, a garota ainda exerce forte atração na narradora, como um lembrete vivo daquilo que ela desejava ser quando era criança.

Quando li NW, romance dividido em quatro partes e narrado por quatro amigos do mesmo bairro – duas mulheres e dois homens –, gostei mais dos capítulos centrados na vida das mulheres, acho que Smith é muito boa na construção das personagens femininas por conferir essa complexidade em suas histórias. E aqui em Swing Time é isso o que acontece: a narradora e todas as outras mulheres representadas no livro são difíceis de definir, não por falta de informação ou problemas de caracterização, mas porque a narradora observa tanto e vive tanto que não chega à uma conclusão exata de quem está certo ou errado, se ela mesma está levando a vida do jeito que queria – e o que, na verdade, ela quer?

No fim do romance, quando descobrimos finalmente o que causou sua demissão, porque está tão afastada da família e por onde anda Tracey é que vemos a narradora confortável com sua própria identidade, quando ela está livre pela primeira vez para viver por ela mesma, e não sob a sombra de alguém. E eu gosto desses personagens, dessa luta para descobrir quem se é e onde pertence, que é o que ela vive durante todo o livro.

“Oh, it’s very nice and rational and respectable to say that a woman has every right to her life, to her ambitions, to her needs, and so on – it’s what I’ve always demanded myself – but as a child, no, the truth is it’s a war of attrition, rationality doesn’t come into it, not one bit, all you want from your mother is that she once and for all admit she is your mother and only your mother, and that her battle with the rest of life is over. She has to lay down arms and come to you. And if she doesn’t do it, then it’s really a war, and it was between my mother and me.”