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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Altos voos e quedas livres, de Julian Barnes

altos-voos-e-quedas-livres“Toda história de amor é uma história de sofrimento em potencial”, diz Julian Barnes em vários momentos de Altos voos e quedas livres (tradução de Léa Viveiros de Castro). As 128 páginas desse livro enganam, assim como o início, Pode parecer uma história leve sobre balonismo, as primeiras pessoas que se aventuraram pelo ar, os pioneiros que pensaram em unir balão com câmera fotográfica e mostrar para quem nunca esteve lá em cima como é ver a cidade de tão alto. Mas Altos voos e quedas livres é um livro sobre amor e perda – amor que nos leva tão para o alto; perda que nos derruba sem aviso.

Até quase metade do livro, Barnes concentra a narrativa no balonismo: seus pioneiros, aqueles que acertaram ou erraram seus voos, os que foram parar em lugares inusitados, levados sem rumo pelo vento. Fred Burnaby, Sarah Bernhartd, Félix Tournachon: pessoas que no final do século XIX despertavam admiração e espanto por suas estripulias aéreas, que são usadas pelo autor como uma metáfora da própria vida. “Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes. E o mundo se transforma”, escreve Barnes, falando de como Tournachon, apelidado de Nadar, passou a fotografar de um balão, ou como pessoas como Burnaby e Sarah, tão diferentes em suas ambições, tiveram um breve affair. Da mesma forma, Barnes junta duas coisas que não imaginaríamos ver no mesmo lugar, o balonismo e o luto.

Há três histórias de amor neste livro: Nadar e Ernestine (e o balão e a fotografia), Burnaby e Sarah, Barnes e Pat. As fotos aéreas de Nadar se perderam, seu grande balão, batizado de O Gigante, caiu em seu primeiro voo, Ernestine morreu e ele não sobreviveu muito tempo após ela. Já Burnaby e Sarah, foco da segunda parte do livro, tiveram um apaixonante caso breve, ele querendo casar, ela preferindo manter-se aberta para outros relacionamentos. Os dois se separam, Burnaby morre na guerra, Sarah se casa com outro homem, e eles nunca mais se encontram. Já Barnes teve 30 anos de felicidade ao lado de Pat Kavanagh, até que a esposa descobre um tumor no cérebro e em pouco tempo morre. É aqui que Altos voos e quedas livres chega ao assunto que realmente quer tratar.

“Você junta duas pessoas que nunca foram juntadas antes. Às vezes é como aquela primeira tentativa de atar um balão de hidrogênio a um balão de fogo: você prefere cair e pegar fogo ou pegar fogo e cair?”

Após a perda de Pat, Barnes perde o seu rumo. Ele sente a falta concreta da esposa, em cada ponte em que costumava passar com ela, em cada canto da casa onde ela antes ficava, nos objetos que ela deixou para trás, nas palavras que ela disse em alguma conversa banal. O escritor define essa dor dizendo se sentir “como se tivesse despencado de uma altura de centenas de metros, consciente o tempo todo, caído em pé sobre um canteiro de rosas com um impacto que fez ficar enterrado até os joelhos, e cujo choque fez com que seus órgãos internos se rompessem e explodissem para fora do corpo”. Falando dos balões, de Sarah, Nadar e Burnaby, Barnes encontra palavras para descrever essa sensação de queda livre que é amar alguém por tanto tempo e, de repente, se ver sozinho no mundo.

Essa tristeza que “dói exatamente o quanto vale” não é um medo da solidão. Barnes escreve que há dois tipos de solidão no mundo: aquela que se sente com a perda da pessoa amada e a solidão de quem nunca encontrou o amor, sendo a segunda a mais terrível de todas. Ao descrever com uma beleza melancólica o significado da perda – abordando sem constrangimento os sentimentos que se seguiram à morte de Pat, como os pensamentos suicidas e a vontade de isolamento –, o autor fala principalmente do amor, de como conscientemente se entregou a alguém, compartilhou uma vida com a esposa sabendo que em algum momento isso iria acabar – com o sofrimento para ambas as partes ou para apenas uma delas.

É como se Barnes listasse estágios do luto: uma certa raiva por ter sido abandonado – não que isso fosse uma escolha de Pat –, o desprezo pelo universo, tão perverso que se atreveu a lhe tirar aquilo que mais amava, o constrangimento insuportável dos amigos que evitam falar de sua esposa para não o entristecer – quando o que ele mais quer é falar sobre ela, ouvir histórias sobre ela, saber que memórias os amigos tinham dela. Pat, mesmo ausente, estava em todos os lugares, como uma voz dentro de sua cabeça completando suas conversas imaginárias – que não se estendem para situações novas, pois Barnes não é capaz de adivinhar como ela reagiria – ou em seus sonhos.

Altos voos e quedas livres é uma história triste, ainda mais porque é real – Pat está, inclusive, creditada na orelha do livro como se fosse autora, porque ela é parte imprescindível da vida do autor. Mas para chegar a esse ponto, para a dor da sua falta ser tão imensa, é necessário ter uma alegria imensa. O encontro dessas duas pessoas, todos os momentos que passaram juntos, todo o amor que alimentou a vida dos dois. Antes da queda livre que espalhou os órgãos de Barnes pelo chão, houve o voo mais alto e belo de todos.

“Nós vivemos na superfície, no nível horizontal, e no entanto – e por isso – nós sonhamos. Animais rasteiros, às vezes chegamos tão longe quanto os deuses. Alguns voam por meio da arte, outros da religião; a maioria do amor. Mas, quando voamos, podemos cair. Existem poucos pousos suaves. Podemos nos ver batendo no chão com violência, arrastados na direção de uma estrada de ferro estrangeira. Toda história de amor é uma história de sofrimento em potencial. Se não a princípio, então depois. Se não para um, então para o outro. Às vezes, para ambos.

Então por que constantemente desejamos amar? Porque o amor é o lugar onde verdade e magia se encontram. Verdade, como na fotografia; magia, como no balonismo.”