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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Lincoln in the Bardo, de George Saunders

lincoln-in-the-bardoGeorge Saunders é um dos principais nomes do conto norte-americano. Aqui no Brasil, lançou Dez de dezembro, livro que reúne dez contos que, como escrevi na época, são “de alguma forma ligados a questões como a realidade obscura da vida no subúrbio, conflitos morais, o cotidiano com suas falhas, acertos, dramas e comédias”. Os contos possuem certa dose de fantasia, ou de absurdo, mas são, basicamente, sobre questões existenciais, sobre o comum da vida. Lembro de ter gostado de tudo nesses contos: dos enredos, das personagens, da maneira com que Saunders escreve. Então não foi por puro acaso que li Lincoln in the Bardo, seu primeiro romance que foi lançado no começo desse ano.

Lincoln in the Bardo chegou com grande barulho lá fora (aqui deve ser lançado mais para o fim do ano). Não só por ser a primeira narrativa longa de Saunders, que também dá aulas de escrita criativa, mas por causa da própria inventividade do autor. Outro detalhe chamativo é o seu audiobook, que tem um elenco invejável: Nick Offerman, David Sedaris, Carrie Brownstein, Ben Stiller, Julianne Moore, Miranda July, Susan Sarandon, Jeff Tweedy, Bill Hader, o próprio Saunders e muito mais gente. Só essa lista já dá uma ideia do que é essa história e de como ela é contada, e aumentou todas as minhas expectativas para a leitura. Expectativas que foram muito bem alcançadas.

O mote para o livro é a morte de Willie Lincoln, terceiro filho do presidente Abraham Lincoln. Willie morreu aos 12 anos de idade, provavelmente de febre tifoide, e conta-se que, na noite de seu enterro, o presidente voltou diversas vezes para o túmulo do filho para tirá-lo do caixão e abraçá-lo. É desse “causo” que Saunders parte para criar a trama e o “bardo”, um local que seria uma espécie de limbo, onde os mortos ficam presos, incapacitados de “seguir em frente”. Lincoln in the Bardo não tem um narrador. Na verdade, tem dezenas de narradores, mas podemos dizer que os principais são Hans Vollman e Roger Bevins III, fantasmas que habitam o cemitério Oak Hill e são os primeiros a receber o jovem Willie. Só que eles não são fantasmas “normais”: Vollman sustenta uma constante ereção, enquanto Bevins possui dezenas de mãos, olhos, bocas e narizes. O reverendo Everly Thomas, também um “fantasma” com bastante voz na trama, por sua vez, apresenta sempre uma cara de assustado. E assim é com todas as outras personagens não vivas deste romance, cada uma com uma característica absurda que dá uma pista sobre as suas mortes.

Os mortos não são os únicos que contam essa história. Saunders mistura citações de obras fictícias e reais para narrar o que acontece no mundo dos vivos – os mortos, afinal, são saem do cemitério e praticamente não têm contato com quem está “do outro lado”. Assim, a doença e consequente morte de Willie é contada através dessas citações, que por vezes se contradizem e em outras se complementam, dando dimensão do sofrimento da família Lincoln com a morte de Willie e contextualizando também o tempo em que a trama se passa: nos idos da Guerra Civil americana, quando a popularidade de Lincoln não era lá muito positiva.

Mas voltando ao bardo: Vollman, Bevins e o reverendo, ao verem Willie sentado no telhado do mausoléu, tomam como missão salvá-lo. Sem dizer claramente por que, crianças não se saem bem naquele lugar, e é melhor para todos que elas passem logo para o outro lado. Os três tentam convencê-lo a ir embora, a aceitar seu destino e seguir em frente, mas o garoto se recusa: ele sabe que o pai irá voltar e levá-lo dali. Quando Lincoln realmente volta e abraça o filho morto de forma tão íntima e emocionante, os moradores do bardo ganham um pingo de esperança de que eles também vão rever os seus entes queridos. De que eles poderão novamente se comunicar com quem está vivo.

That kind of touching –
roger bevins iii

No one wants that.
hans vollman

But this – this was different.
roger bevins iii

The holding, the lingering, the kind words whispered directly into the ear? My God! My God!
the reverend everly thomas

To be touched so lovingly, so fondly, as if one were still –
roger bevins iii

Healthy.
hans vollman

As if one were still worthly of affection and respect?
It was cheering. It gave us hope.
the reverend everly thomas

We were perhaps not so unlovable as we had come to believe.
roger bevins iii

Porque essas pessoas estão em negação. Para elas, não estão mortas, apenas doentes, e logo poderão voltar para “o lugar de antes”. Eles evitam confirmar qualquer indício de que não estejam mais vivos, como, por exemplo, a escolha de palavras para designar o local onde seus corpos repousam: não é um caixão, é uma “sick-box”, como Bevins e Vollman repetem a cada vez que a palavra “caixão” está prestes a ser mencionada. As interrupções nas falas são, aliás, característica importante da história. Pois a narrativa não é “bonitinha”, arrumada, linear. Saunders criou dezenas de monólogos, com as personagens interrompendo umas às outras na ânsia de contar como foram parar lá, como eram as suas vidas antes de irem para o cemitério. E isso deixa a trama rica e divertida: há fantasmas que estão lá há tanto tempo e contaram suas histórias tantas vezes que as outras personagens são capazes de recitar as palavras exatas que elas usam toda vez que se expressam, inclusive ajudando o interlocutor a lembrar do que queria dizer.

Não vou deixar de dizer que, no início, todas essas vozes podem parecer confusas. O livro já começa com um baita monólogo de Vollman contando como morreu, bem no momento em que Willie chega ao bardo. E, logo depois, Saunders passa a narrar um jantar suntuoso na Casa Branca, enquanto o jovem Willie convalesce em seu quarto, tudo contado com frases curtas, trechos cortados, contraditórios. Mas não demora para você pegar o ritmo e reconhecer a forma com que cada um fala – Saunders, claro, identifica cada personagem logo após o trecho correspondente a ela, mas ele também cria maneiras diferentes de falar para cada uma, e você passa a ler os trechos com uma entonação e ritmo diferentes.

E há vários mistérios nessa história. Aos poucos Saunders vai revelando o que é o bardo, o que os fantasmas fazem lá, como morreram, o que esperam. Com a presença de Lincoln, querem encontrar uma maneira de se comunicar com os vivos e, quem sabe, até poder influenciá-los. Querem que Lincoln convença Willie a deixar o lugar, mas também querem que ele passe suas mensagens para os familiares e amigos daqueles que morreram – sem saber que, estando lá há tanto tempo, eles também já devem estar mortos. Vollman e Bevins, por exemplo, acreditam que exerceram essa influência no presidente e fizeram ele voltar no cemitério, embora às duvidem que tenham tido essa capacidade. É nesse momento que eles descobrem que, entrando no corpo de alguém vivo, eles conseguem ver todas as suas memórias e pensamentos, e assim descobrem quem é Abraham Lincoln, o que está acontecendo nos EUA, e têm uma ideia do que acontece no mundo que deixaram há tanto tempo.

Outro mistério é: para quem eles falam? Você não sabe quem é o interlocutor dos fantasmas, com estão falando. Não existe um narrador que diz “Vollman falou isso, Bevins fez aquilo”, são eles mesmos quem contam, que dizem quem falou o que e para quem. Às vezes eles mesmos se dão conta disso, de que estão contando uma história, e se perguntam a mesma coisa.

Lincoln in the Bardo é um livro muito bem-humorado, mas não deixa de ter seus momentos mais pesados: há pessoas de todos os tipos no cemitério, muitos foram escravos e sofreram incontáveis violências, como uma jovem negra que foi estuprada tantas vezes por seus donos que não consegue mais falar – sua história é contada através dos fantasmas que a acolheram. Há divisão entre brancos e negros, que são relegados a uma parte mais distante do cemitério e mal conseguem se aproximar de Willie e de seu pai. É a maneira que Saunders encontrou de mostrar um pouco mais sobre aquela época e o contexto em que aquelas pessoas viveram.

Mas o romance é, basicamente, um livro sobre amor e esperança. As falas de Abraham Lincoln sobre seu filho são muito bonitas, emocionam os fantasmas, tão abandonados pelos vivos. Embora cada um deles queira resolver aquilo que não ficou resolvido quando morreram, eles se comovem com a dor de Lincoln e Willie, isso lhes dá esperança. Por todas as personagens e pela forma que estrutura o livro, George Saunders fez de Lincoln in the Bardo uma história maravilhosa.

“What I mean to say is, we had been considerable. Had been loved. Not lonely, not lost, not freakish, but wise, each in his or her own way. Our departures caused pain. Those who had loved us sat upon their beds, heads in hand; lowered their faces to tabletops, making animal noises. We had been loved, I say, and remembering us, even many years later, people would smile, briefly, gladdened at the memory.”
the reverend everly thomas