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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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História da menina perdida, de Elena Ferrante

historia-da-menina-perdidaUma das coisas que mais gosto na série napolitana da Elena Ferrante é que ela consegue te manter presa a qualquer detalhe da história. A amiga genial já era, desde os primeiros capítulos, uma narrativa cativante: o bairro pobre de Nápoles dos anos 1950, os sonhos infantis das duas meninas de serem autoras de livros importantes, o constante embate que as duas travavam, uma tentando superar a outra, mas nunca se ressentindo por completo. Mas o que me pegou mesmo foi o final do livro. Aquele final novelesco de “você só vai saber no próximo episódio” – nesse caso, no próximo volume da série –, “o que aconteceu naquele momento derradeiro”. E Ferrante segue assim, deixando esse suspense do que irá acontecer, do que Lila vai fazer ou de como Lenu vai contar suas memórias.

História da menina perdida, o último livro da série, já chegou com a expectativa de resolver o mistério que Ferrante apresentou no primeiro livro: onde está Lila, como ela conseguiu sumir completamente, sem deixar para trás nada do que foi seu – nem dinheiro, nem cartas, nem fotos, nada. Lila se “deletou”, como havia afirmado para a amiga que gostaria de fazer. Não quer pertencer a nada, quer desaparecer como um todo, sem deixar sinal de que ela um dia existiu. Contrariando a amiga – como um último ato de rebeldia –, Lenu conta toda a sua história, misturando a vida das duas meninas que se conheceram no bairro brincando de bonecas com a história da Itália, as duas crescendo e virando mulheres com filhos para criar enquanto o mundo acelera nas suas mudanças. É o que Ferrrante entrega do primeiro ao último livro. E os mistérios que tanto queríamos desvendar, bem, eles serão para sempre mistérios.

Neste quarto volume, que compreende a vida adulta e a maturidade de Lenu e Lila, continuamos a partir do ponto em que o terceiro livro, História de quem foge e de quem fica, parou (se você ainda não leu, recomendo parar por aqui): Lenu abandona Pietro, seu marido, e as duas filhas, Dede e Elsa, para fugir com Nino, o antigo amante de Lila e sua paixão infantil. Quem leu A filha perdida, um dos livros de Ferrante fora da série napolitana, pode reconhecer aqui um detalhe da trama: a mulher revela, para chocar seus novos amigos, que abandonou o marido e as duas filhas durante anos para viver um grande amor. Mas o que acontece com Lenu – sua história, mais adiante, também se cruza novamente com a do outro livro – não é o que acontece com a narradora de A filha perdida. Lenu passa, sim, a viver com Nino, mas conquista certa harmonia com Pietro e consegue manter as filhas por perto, após certo período de incertezas e mudanças. Com Nino, Lenu volta a viver em Nápoles e se reaproxima novamente de Lila.

Apesar de boa parte da narrativa se passar nos anos 1980, não parece que Nápoles mudou tanto em comparação com os anos narrados no primeiro livro. O bairro ainda é controlado pelos Solara, a violência ainda impera na cidade, acentuada pelos embates políticos que envolvem o lugar. Lila seria um dos sinais da modernidade chegando. Se no terceiro livro ela começa a se interessar pela computação, estudando aquelas máquinas que ninguém entendia e participando da informatização das empresas do lugar (trabalhando, veja bem, para os Solara), aqui ela tem sua própria empresa, conquista riqueza e exerce no bairro certo poder. Lila é quase como que uma opção aos Solara, que adicionam à lista de negócios ilícitos o tráfico de drogas. Mas apesar dos computadores, dos programas, das mudanças, o bairro ainda é essencialmente aquilo que sempre foi – confuso e violento.

É claro que as coisas não ficam por isso mesmo. Nino prova ser aquilo que Lila sempre alertou que ele seria: um cafajeste. Nino é, posso dizer, a imagem bem definida do “esquerdomacho” – o homem que faz lindos discursos sobre a liberdade da mulher, principalmente a sexual, que incentiva sua independência, sua sabedoria, elogia os dons de qualquer dama, mas apenas para usá-las para alcançar seus objetivos, sejam eles profissionais ou pessoais. Assim como fez com a esposa, com todas as amantes que existiram antes de Lenu e com as que vieram depois, o padrão era esse: conquistar para conseguir algo em troca, machucando quantas mulheres fosse preciso pelo caminho. É nesse ponto, quando descobre o que Nino é capaz de fazer, que Lenu se sujeita ao medo que sentiu desde que deixou o bairro. O medo de um dia ter que voltar para lá.

No âmbito profissional, porém, Lenu está muito melhor do que no pessoal. Seus dois primeiros livros, que versavam sobre a vida em Nápoles e questões do feminismo, conquistam certa fama. Seu terceiro, ainda mais revelador e que se alimenta basicamente das histórias que viveu e ouviu no bairro, a torna um sucesso de vez. Voltar para lá, respirar novamente aquele ar, só contribui para seu crescimento como autora, amplia a visão sempre viciada que teve do lugar. Depois de conviver com intelectuais, de ter acesso às grandes mentes italianas, voltar para o lugar onde cresceu mostra a Lenu que aqueles que viveram com o nariz enfiado nos livros não são em nada melhores que aqueles que nunca viraram uma página. Não significa que ela ainda não fique horrorizada com a brutalidade, que não desaprove a falta de leis, apenas que, mesmo com tanta leitura e conhecimento, as pessoas continuam sendo o que são: pequenas. Apenas Lila, que mantém o comportamento contraditório, a mente aguçada e uma aversão pelos estudos, é que tem a complexidade que qualquer outra pessoa que passou pela sua vida não tem.

É assim que Ferrante continua a retratar a relação entre Lila e Lenu. Lila ainda tem suas mudanças bruscas de humor, se interessa por algo e o deixa de lado tempos depois, critica e elogia Lenu pelas suas conquistas, tudo ao mesmo tempo. Lenu ainda não consegue penetrar na sua mente para desvendar como ela pensa, porque faz o que faz e diz o que diz. Ainda mais agora, que parece guardar segredos do bairro, que demonstra saber de mais coisas do que qualquer outra pessoa, sem revelar nada à amiga. Se Lenu se sentia fora de contexto quando estava na faculdade, nas livrarias, nos simpósios, nos lançamentos de livros, de volta ao bairro ela sente que novamente que não pertence àquele lugar: Lila a mantém afastada dos problemas, e as pessoas a tratam ora com respeito exacerbado – “a escritora” –, ora usam o mesmo argumento para diminuí-la – alguém que não sabe nada da vida real, só sabe dos livros. E é isso o que mais me interessa nessa série, essa batalha de identidades – Lenu não se sente confortável em nenhum lugar.

A relação de Lila com Lenu continua sendo turbulenta, pois elas estão longe de serem perfeitas. Opiniões e desejos mudam, se chocam, e por mais intimidade que conquistem, sempre há uma barreira impedindo que uma compreenda a outra. Qualquer pessoa desistiria de Lila no primeiro olhar atravessado, mas não Lenu. Ela sabe que a amiga de infância tem papel importante naquilo que ela é hoje, e ela sabe, também, que é submissa em relação à Lila. Quando escreve um livro, quando veste as filhas, quando se veste, espera primeiro a reação da amiga, tem esperanças de que ela a elogie, de que diga como ela é bonita e inteligente, sendo que essas não são palavras que Lila dirá facilmente – e aí fica a dúvida: quando ela as diz é porque está fragilizada ou porque quer algo de Lenu? Se Nino usava as mulheres para ascender academicamente, Lila não seria muito diferente ao manipular as pessoas do bairro – até os Solara – a fazer o que ela quer.  Mas ao contrário de Nino, que goza das conquistas sem remorso, Lila parece querer abraçar todos os problemas do lugar para ela, pois é só assim que ela terá controle da própria vida.

O que Lenu parece entender sobre Lila é isso: ela tem medo. Fora as férias na praia quando era jovem, Lila nunca deixou Nápoles – nunca pegou um trem ou avião, como a narradora constata em certo ponto. Todas as ofensas e críticas que eventualmente Lila dirigiu à Lenu poderiam ser, na verdade, críticas a ela mesma. Por ver uma Lenu tão intelectual, viajada, sábia, Lila se recolhe à sua ignorância, a idolatra por temer dar vasão às ambições de quando era criança e descobrir que, ao contrário de Lenu, ela não tem esse talento. Enquanto Lenu teme exatamente o contrário: que qualquer frase escrita por Lila, mesmo ela não conhecendo o mundo, não acompanhando os debates sociais e políticos, não lendo literatura, ainda seria mil vezes superior a tudo o que escreveu. A sombra do que Lila poderia ser continua a perseguir Lenu.

Outra questão é que o bairro é o único lugar onde Lila se movimenta livremente. Ela conhece todas as pessoas e todos os lugares, ela tem controle sobre elas, controle que não existiria caso ela se atravesse a ultrapassar as fronteiras da cidade. Sua vida toda aconteceu em Nápoles, sua luta contra homens violentos e opressores se deu lá, e é lá que ela continuará lutando – nenhum outro lugar importa. Nápoles está impregnada em Lila, e por isso é tão estranho que, quando ela some, é como se ela nunca estivesse estado lá.

História da menina perdida tem muito mais coisas do que eu tentei resumir aqui – como a própria menina do título. Elena Ferrante continua a explorar o cotidiano da mulher, às voltas com o trabalho e com os filhos, com a família e os homens, mas mostrando aqui muito mais independência por parte das protagonistas. E mesmo depois de tantos dramas e páginas, vitórias e desgostos, idas e vindas nessa amizade, nascimentos e mortes no bairro, ainda não temos um retrato claro de quem foi Lila, para onde ela foi, o que quis transmitir ao sumir. Mas não teria graça se, de uma hora para outra, ela se revelasse sem obstáculos para Lila. Mesmo na maturidade, passando dos 60 anos, é a amiga que ainda incentiva a narradora a escrever. Lila faz parte do que Lenu é, mais do que qualquer amante, mais até que suas próprias filhas. Lila e Lenu vão, certamente, deixar muita saudade.